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Fantasmas: A dura vida dos segundos filhos na China

As crianças nascidas fora da política do filho único cresceram sem direito a estudo, saúde pública e trabalhos formais

Por Da Redação - 7 nov 2015, 10h48

Dados de 2010 revelam que cerca de 13 milhões de pessoas na China vivem à margem da sociedade, sem registros e documentos e sem poder frequentar escolas e hospitais. São os ‘chineses fantasmas’, filhos de família que foram concebidos desrespeitando a política do filho único. É o caso de Li Xue, uma mulher de 22 anos entrevistada pela agência France-Presse. Ela não existe para o Estado chinês, além de não ter direito a estudar, não pode usar transporte público ou ser empregada formalmente. Os pais de Li já tinham uma filha quando sua mãe engravidou por acidente. Na época, ambos estavam doentes por seus trabalhos como operários e a mãe estava muito fraca para um aborto.

“Faça o que for, estou bloqueada. Não há nada na China que prove que existo”, contou a moça. As famílias que violavam a lei deveriam pagar uma taxa de manutenção social para legalizar seus filhos e garantir o “hukou”, a permissão indispensável para ter uma vida de cidadania e direitos no país. Para Li, as autoridades pediram uma taxa de 5.000 yuan, ou 3.000 reais – um valor muito acima do que seus pais, que recebem 100 yuan (60 reais) por mês, podem arcar.

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A irmã de Li, Li Bin, oito anos mais velha, a ensinou a ler e escrever. Mas enquanto as outras crianças de sua idade iam à escola, ela passava seus dias em frente ao prédio do governo, onde pedia ajuda junto a seus pais. Contudo, seus esforços foram em vão. A família denunciou à AFP que foi vigiada pela polícia durante uma década, e, além disso, seus foram espancados diversas vezes, e em uma delas ficaram presos à cama por dois meses.

Pequim anunciou na semana passada o fim da política do filho único, que durou 35 anos. Agora, os casais podem ter até dois filhos. Em algumas áreas da China, as autoridades prometeram conceder o “hukou” as pessoas que não pagaram a taxa. A AFP falou com um funcionário da delegacia local onde a família de Li vive, e ele afirmou que “se Li vier nos ver, daremos o hukou para ela”.

“Nos últimos 22 anos, eu vi como o governo prometia isto e aquilo, mas nada mudava”, afirmou Li. Hoje, a jovem trabalha em um restaurante cujo patrão aceitou fechar os olhos para sua situação. “Essa é a primeira vez que sou julgada pelas minhas competências e não por meu status”. É magnífico”, conta.

(Da redação)

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