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Eleição para Constituinte no Chile marca derrota de partidos governistas

Siglas independentes são as mais votadas, com virada à esquerda; legendas que estiveram no poder desde a redemocratização são castigadas

Por Julia Braun Atualizado em 17 Maio 2021, 09h37 - Publicado em 17 Maio 2021, 09h21

O Chile realizou neste domingo, 16, as eleições para escolher os 155 redatores de uma nova Constituição. Com 99% das urnas apuradas, os independentes e a oposição de centro-esquerda obtiveram mais de 40% das cadeiras da Assembleia Constituinte, enquanto a direita, que se apresentava em uma chapa única formada pelos partidos governistas, não conseguiu alcançar o percentual de votos necessário para vetar artigos na nova Carta Magna.

O grande destaque entre os partidos independentes foi a Lista do Povo, formado por ativistas das grandes manifestações de 2019, que sozinho deverá obter entre 22 e 23 cadeiras. Ao todo, de acordo com projeções da imprensa local, os grupos mais próximos da esquerda e da centro-esquerda elegeram de 65 a 68 constituintes.

Já a lista Vamos pelo Chile, formada pelos partidos de direita que apoiam o governo de Sebastián Piñera, deve ficar com entre 37 e 38 constituintes.

Com esses resultados, figuras de fora da política que buscam canalizar as exigências dos cidadãos na crise social de 2019 devem ganhar lugares de importância na Comissão. Seu surgimento é visto por muitos especialistas como o início de um novo modelo de política cidadã e a certidão de óbito dos desacreditados partidos tradicionais.

Acadêmicos como Fernando Atria, feministas como Alondra Carrillo, ativistas como Giovanna Grandón (conhecida nos protestos por “Tia Pikachu”) ou profissionais como Rodrigo Logan ganharão uma cadeira na convenção, de acordo com resultados preliminares.

Além da votação para a Constituinte, os chilenos também realizaram eleições paralelas para governadores e prefeitos. Os resultados dessas votações confirmaram mais uma vez o avanço da centro-esquerda frente aos partidos de direita que estiveram no poder no país desde a redemocratização, em 1990.

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“Este é um triunfo categórico da mudança, do desejo de transformar nosso país para ter um Chile mais digno, mais justo e mais próspero (…) É uma rejeição à direita que quis rejeitar a mudança”, disse o ex-chanceler e o pré-candidato à presidência Heraldo Muñoz, do Partido pela Democracia (PPD).

‘Reflexão profunda do governo’

No final da noite de domingo, assim que os resultados ficaram claros, o presidente Sebastián Piñera discursou em seu gabinete ao lado de outros membros do governo. Ele celebrou a realização organizada da votação no meio de uma pandemia.

“É nosso dever escutar com humildade e atenção a mensagem do povo e também nos esforçar e fazer o que for necessário para melhor interpretar e responder”, disse. Ele também argumentou que “é necessária uma reflexão profunda do governo e de todas as forças políticas tradicionais” diante dos resultados.

A nova Constituição

A redação de uma nova Constituição foi uma exigência da população durante os protestos que balançaram o país em 2019. A Carta Magna vigente atualmente é a última herança política da ditadura de Augusto Pinochet e criticado por promover a privatização dos serviços básicos. 

A Assembleia Constituinte, a primeira paritária do mundo e composta exclusivamente por membros eleitos, terá nove meses para redigir a nova Carta Magna, a primeira a nascer de um processo plenamente democrático e participativo em toda a história do país. O prazo para a conclusão da nova Constituição é prorrogável apenas uma vez por mais três meses, e em 2022 deve ser aprovada ou rejeitada em referendo com voto obrigatório.

O percentual de participação dos eleitores na eleição deste domingo foi baixa, com menos de 43%. Não ultrapassou os 50,9% registrados no plebiscito de outubro do ano passado, quando quase 80% dos chilenos decidiram arquivar a atual Constituição. 

(Com EFE)

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