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O que o estilo ‘dinâmico’ de Kim Jong-un tem de fato a dizer

Novo ditador é - pessoalmente - bem diferente do pai. Mas nada permite pensar que a terrível herança política da família Kim está prestes a ser abandonada

Nas últimas semanas, o noticiário sobre a Coreia do Norte teve um tom diferente. O ditador Kim Jong-un recebeu em seu território personagens da Disney e apresentou ao mundo sua bela e elegante esposa, a cantora Ri Sol-ju, adotando um estilo pessoal diferente do de seu pai, Kim Jong-il, morto em dezembro de 2011. Poderia a juventude do novo governante, num primeiro momento associada às ideias de fraqueza e inaptidão, ensejar algum tipo de mudança? Essa certamente é a ideia que o regime gostaria de disseminar. “Ri Sol-ju projeta uma imagem interessante. Ela é moderna, atraente, sorridente e amigável, chega a ser até um pouco burguesa. O casamento também ajudaria a mostrar que Kim já é adulto o suficiente para governar”, diz Sokeel Park, pesquisador e analista político sul-coreano. Por trás dessa fina camada cosmética, porém, não existe nenhuma reforma concreta, que indique que a terrível herança política da família Kim vai ser abandonada. A substituição de figuras importantes do Exército formado pelo pai não quer dizer que a lógica de dominação militar do país será alterada. E a retórica de Kim Jong-un, que prometeu “rever completamente” a questão nuclear no país e defendeu a “reunificação das Coreias” não veio acompanhada de gestos concretos. Nada autoriza o otimismo a curto prazo. Os cidadãos da Coreia do Norte ainda sofrem com brutais violações de direitos humanos em numerosos campos de prisioneiros e enfrentam uma grave crise econômica, intensificada após as enchentes do mês passado. Na última sexta-feira, a ONU informou que a Coreia do Norte precisa de ajuda alimentícia estrangeira urgente. Cerca de dois terços dos 24 milhões de norte-coreanos passam fome, e o governo não consegue fornecer sozinho comida à população.

“As negociações sobre o programa nuclear norte-coreano estão mortas há anos. Não há diálogo sobre absolutamente nada com esse regime. Quando a Coreia do Norte disse aos EUA que admitiria observadores de seu programa nuclear em troca de ajuda alimentar, 14 dias depois anunciou que testaria um míssil de longo alcance. Enquanto isso, os direitos humanos se mantêm fora da mesa de diálogo”, diz Blaine Harden, autor do livro Fuga do Campo 14, lançado em maio deste ano, que conta a história de Shin Dong Hyuk, um ex-prisioneiro norte-coreano. “Ocasionalmente, o regime atrasa seu programa nuclear, mas nunca vai além disso. As potências dizem que na medida em que o diálogo avançar, vão incluir as questões de direitos humanos na mesa. Mas as negociações sempre fracassam antes de se chegar a essas questões”, afirma David Hawk, especialista em direitos humanos e autor do livro Hidden Gulag, cuja última versão traz entrevistas com 60 ex-prisioneiros que conseguiram fugir para a Coreia do Sul através da China.

Para Sokeel Park, integrante da organização Link, que luta pela liberdade de expressão na Coreia do Norte, a falta de um ativista conhecido internacionalmente para dar um rosto à luta pelos direitos de seu povo, como Aung San Suu Kyi em Mianmar ou Ai Wei Wei na China – que viraram verdadeiras celebridades globais -, colabora para o desconhecimento sobre as atrocidades cometidas na Coreia Norte. Mas o sucesso do livro de Harden, escrito em inglês e já traduzido para diversos idiomas, inclusive o português, indica o crescente interesse do mundo em conhecer essa realidade. O aumento do número de fugitivos também ajuda a divulgar os acontecimentos de forma mais detalhada. Park frequentemente ouve histórias de ex-prisioneiros que poderiam ter morrido se descobertos enquanto tentavam fugir do país. “A repressão do regime é brutal e sistemática, e milhares de pessoas e seus familiares são presos pelo menor sinal de dissidência política. A crise humanitária, devido à escassez crônica de alimentos que afeta milhões de pessoas, é em grande parte causada pelo próprio homem: resultado da negação dos direitos humanos básicos. Se o que está acontecendo dentro da Coreia do Norte não é crime contra a humanidade, então o que é?”, questiona ele.

