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Egito: jovens lutam para reformar a Irmandade Muçulmana

País dá início à 1ª eleição presidencial livre da história. Com candidato entre os favoritos, cúpula da Irmandade reprime os que combatem radicalismo islâmico

Por Tariq Saleh, do Cairo - 23 maio 2012, 07h34

Os alto-falantes de uma mesquita no bairro de Al Ganzouri, no subúrbio do Cairo, anunciavam o horário da reza muçulmana. Mesmo com o calor de 36 graus, o jovem Mohamed A. S., de 26 anos, levantou-se para ir à mesquita para rezar. De estatura média, barba longa e vestimentas simples, ele pediu licença. “Não demoro, volto logo”, disse, saindo de sua loja de artigos eletrônicos. Menos de meia hora depois, ele retorna com um amigo, Ahmed G.H., 27, desempregado há poucos meses, desde que foi demitido da fábrica de moldes onde trabalhava. “Al salam aleikum (Que a paz esteja contigo, em árabe)”, disse o jovem à reportagem do site de VEJA.

Entenda o caso

  1. • Na onda da Primavera Árabe, que teve início na Tunísia, egípcios iniciaram, em janeiro, sua série de protestos exigindo a saída do então presidente Hosni Mubarak.
  2. • Durante as manifestações, mais de 800 rebeldes morreram em choques com as forças de segurança de Mubarak que, junto a seus filhos, é acusado de abuso de poder e de premeditar essas mortes.
  3. • Após 18 dias de levante popular, em 11 de fevereiro, o ditador cede à pressão e renuncia ao cargo, deixando Cairo; em seu lugar assumiu a Junta Militar.

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Além de serem de famílias humildes, os dois amigos também têm em comum o fato de pertencerem ao maior, mais antigo e mais organizado movimento social e político do Egito – a Irmandade Muçulmana, grupo fundamentalista que detém a maioria no Parlamento e pode chegar ao cargo mais alto do país, a Presidência, após a eleição que começa nesta quarta-feira. Desde as primeiras horas da manhã, longas filas se formaram nos locais de votação de norte a sul do Egito para o início da primeira eleição presidencial livre da história do país. Mais de 50 milhões de egípcios foram convocados às urnas para escolher o primeiro presidente desde a queda do ditador Hosni Mubarak, em fevereiro do ano passado.

Treze candidatos concorrem à Presidência, mas só quatro são apontados como prováveis vencedores: dois islamitas, o moderado Abdel Moneim Abul Futuh e o candidato da Irmandade Muçulmana, Mohammed Mursi; e dois remanescentes do alto escalão do antigo regime, o ex-secretário-geral da Liga Árabe e ex-ministro das Relações Exteriores, Amr Moussa, e o último primeiro-ministro de Mubarak, Ahmed Shafiq.

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Temida e respeitada pelos egípcios, a Irmandade leva medo aos secularistas e liberais pela possibilidade de que, uma vez no poder, o Egito se transforme em um estado islâmico, governado pela sharia (lei islâmica). Alguns temem ainda que os membros mais radicais do grupo possam levar o país a um regime extremista. Mas há um movimento interno que planeja mudar a cara da Irmandade e aproximá-la da realidade do país. As sementes para reformas internas foram plantadas por jovens muçulmanos que querem outro tipo de islã – mais conciliador, moderno e secular -, como eles se autodenominam. Mohamed e Ahmed, que pediram que seus sobrenomes fossem omitidos por medo de perseguição, fazem parte dessa nova geração de muçulmanos, que insistem em permanecer na ideologia da Irmandade, mas querem ver mudanças. “Durante os protestos no ano passado, tivemos a oportunidade de conhecer pessoas de diferentes grupos sociais, religiosos e políticos. Acho que isso nos cativou, e nos fez entender que a Irmandade precisa se reformar”, disse Ahmed.

Durante a revolução que levou à renúncia do ex-presidente Hosni Mubarak, após 30 anos no poder, a Irmandade Muçulmana só apoiou oficialmente os protestos populares depois de uma adesão em massa da população. Mas seus membros mais jovens já estavam nas ruas muito antes, ao lado de outros de sua geração, cristãos e muçulmanos, ateus e liberais. Segundo Mohamed, a experiência dos protestos na Praça Tahrir serviu de estímulo para muitos jovens da Irmandade entrarem em um processo de reflexão sobre novos rumos para o movimento.

“Em vários lugares, começamos a nos reunir e discutir o futuro do Egito e o papel da Irmandade. Vimos que era hora de mudanças. Que não podíamos continuar com aquela retórica islamista e visão conservadora”, explicou Ahmed. “E sentimos um dever com nossos amigos, com os quais compartilhamos as dores e sofrimentos durante os protestos contra o regime de Mubarak. As manobras políticas dos líderes veteranos da Irmandade foram uma punhalada nas costas dos jovens que realmente fizeram a revolução”, completou Mohamed.

Os dois amigos disseram que muitos da juventude islâmica sentiram-se como traidores quando seus membros mais veteranos começaram a falar em estado islâmico. “Foi aí que começamos a bater de frente com a liderança da Irmandade. Pensamos: quem são esses dinossauros que nos lideram? Precisamos de mudanças”, revelou Mohamed. Mas, segundo eles, os líderes mais velhos não queriam ouvir as reivindicações dos mais jovens. Ou, de acordo com Ahmed, eles escutavam sem tomar atitudes . “A cúpula é formada por autoritários, sem visão e extremamente conservadores”, acusou Mohamed.

