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‘Não queremos nosso povo morto’, afirma Defesa de Israel

Porta-voz explica o trabalho feito para conter os atentados terroristas no país

O capitão Arye Shalicar, 34 anos, é porta-voz das Forças de Defesa Israelenses (IDF, sigla em inglês) – uma das instituições mais proeminentes do país. Com um efetivo formado por dezenas de milhares de homens e mulheres – o serviço militar é obrigatório para todos acima de 18 anos -, o órgão é responsável por garantir a segurança dos civis nas fronteiras com a Faixa de Gaza e em grande parte da Cisjordânia. Na entrevista a seguir, parte de série de reportagens sobre a vida de israelenses e palestinos no período iniciado com a Segunda Intifada, ele fala sobre o aparato de segurança israelense.

O capitão Arye Shalicar, porta-voz das Forças de Defesa Israelenses O capitão Arye Shalicar, porta-voz das Forças de Defesa Israelenses

O capitão Arye Shalicar, porta-voz das Forças de Defesa Israelenses (/)

Como era a segurança em Israel antes da Segunda Intifada? Naquela época, meus familiares podiam se movimentar livremente na região da Samaria (norte da Cisjordânia). Meus primos se lembram do dia em que ainda podiam simplesmente sair de casa e jantar ou fazer compras em cidades palestinas sem ameaça alguma. As cidades de Israel também estavam completamente abertas. Não havia barreiras, cercas ou muros. Nada! Até que, em 2001, teve início a Segunda Intifada. Pouco a pouco, os ataques terroristas se espalharam por Jerusalém, Tel Aviv, Netanya e outras cidades de Israel. Tinha-se de pensar duas vezes antes de entrar em um ônibus. Talvez outro passageiro do seu lado estivesse pronto para cometer suicídio e explodir o veículo. Também era perigoso sair à noite. De repente, o país inteiro estava assustado. Eu vivia na Alemanha e me mudei para Jerusalém exatamente em 2002, quando comecei a estudar na Universidade Hebraica. Em meu primeiro dia lá, um 31 de julho, houve um ataque terrorista ao câmpus de Har Hatzofim. A explosão ocorreu a 500 metros de onde eu estava! Foi um trauma, pois poderia ter acontecido algo grave comigo.

O que mudou a partir de então? Os anos de 2001, 2002 e 2003 foram cruciais. Muitos atentados terroristas ocorreram em Israel. E o governo decidiu, então, agir contra o terrorismo. Uma delas foi construir a barreira de segurança. O objetivo era impedir a infiltração de terroristas nas principais cidades israelenses. Até hoje ela não está completamente construída. Mas nas cidades mais visadas, principalmente na região da Samaria, a cerca está pronta. Há, inclusive, áreas cercadas por muros de concreto, como por exemplo a província de Calquilia, onde as autoridades viram que atiradores de elite poderiam mirar israelenses do outro lado da cerca a partir dos prédios da cidade árabe. Por esse motivo, em algumas áreas – 7% da barreira – o muro foi considerado mais apropriado do que a cerca. Como há muitos palestinos que trabalham em Israel e moram em grandes cidades palestinas – a exemplo de Nablus, Ramallah e Janin -, eles precisam passar por checkpoints para ir e voltar as suas casas.

Essas iniciativas foram eficazes? A fiscalização tem se mostrado essencial, pois no passado tivemos uma série de incidentes – mesmo depois da construção da barreira e da implementação das medidas de segurança – envolvendo terroristas que se dirigiam a pontos de passagem e tentavam cometer suicídio ou matar soldados e policiais. Algo parecido ocorreu há um mês, quando um palestino foi preso com dez dispositivos explosivos e uma pistola, perto da cidade de Janin. É preciso estar atento para deter essas pessoas antes que matem mais israelenses. A principal medida de combate ao terrorismo, sem dúvida, foi a construção da barreira. Agora, estamos construindo mais uma entre Sinai e Israel. Atualmente, são 40 quilômetros de fronteira aberta com o Egito. E, em agosto de 2011, um terrorista se infiltrou em Israel por ali e atirou em israelenses nas ruas até ser morto. Outra medida é que, pouco a pouco, a coordenação entre o Exército de Israel e as forças de segurança palestinas se torna maior. A Autoridade Palestina está se dando conta da necessidade do combate ao terror. Quanto mais coordenadas estão suas atividades com as nossas, mais o terror diminui. Claro que não chega a ser uma cooperação: os dois lados têm interesses comuns apenas contra os atos terroristas. Não queremos que nosso povo seja morto. E os palestinos, de seu lado, querem mostrar ao mundo que estão prontos para ter um estado. O Hamas, a Jihad Islâmica e outros grupos terroristas são uma ameaça não só para Israel, mas também para a Autoridade Palestina.

