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‘Situação nas fronteiras da Líbia foge do controle’, diz Acnur

Representante da agência da ONU para refugiados conta que muitas pessoas são empurradas e pisoteadas pela multidão, além de passarem frio e fome

Por Cecília Araújo - 2 mar 2011, 19h15

Enquanto a Liga Líbia dos Direitos Humanos estima que os conflitos provocados pela repressão violenta das manifestações contra o governo de Muamar Kadafi tenham deixado 6.000 mortos, as regiões próximas às fronteiras do país também vivem dias de horror. Em entrevista ao site de VEJA, o porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) Adrian Edwards admite que a situação está quase fora de controle e que é difícil manter o otimismo. Na última terça-feira, a Acnur informou que 140.000 pessoas deixaram o território líbio desde 20 de fevereiro para fugir da repressão.

Contudo, este número pode ser muito mais alto, chegando a 77.000 refugiados na fronteira com o Egito e 90.000 na fronteira com a Tunísia. Segundo informantes do Acnur, são quilômetros e quilômetros de filas com pessoas aguardando para sair da Líbia. “Os refugiados também sofrem com o frio e a falta de alimento, água e abrigo”, acrescenta Edwards. Diante deste cenário, que beira a uma crise humanitária, o Comissariado da ONU faz um apelo à comunidade internacional por ajuda na retirada dos refugiados, em sua maioria estrangeiros que trabalhavam na Líbia. Confira a entrevista na íntegra:

Quem são essas dezenas de milhares de refugiados?

São trabalhadores vindos em sua maioria do Egito, mas também da Tunísia, de Bangladesh, da China, do Vietnã e de outras nacionalidades, que trabalhavam na Líbia.

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O alto comissário da Acnur, António Guterres, demonstrou no início da semana extrema preocupação com essas pessoas. Como está a situação nesta quarta-feira?

A situação continua caótica. Não temos números fechados de pessoas que esperam para cruzar a fronteira, embora tenhamos a notícia de que eles são altíssimo e aumentam a cada hora. São dezenas de milhares de trabalhadores.

As Nações Unidas chegaram a informar que 2.000 pessoas tentavam cruzar a fronteira entre a Líbia e a Tunísia por hora, na última terça-feira. Podemos dizer que a situação já fugiu do controle?

Especificamente na cidade fronteiriça de Ras Jdir, a situação está quase fora de controle. O número enorme de pessoas que cruzam a fronteira excede a capacidade das autoridades de lidar com a situação. A Cruz Vermelha da Tunísia informou que vários refugiados foram empurrados e pisoteados. O clima é de bastante tensão, houve momentos em que foram até ouvidos tiros. Os refugiados também sofrem com o frio e a falta de alimento, água e abrigo.

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Campo de refugiados em Ben Gardane, na Tunísia
Campo de refugiados em Ben Gardane, na Tunísia VEJA

O que já foi feito até agora?

Do lado tunisiano da fronteira, a Acnur estabeleceu um acampamento de refugiados que abriga cerca de 10.000 pessoas – e esperamos dobrar essa capacidade até amanhã. Aqueles que conseguem atravessar a fronteira recebem comida em sua chegada, com a ajuda de autoridades da Tunísia e de moradores locais. O grande problema é que, se pensarmos que do outro lado da divisa ainda há cerca de 80.000 a 90.000 pessoas esperando para cruzá-la nos próximos dias, transportá-las tomará ainda muito tempo.

Que tipo de ajuda internacional é necessária?

Fazemos um apelo à comunidade internacional para que nos ajudem na retirada das dezenas de milhares de pessoas que congestionam a fronteira em barcos e aviões. É importante lembrar que os maiores ferries de passageiros do mundo têm capacidade apenas para cerca de 2.000 pessoas. É uma retirada massiva que necessita de ajuda do máximo possível de países. Alguns já se dispuseram a cooperar, acredito que por toda parte as pessoas reconheçam que este é um problema histórico real.

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Qual a orientação para aqueles que ainda não saíram da Líbia e ainda desejam fugir do pais?

Orientamos para que fiquem onde estão, que se mantenham seguros e a caminho de suas casas. Não incentivamos o deslocamento dos trabalhadores que fogem pelas fronteiras, mas, para aqueles que já estão lá, estamos fazendo de tudo para conseguir transportes suficientes para tirá-los do local. É uma situação muito complexa e perigosa.

Kadafi mobilizou forças de segurança para a fronteira na última terça. Há um clima de medo na região?

Não tenho informações sobre a situação militar na fronteira do lado da Líbia, mas estamos preocupados com as pessoas que estão no país, pois o risco é considerável. Alguns africanos têm expressado o temor de serem associados a mercenários pró-Kadafi. O que as equipes de resgate estão tentando fazer é manter contato com refugiados. Elas têm pedido às pessoas que se mantenham calmas e que fiquem em suas casas.

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Quais são as perspectivas para os próximos dias?

A situação está realmente instável. Teremos que nos adaptar a ela à medida que se desenvolve. Devido a essa rápida mudança, é muito difícil especular sobre o que vai acontecer no futuro. Hoje levaremos pelo menos algumas dezenas de egípcios para casa em um avião. Estamos negociando com outros países para conseguir outras formas de retirada de outras milhares de pessoas. É um problema vasto, que ainda demandará tempo.

Ainda é possível manter o otimismo?

É certamente muito difícil ser otimista neste momento. Mas estamos todos torcendo para que a situação se estabilize.

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Quais outros locais do mundo demandam atenção especial atualmente no que se refere a refugiados?

Estamos diante de duas crises graves: na Líbia e também na Costa do Marfim, um país que se aproxima cada vez mais de uma guerra civil. Confrontos no distrito de Abobo, em Abidjan, nos últimos dias, causaram significativos deslocamentos na capital e no oeste do país. Consequentemente, milhares tentam fugir pela fronteira com a Libéria. É uma região que também merece uma atenção especial.

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