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Perseguição – Quando, em julho do ano passado, o comitê da juventude do grupo, com idades entre 20 e 45 anos, organizou um congresso para debater os rumos do movimento, a liderança reagiu furiosa com a ousadia de sua ala jovem. Alguns deles foram apenas punidos ou repreendidos, mas outros foram expulsos. Um deles foi Khaled A., 32, engenheiro civil e ativista político, que foi comunicado de sua saída por telefone. “Eles me comunicaram da minha expulsão da Irmandade alegando que eu havia me excedido e que quebrara as regras éticas. Mas quais as regras éticas? Eles jamais me falaram. Fomos acusados também de sermos rebeldes, de provocar divisões internas”. Desde então, Khaled luta junto a outros membros e ex-membros da juventude para articular uma voz forte junto à liderança do movimento. “Ainda acredito na Irmandade, mas sem reformas não irá sobreviver às mudanças no mundo árabe. Eles usam a mesma ideologia de 30 anos atrás”, disse.

Os amigos Ahmed e Mohamed também contaram que passaram por intimidações. “Um dia eu estava saindo de casa para meu trabalho quando um membro da Irmandade se aproximou de mim e me cumprimentou. Eu o conhecia, conversávamos seguidamente. Mas ele olhou nos meus olhos e disse: “Pare o que está fazendo. Na hora eu entendi que era uma intimidação”, revelou Mohamed. Os três jovens, porém, não têm dúvidas de que a Irmandade Muçulmana tem a capacidade para governar o país. “Islã e secularismo podem andar juntos. A Irmandade pode ser uma força política para levar uma transformação positiva ao Egito”, salientou Mohamed.

Radicais – Mostafa al-Naggar, 35, é dentista, blogueiro e ativista de direitos humanos. Antes da revolução de 2011, ele já havia sido preso várias vezes pelas forças de segurança de Mubarak. Foi durante os protestos populares na Praça Tahrir que al-Naggar teve a certeza de que havia tomado a decisão correta alguns anos antes, em 2007. Naquele ano, ele era um importante e ativo membro da juventude da Irmandade Muçulmana, mas já se mostrava descontente com sua liderança e as atitudes de alguns de seus líderes. “Alguns faziam discursos que pregavam tolerância, mas praticavam a violência, mostravam-se radicais. Claro que nem todos eram assim, mas muitos dos mais importantes líderes eram extremistas”, disse.

Foi daí que partiu sua decisão de se desfiliar da Irmandade. A razão: “Eu descobri que já não me identificava com suas ideias e ideologias”. Desde então, ele seguiu o ativismo pelos direitos humanos, o que lhe rendeu várias prisões pela polícia secreta. A última ocorreu poucos dias antes do início da revolução de 25 de janeiro, quando ele e outros 20 blogueiros e ativistas foram detidos quando chegaram a uma cidade no sul do Egito para prestar solidariedade aos familaires de sete cristãos mortos em um ataque à igreja local.

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Al-Naggar tornou-se um grande crítico da Irmandade e juntou-se a outros ex-membros do movimento, desiludidos com o grupo como ele, para fundar um partido político voltado aos jovens, ativistas, secularistas ou liberais, chamado Partido da Justiça. E ele não poupa críticas à Irmandade, a quem acusa de manipular as mentes e corações das pessoas para maquiar suas reais intenções. “Quando é conveniente, eles falam em tolerância, em diálogo. Mas tudo isso é para enganar as pessoas, fazê-las acreditar que a Irmandade está aberta a mudanças e é flexível. Ela não está, porque reprime até seus membros mais jovens, aqueles que querem reformas e novas ideias”. Para o egípcio, a juventude do movimento islâmico tem a capacidade de diálogo que outros grupos políticos e sociais procuram. “Os jovens da Irmandade são muito organizados, simpatizam com aqueles ativistas seculares que estiveram com eles lado a lado protestando contra o regime de Mubarak. Eles, sim, podem ajudar a transformar o país”.

Fracasso – Mas e se a Irmandade não se reformar, como querem os jovens? O analista Ashraf el Sherif, professor especializado em islã político na Universidade Americana no Cairo, acredita que o aumento da “dissidência” jovem dentro da Irmandade poderá ser muito benéfica para a sociedade egípcia. “Isso quebraria a velha regra dos dois grupos que dominaram a vida política do Egito durante décadas – o de islamistas e seculares. É possível, sim, um meio termo, uma ideia de governo secular com inspiração islâmica”, avalia.

Segundo o analista, há modelos a serem seguidos como na Tunísia, que ainda está em formação. “Mas temos modelos já consolidados, como a Turquia e, de certa forma, o Marrocos”, exemplificou. Hassan Nafeaa, diretor do departamento de Ciência Política da Universidade do Cairo, e um dos analistas mais respeitados do país, disse que a Irmandade só sobreviverá com sua nova geração. “Se não deixar estes jovens colocarem suas ideias, a Irmandade estará fadada ao ostracismo. Além disso, o movimento ainda precisa provar que pode governar, caso vença a eleição. Hoje, o grupo controla o Parlamento, mas a dúvida é se saberá o que fazer com o poder que conquistou.

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