Quais foram os atentados mais marcantes contra os israelenses? No início da Segunda Intifada, terroristas palestinos entraram em Tel Aviv e se explodiram numa sexta-feira à noite, em frente a uma discoteca da cidade. Houve dezenas de mortos, e as vítimas eram adolescentes de 16 e 17 anos, muitos deles imigrantes russos. Em Netanya, em 2003, outros terroristas invadiram um hotel onde uma família de judeus participava de um jantar comemorativo e conseguiram matar mais de dez pessoas. Em 2001, foram centenas de israelenses mortos por terroristas – o que deixou a população traumatizada. O sentimento de vulnerabilidade estava por toda parte. Depois de 2002, com a construção da barreira, os atentados diminuíram gradualmente. Mas, mesmo em 2011, houve pelo menos um caso em que um terrorista deixou um pacote com dispositivos explosivos em uma estação de ônibus central em Jerusalém. Uma senhora britânica morreu no incidente. De novo, a 700 metros do meu escritório. Mesmo que várias medidas de segurança tenham sido tomadas e que se possa andar com mais tranquilidade pelas ruas, a ameaça ainda é latente.

A IDF tem uma lista de “procurados”? Sim, temos listas. É preciso estar atento e prontos para atuar na luta diária contra o terrorismo. Não é apenas Hamas e Jihad Islâmica, também o Hezbollah no Líbano, na Europa e mesmo na América Latina. Agora mesmo há um alerta, depois de ameaças a diplomatas na Tailândia, Geórgia e Índia. Temos de estar atentos em todo lugar.

As forças de Israel são acusadas de prender, torturar e matar palestinos inocentes. Qual sua resposta a essas alegações? Há uma ameaça real colocada pelos terroristas na região da Cisjordânia, e até a Autoridade Palestina está de acordo quanto a isso. Tanto que, muitas vezes, os suspeitos são presos primeiramente por eles. Um membro da Jihad Islâmica, chamado Khader Adnan, está detido em uma prisão israelense, mas antes ele havia sido preso pelos palestinos. A história de detenção dele já dura dez anos. Adnan sabe que está sendo observado por ambos os lados, mas continua tentando praticar atividades terroristas. A população palestina nunca vai admitir abertamente que está feliz com o Exército israelense protegendo suas famílias. Isso seria uma traição com seu próprio povo. Mas posso garantir que há muitos palestinos na região da Samaria e Judeia que coordenam e concordam com a presença da IDF quando são ameaçados. Também estamos lá para ajudá-los, e eles contam conosco.

Como é a atuação da IDF nas regiões de assentamentos judaicos? A presença da IDF na Samaria e na Judeia tem como foco proteger a população local dos terroristas. Mas é verdade que também atuamos para manter o status quo na região e uma relação pacífica entre árabes e judeus nas chamadas “áreas B e C”, nas quais nossa missão está mais próxima do policiamento “tradicional”. Vimos que era imprescindível atuar nessas regiões. Recentemente, jovens palestinos jogaram pedras no carro de um colono judeu que passava. O veículo foi atingido e acabou perdendo o controle, provocando um acidente. Um bebê que estava no carro acabou morto. Outro incidente vivo na mente dos israelenses aconteceu um ano atrás, no assentamento de Itamar. Dois jovens palestinos se infiltraram no local e mataram cinco membros de uma família, entre eles três crianças. São casos que, embora pontuais, requerem atenção, pois podem indicar que algo pior está a caminho.

Confira o cronograma de reportagens especiais:

SÁBADO – Israel x Palestina: dos dois lados do muro

SEGUNDA – Sderot, a cidade blindada que vive à espera de um ataque

TERÇA – Vidas que levam as marcas da Segunda Intifada

QUINTA – Sobre judeus e árabes: boas cercas fazem bons vizinhos?

SEXTA – Traumas na vida de dois soldados: israelense e palestino