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A raposa no galinheiro

O novo chefe da causa Amia invadiu os computadores de colaboradores em busca de provas para absolver Cristina Kirchner

Por Leonardo Coutinho 29 Maio 2015, 22h11

Passados quatro meses do assassinato do procurador Alberto Nisman, poucos argentinos acreditam que a verdade sobre a sua morte será esclarecida. Ainda mais raros são os que creem na possibilidade de um dia assistirem à punição dos culpados pelo atentado terrorista contra a sede da Associação Mutual Israelita Argentina (Amia), em Buenos Aires, que deixou 85 mortos em 1994. Nisman, o responsável pela investigação do atentado, morreu quatro dias depois de apresentar uma denúncia contra a presidente argentina Cristina Kirchner e o chanceler Héctor Timerman. No documento entregue à Justiça, Nisman afirmou que, sob as ordens da presidente, a diplomacia de seu país trabalhava para acobertar a participação do Irã no atentado. Cristina e Timerman disseram-se vítimas de uma infâmia do procurador morto. Mas, segundo colegas de Nisman ouvidos por VEJA, o governo argentino continua fazendo exatamente o que o procurador denunciou.

A impunidade continua

Como o governo argentino trabalha para empastelar as investigações do atentado contra a Amia

  • A AMEAÇA – No dia 30 de dezembro de 2014, alguns procuradores foram afastados de seus postos. Alberto Nisman foi avisado de que o mesmo ocorreria com ele
  • A DENÚNCIA – Para evitar o afastamento, Nisman antecipou para 14 de janeiro a apresentação de uma denúncia contra Cristina Kirchner e o chanceler Héctor Timerman por tentarem acobertar os principais suspeitos no caso Amia
  • A MORTE – Nisman foi encontrado morto quatro dias depois
  • O CONFISCO – Documentos e provas que Nisman guardava em seu apartamento foram apreendidos pela polícia e nunca mais reapareceram
  • AS NOMEAÇÕES – Três procuradores governistas foram nomeados para substituir Nisman. O coordenador, Juan Murray, é um kirchnerista fervoroso
  • O DESMANCHE – Os funcionários mais experientes da equipe de Nisman foram substituídos por pessoas sem familiaridade com a investigação
  • A INVASÃO – Juan Murray invadiu os computadores dos funcionários da Amia e entregou uma agenda digital de Nisman à polícia
  • A DIFAMAÇÃO – Integrantes do governo difundiram a informação – falsa – de que Nisman contratava prostitutas para trabalhar com ele e de que ficava com parte do salário dos colaboradores

A unidade especial da procuradoria que há onze anos investiga o atentado e trabalha pela prisão e punição dos principais acusados ocupa um conjunto de salas no 7° andar de um edifício na Praça de Maio, com vista para a sede do governo argentino. Até janeiro passado, 45 pessoas atuavam na causa Amia, entre secretários, advogados e técnicos. Cinco deixaram a repartição desde então. A morte de Nisman deu à procuradora-geral da Argentina, Alejandra Gils Carbó, a chance de nomear um coordenador e três procuradores para assumir os trabalhos. Todos são fiéis ao grupo político de Cristina Kirchner. Juan Patricio Murray, o coordenador, é um dos fundadores do movimento Justicia Legítima, uma agremiação de juízes, promotores e procuradores que oficialmente declararam apoio ao governo. Ele também já atuou em casos de interesse do cristinismo, como um processo ambiental contra o Clarín e o La Nación, cujo objetivo era afastar os dois principais diários do país da sociedade em uma fábrica de papel-jornal.

A nova cúpula da unidade especial assumiu a causa Amia em fevereiro. Mas só na semana passada os procuradores começaram a revisar as peças centrais da investigação. Eles preferiram passar os últimos três meses inquirindo os funcionários sobre as atividades que desenvolviam sob o comando de Nisman, entregando à polícia documentos internos da repartição ou buscando informações que enfraquecessem a denúncia contra Cristina e Timerman. Em fevereiro, os novos procuradores, Sabrina Namer, Patricio Sabadini e Roberto Salum, municiaram o juiz Daniel Rafecas com documentos que Nisman guardava em seu cofre. Tratava-se de rascunhos nos quais Nisman trabalhava desde 2013 para apresentar ao Conselho de Segurança da ONU, com o objetivo de forçar a prisão dos iranianos envolvidos no atentado. Ele desistiu do plano depois que as escutas produzidas pela Secretaria de Inteligência (Side) revelaram as articulações de bastidores entre os governos argentino e iraniano para gorar o seu esforço. Apesar desse fato, os papéis que jamais foram anexados às peças oficiais da investigação serviram de base para Rafecas mandar engavetar a denúncia contra a presidente.

“Murray e os procuradores atuaram mais como auxiliares de defesa do governo do que como autores substitutos da denúncia”, definiu um membro do Ministério Público, que pediu para não ser identificado porque teme por sua vida. Ele também revela que, em abril, Murray invadiu remotamente os computadores de diversos funcionários da unidade especial. O caso foi denunciado à União dos Empregados da Justiça, mas ainda não havia se tornado público. Coincidência ou não, dias depois a polícia foi à sede da Amia a pedido de Murray para extrair a agenda e outros documentos de Nisman de um dos computadores da unidade. Murray disse que encontrou os arquivos “acidentalmente”. O episódio rendeu um bate-boca entre Murray e os demais procuradores da Amia, em que Sabadini e Salum criticaram o coordenador pela invasão dos computadores e asseguraram aos demais funcionários que não haviam autorizado a bisbilhotice.

Recai sobre Murray a suspeita de que também partiu dele o vazamento de informações usadas fartamente pelo governo e pela imprensa kirchnerista para desmoralizar Alberto Nisman, que chegou a ser falsamente acusado de contratar prostitutas para dar expediente no Ministério Público. Murray frequentemente fornece informações e comentários para os artigos de Horacio Verbitsky no jornal chapa-branca Página 12. Verbitsky – que na década de 70 se dividia entre as funções contraditórias de terrorista de esquerda que matou uma pessoa em um atentado a bomba e de redator de discursos para a ditadura militar – é um dos principais detratores de Nisman.

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