Imagem de satélite mostra o campo de prisioneiros Yodok na Coreia do Norte Imagem de satélite mostra o campo de prisioneiros Yodok na Coreia do Norte

Imagem de satélite mostra o campo de prisioneiros Yodok na Coreia do Norte (/)

Campos de prisioneiros – Embora seja notória a existência de campos de prisioneiros na Coreia do Norte, apenas nos últimos 10 anos vieram à tona informações concretas sobre como eles funcionam. Nos anos 1990, havia centenas de milhares de norte-coreanos que fugiam do país para a China, a maioria em busca de comida. Mas pouco se sabia sobre eles. Já em 2003, cerca de 3.000 norte-coreanos que viviam na China conseguiram se mudar para a Coreia do Sul. Ao longo da última década, esse número subiu para 23.000, centenas deles ex-prisioneiros do regime de Pyongyang. Só então eles deram seu depoimento sobre os campos norte-coreanos e preencheram uma grande lacuna no conhecimento sobre as violações de direitos humanos no mundo. “Quando fiz as pesquisas para a primeira edição de Hidden Gulag, em 2002, tive informações sobre o funcionamento dos campos de prisioneiros nos anos 1980 e 1990, apenas. Já quando fiz as pesquisas para a segunda edição do livro, que foi lançada em maio deste ano, pude falar com 60 norte-coreanos que testemunharam prisões entre 1970 e 2008. Consegui informações detalhadas inclusive de ex-guardas do regime, que desertaram e deixaram o país”, diz Hawk.

Pelos depoimentos, a única forma de se ter conhecimento do que acontece na Coreia do Norte, já que a ONU ou qualquer organização são proibidas de chegar perto das prisões, sabe-se que a taxa de mortalidade e detenção se mantém muito alta no país. E o regime oficialmente nega a existência desses campos de prisioneiros. “Minha descoberta mais surpreendente foi que a Coreia do Norte possui um fenômeno de repressão único: um sistema de culpabilidade por associação de três gerações. Ou seja, um suspeito de ser dissidente político não só é preso, como tem seus filhos e netos detidos também. A prática pode ser comparada às do nazismo e foi implementada por Kim Il-sung na década de 1960. Nem mesmo Mao Tsé-Tung fez algo parecido”, acrescenta Hawk. Além da grande quantidade de desertores do governo que foram questionados por pesquisadores, a própria ferramenta Google Earth permite que o mundo saiba da existência desses campos. A Anistia Internacional chamou a atenção da comunidade internacional para essas imagens de satélite pela primeira vez em maio de 2011. E alguns campos pareciam ter novas construções dentro das fronteiras norte-coreanas, embora a população carcerária possa estar diminuindo ligeiramente. “Os EUA estimam que a população nos campos seja de 200.000 pessoas, já a Coreia do Sul estima que seja de 154.000. Um grupo chamado North Korea Database, que faz muitas pesquisas sobre o assunto, fala em 135.000”, diz Blaine Harden.

Informações ilegais – O regime norte-coreano possui três formas de censura: o controle da informação vinda de fora do país, um programa de vigilância que persegue cada norte-coreano por meio de organizações espiãs e a garantia de punição para todos que pensem de forma contrária ao regime. A sociedade é totalmente isolada do resto do mundo, e a censura é ainda maior do que na China, onde a internet é permitida e apenas alguns sites são proibidos. Em Pyongyang, não há internet, apenas intranet – ou seja, não há acesso à rede mundial. Enquanto na China milhares de pessoas possuem celulares, apenas nos últimos cinco anos poucas pessoas são autorizadas a ter celular na Coreia do Norte. Algumas autoridades têm essa regalia, mas, mesmo assim, não podem fazer ligações internacionais. Porém, segundo os analistas, a fronteira entre a Coreia do Sul e a China vem se tornando “semipermeável”. E ali as pessoas contrabandeiam todos os tipos de bens, que acabam em mercados de rua da Coreia do Norte. Desertores que deixaram o país para ir morar na Coreia do Sul contam que tinham cada vez mais acesso a eletrônicos que dão a eles imagens e informações sobre o mundo exterior. “Muita informação de outros países tem entrado ilegalmente no país, através de DVDs, programas de TV e de rádio. Os norte-coreanos também compram ilegalmente celulares vindos da China e vão até a fronteira para acessar a rede e fazer as ligações. Mas é sempre um grande risco: se a pessoa for pega, será presa”, diz Hawk. As rádios são fixas nas estações oficiais, que só sabem exaltar o regime, mas facilmente os norte-coreanos compram rádios chineses que acessam outras estações, como The Voice of America ou Radio Free Asia. As crianças estão pegando o estilo, as palavras, os cortes de cabelo e as músicas da Coreia do Sul. Pen-drives cheios de material vindo do país vizinho também circulam em grande quantidade, já que são pequenos e fáceis de contrabandear.

