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EUA devem deixar a Europa liderar diplomacia na crise da Ucrânia

Os EUA devem recuar, a UE deve avançar e a comunidade internacional deve garantir que a Rússia pague um alto preço por suas ações na Crimeia

Por Da Redação
26 mar 2014, 21h42

Como a anexação da Crimeia pela Rússia prossegue, os Estados Unidos devem recuar, a União Europeia deve avançar e a comunidade internacional deve garantir que a Rússia pague um alto preço político e econômico por as suas ações, e que os nacionalistas russos e ucranianos não joguem os dois lados em uma espiral mortal de violência.

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Até agora, os líderes ocidentais jogaram suas fichas o melhor que puderam, à exceção dos primeiros passos em falso dados pela chanceler alemã Angela Merkel, que descreveu uma afirmação calculada dos interesses regionais da Rússia como o comportamento de um líder que estava fora da realidade. A escalada da crise pelos EUA nesta fase apenas favoreceria o presidente russo, Vladimir Putin, e exporia o ocidente como um tigre de papel.

Para saber o porquê, é útil recordar uma parte da história. Ao longo do século XX, os EUA intervieram várias vezes para derrubar ou subverter governos latino-americanos de que não gostavam: em Cuba, Nicarágua, República Dominicana, Panamá, Guatemala, Haiti, El Salvador, Chile e Granada, para citar apenas os casos mais importantes. Durante a guerra fria, sucessivos presidentes dos EUA sentiam-se bastante confortáveis em enviar tropas, direta ou indiretamente, para garantir que os governos amigos prevalecessem nas Américas (e além). Agora, lembre-se das respostas do ocidente às incursões soviéticas e russas em países estrategicamente importantes: Hungria em 1956, a Tchecoslováquia em 1968 ou Geórgia em 2008. Em cada uma delas, os EUA recusaram-se a se envolver militarmente com o Estado que possuía o maior número de armas nucleares no mundo.

Narrar esta história não é aprová-la, mas sim tentar compreender como os russos podem interpretar a legitimidade das ações de Putin. Há também a dinâmica política universal pela qual uma ameaça estrangeira ou crise pode fortalecer um líder internamente. Putin está batendo seu recorde de popularidade com sua aventura na Crimeia, como atingiu um alto índice a primeira-ministra britânica Margaret Thatcher com a guerra das Malvinas, em 1982. Até mesmo os intelectuais de esquerda estão se alinhando para apoiar Putin a proteger os cidadãos de etnia russa do que o Kremlin e sua imprensa aliada apresentam como nacionalismo ucraniano “fascista”.

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Com este pano de fundo, o secretário de Estado americano, John Kerry, quer deixar claro que a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) não está contemplando qualquer tipo de envolvimento militar. Ele faria ainda melhor se entregasse a responsabilidade de principal negociador e porta-voz da crise para um grupo da União Europeia liderado pela chefe da diplomacia, Catherine Ashton, Merkel, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, e primeiro-ministro polonês, Donald Tusk.

A UE como um todo tem laços econômicos muito mais extensos e, consequentemente, mais influência junto ao governo russo do que os EUA. O bloco é o maior parceiro comercial da Rússia – os EUA estão em quinto lugar, atrás de China e Ucrânia. Quase a metade dos investimentos diretos estrangeiros da Rússia em 2012 foi para Holanda, Chipre e Suíça (que não é membro da UE, mas está sujeita à pressão do grupo), enquanto cerca de 75% do investimento direto estrangeiro na Rússia, calcula-se, vêm de países da UE. Enfim, as oligarquias russas possuem mais propriedades em Londres e no sul da França do que em Nova York ou Miami.

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Mapa da Crimeia
Mapa da Crimeia (VEJA)

Além disso, a pressão da EU sobre a Rússia envolve menor risco de fazer aflorar um sentimento nacionalista entre os russos do que a “interferência” dos EUA na região. Pra começar, a Ucrânia também está na região da UE. Mais importante, a UE não relembra diariamente os russos de suas perdas pós-URSS e de sua humilhação global da como fazem os EUA. Os EUA têm hoje, na política, muitos menos especialistas em Rússia do que há duas décadas, porque a maioria dos os legisladores americanos que trata de política externa tem prestado muito mais atenção à China, Índia e Oriente Médio. Nenhum país, muito menos uma antiga superpotência, gosta de ser ignorado.

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Finalmente, se os EUA recuarem, a União Europeia, as Nações Unidas e até a China podem fazer os russos se lembrarem das consequências políticas da flagrante violação do direito internacional e incorporação de territórios empobrecidos e em convulsão, que serão muito mais difíceis de digerir do que resultados de um referendo de resultado fixo sugeririam.

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Os tártaros muçulmanos – aproximadamente 15% da população da Crimeia – se opõem fortemente à anexação pela Rússia e podem se tornar um problema, juntamente aos 25% de habitantes da península que falam ucraniano que foram silenciados nos últimos dias.

A decisão de EUA e Europa de impor algumas sanções econômicas agora, com a possibilidade de adoptar punições mais duras e mais amplas posteriormente, não é um sinal de fraqueza, mas de cálculo estratégico. A artilharia pesada permanece no arsenal diplomático para dissuadir Putin de tentar abocanhar mais território da Ucrânia; nesse meio tempo, os mercados estão impondo custos econômicos adicionais sobre todos os russos.

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Agora é igualmente importante fortalecer os membros moderados do novo governo ucraniano e reduzir a influência dos nacionalistas de direita que pisariam nos direitos dos ucranianos que falam russo. Da Revolução Francesa ao Egito, passando pela Síria, extremistas têm repetidamente engolido forças políticas moderadas e passado a imitar as táticas e a política do governo que originalmente se uniram para derrubar.

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Isso não quer dizer que os EUA, a UE e outros atores envolvidos não devam fazer todo o possível para garantir que o povo da Ucrânia, seja qual for seu idioma ou sua religião, obtenham os direitos e a prosperidade que buscam desesperadamente. Para os EUA, a defesa dos valores universais é, de acordo com a estratégia de segurança nacional do presidente Barack Obama, um núcleo de interesse americano. Mas a maneira de buscar esse interesse, neste caso, não é através de um convite ao confronto no estilo da Guerra Fria. Mas sim, protegendo os países que têm maior influência sobre a Rússia e a maioria dos envolvidos – estratégica e economicamente – na resolução desta crise.

Anne-Marie Slaughter é presidente e executiva-chefe da Fundação Nova América, autora de “The Idea That Is America: Keeping Faith with Our Values in a Dangerous World”.

(Tradução: Roseli Honório)

© Project Syndicate, 2014

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