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As Farc e o risco de uma nova guerra

Comandantes do grupo que havia se desmobilizado após um acordo com o governo anunciam a volta da luta armada

Arrancado a duras penas em 2016, após quatro anos de negociações, o acordo para desarmar e reintegrar à sociedade os combatentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) corre o risco de desandar. Nos últimos dias de agosto, um alto comandante da guerrilha mais longeva da América Latina (52 anos) anunciou em um vídeo de 32 minutos, postado no YouTube, que estava voltando à ativa. “Vamos continuar a luta rebelde em resposta à traição dos acordos de paz”, bradou Iván Márquez (nome verdadeiro: Luciano Marín), o segundo no comando da guerrilha e o principal negociador na busca da pacificação. Uma ação desse tipo era mais ou menos esperada desde que o presidente Juan Manuel Santos, que recebeu um Nobel da Paz pelo pacto, foi substituído por Iván Duque, abertamente crítico dos termos acertados há três anos.

Ao fazer o anúncio, Márquez tinha a seu lado, em uniforme e bem armado, Seusis Pausias Hernández, cujo codinome é Jesús Santrich — os dois, aliás, muito interessados em sumir na selva neste momento, visto que são procurados pelos Estados Unidos por tráfico de drogas. Eles devem se unir aos cerca de 2 000 combatentes que não se renderam — uma pequena fração em comparação com os mais de 13 000 que depuseram as armas em 2016. “Ainda não se trata de uma dissidência significativa”, avalia o cientista político Rainiero Jiménez, da Universidade da Colômbia. O receio é que o movimento cresça e a guerrilha volte a assombrar o país com atentados a bomba, sequestros e extorsão, reativando uma guerra que custou 260 000 vidas.

DO CONTRA –  Duque: lentidão para reintegrar os ex-guerrilheiros à sociedade

DO CONTRA –  Duque: lentidão para reintegrar os ex-guerrilheiros à sociedade (Diego Camilo Carranza Jimenez/Anadolu Agency/Getty Images)

A posição de Duque contra o que havia sido tratado encontra amparo em boa parte da população, que considera o acordo de paz leniente demais com as Farc. A verdade é que a imensa maioria dos que depuseram as armas não sofreu punição alguma. Para aqueles que têm processo na Justiça, foi criada uma comissão especial que examina caso a caso as denúncias. Pelo seu lado, o governo alojou parte dos anistiados em campos e se comprometeu a financiar a reintegração de todos ao mercado de trabalho e à sociedade — uma verba que Duque libera a conta-­gotas. Além de restringir recursos, o governo é acusado de fazer vista grossa para o assassinato de ex-combatentes e de pessoas envolvidas com a implantação do acordo — mais de 600 morreram desde 2016 nas mãos de grupos paramilitares que proliferaram nas décadas de combate às Farc e que permanecem mobilizados.

Duque descreveu o anúncio de Márquez e companheiros como “ameaças criminosas de uma gangue de narcoterroristas que recebem abrigo e apoio da ditadura de Nicolás Maduro”. Os bolivarianos da vizinha Venezuela são, de fato, irmãos de fé da guerrilha e mantêm as portas abertas para seus integrantes. Felizmente, Rodrigo Lodoño, comandante político das Farc conhecido por Timochenko, garantiu que a Força Alternativa Revolucionária do Comum (também Farc), o partido político dos ex-guerrilheiros, continuará a honrar o acordo. Um bom sinal — por enquanto.

Publicado em VEJA de 11 de setembro de 2019, edição nº 2651