Compartilhar DVDs contrabandeados e assisti-los com os amigos pode parecer inócuo, mas na verdade é crucial. Representa o crescimento das atividades ilícitas e o fortalecimento de vínculos entre os cidadãos, contrariando o regime. No longo prazo, isso pode ser essencial para o poder coletivo do povo norte-coreano provocar uma mudança duradoura na Coreia do Norte. “Os norte-coreanos agora nos dizem coisas que nunca contaram antes, que se reúnem com os amigos para assistir dramas sul-coreanos em DVDs contrabandeados ou que usam pen-drives para ver filmes de outros países e ouvir música sul-coreana em tocadores de MP3”, relata Sokeel Park. “Um jovem refugiado me disse que jogava jogos de computador estrangeiros, algo altamente ilegal e perigoso. O único jeito de escapar da punição se descoberto é subornar as autoridades”, completa. A exposição a produtos estrangeiros também traz um impacto sobre as crenças e atitudes dos norte-coreanos. Mais e mais pessoas enxergam que o regime precisa mudar – embora no momento não se sintam com poder suficiente para desafiar a ditadura, devido à forte repressão vigente. Na Coreia do Norte, não existe sociedade civil ou associações de qualquer tipo, pois o governo não permite. “A quantidade de informação disponível para os norte-coreanos aumentou drasticamente. Porém, a possibilidade de eles fazerem algo com essa informação é nula. É impossível que se reúnam com os amigos para discutir sobre o regime e talvez se rebelar como fizeram os islâmicos na Primavera Árabe”, afirma Harden.

Kim Jong-un participou da inauguração de um parque de diversões na Coreia do Norte Kim Jong-un participou da inauguração de um parque de diversões na Coreia do Norte

Kim Jong-un participou da inauguração de um parque de diversões na Coreia do Norte (/)

Abertura distante – Apesar dos movimentos positivos, até agora não há indicações de mudanças concretas com a entrada de Kim Jong-un no poder. “Seria ir longe demais dizer que, porque recebeu o Mickey Mouse e o Ursinho Pooh, Kim Jong-un está prestes a se abrir ao Ocidente. Por outro lado, Kim Jong-il jamais aceitaria esse tipo de show. Isso mostra no mínimo que o novo ditador é mais dinâmico e moderno. Talvez queira mudar algo”, diz Park. Kim Jong-il enfrentou o colapso da URSS e da Europa Oriental, enquanto a China retomou laços com a Coreia do Sul. E precisou reforçar seu poderio militar. Já Kim Jong-un entrou no poder em um cenário internacional mais “favorável”, uma vez que a Coreia do Norte já se impôs como estado nuclear. “Conquistar poderio militar já não é prioridade. O ponto fraco do regime agora é a economia, que requer investimento urgente”, diz Park. Kim deve se dar conta da necessidade de uma abertura econômica, mesmo que lenta.

Uma porta para a mudança é a China. “Os chineses estão encorajando a Coreia do Norte a promover uma abertura como a que fizeram”, diz Hawk. Se o novo líder fizer acordos com o governo chinês ou mesmo com empresas chinesas, permitindo que entrem no país, construam fábricas, tomem proveito dos baixos preços da mão de obra norte-coreana, então se poderia falar em uma mudança. Com mais investimentos da China e salários mais altos, a Coreia do Norte poderia importar mais comida e gradualmente resolver o problema alimentar do país. “Economistas da Coreia do Sul e da China sugerem que pessoas do governo de Pyongyang estão interessadas nesse tipo de solução”, diz Harden. Mas o regime de Kim ainda parece temer que, se fábricas estrangeiras entrarem, o governo perca o controle. E ainda é cedo para dizer que o ditador de fato está disposto a lidar com a questão de um jeito diferente de seu pai. Uma bela esposa e um passeio na montanha russa certamente não querem dizer isso.