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A agonia do fujimorismo

Com indulto anulado pela Justiça, o ex-ditador Fujimori prepara seu retorno à prisão. Sua filha e herdeira política foi detida preventivamente por corrupção

Neste ano, o fujimorismo, movimento político inspirado no legado do ex-­ditador Alberto Fujimori, viveu sua derrocada. Fujimori, que governou o Peru entre 1990 e 2000, começou 2018 em liberdade, beneficiado por um indulto concedido no fim de 2017 pelo então presidente Pedro Pablo Kuczynski, o PPK. Sua soltura foi negociada com um grupo de congressistas pelo filho caçula do ex-ditador, Kenji, o deputado mais votado nas eleições de 2016. Para escapar de um pedido de impeachment, PPK consentiu em soltar o detento mais ilustre do país, condenado a 25 anos de prisão por crimes contra a humanidade e corrupção. Naquela época, o Congresso tinha 73 deputados fujimoristas, de um total de 130, e era comandado por Keiko, irmã de Kenji.

Os tempos agora são outros. Na quarta-feira 10, Keiko foi presa preventivamente por dez dias acusada de ter recebido dinheiro ilegal da construtora Odebrecht durante sua campanha à Presidência em 2011. Desaprovada por 83% da população, ela provavelmente não será a única da família atrás das grades. No início do mês, um juiz da Suprema Corte anulou o indulto dado por PPK a Fujimori. Como o ex-ditador teve uma arritmia ao receber a notícia, ele foi internado em uma clínica e, até a semana passada, só esperava o momento de ganhar alta para retornar à prisão. A desgraça fujimorista não para aí.

No Congresso, a bancada encolheu para 62 legisladores e perdeu a maioria. Kenji não é mais deputado. Foi forçado a renunciar depois de ter sido flagrado comprando votos para salvar o mandato de PPK e, assim, livrar seu pai das grades. Nas eleições regionais do domingo 7, o partido do clã, o Fuerza Popular, teve um desempenho pífio. O candidato para a prefeitura de Lima só obteve 2,8% dos votos. A sigla não venceu em nenhum dos 25 estados em que disputou.

A corrupção é, evidentemente, o principal propulsor do ocaso fujimorista. Em julho, áudios divulgados pela imprensa revelaram a compra de sentenças judiciais, o que levou à renúncia de vários juízes e afetou fujimoristas graúdos. Depois de se salvar de um impeachment, PPK deixou o cargo em março, atingido por denúncias de corrupção. Ele recebeu quase 5 milhões de dólares da Odebrecht entre 2004 e 2014. Durante esse período, atuou como ministro da Economia e Finanças e primeiro-ministro. O descontentamento com a ladroagem e com os legisladores é enorme e tem impulsionado o atual presidente, Martín Vizcarra, que assumiu no lugar de PPK. No fim de julho, Vizcarra fez uma proposta de reforma política e judicial. Entre os temas sugeridos estava o impedimento de reeleição dos deputados. Com isso, sua aprovação aumentou de 47% para 61%, segundo o instituto Datum. “O Congresso tem uma imagem muito negativa. Os peruanos entendem que essa instituição só serve para confrontar o Executivo e para obstruir o desenvolvimento do país”, diz Urpi Torrado, gerente do Datum, em Lima.

O fujimorismo esboçou uma reação com dois projetos de lei para tentar evitar que o ex-ditador volte para a prisão. As propostas falam em perdoar os presos com mais de 80 anos. Sem nenhuma coincidência, Fujimori completou oito décadas de vida no início de agosto. Uma medida como essa beneficiaria 85 pessoas. Entre elas poderia estar Abimael Guzmán, o professor universitário de filosofia que comandou a organização maoista Sendero Luminoso. Acontece que a derrota do grupo terrorista, responsável pela morte de mais de 30 000 pessoas, é um dos principais trunfos da ditadura de Alberto Fujimori. Para impedirem tamanha incongruência, os fujimoristas têm tentado limitar o alcance do projeto, excluindo do benefício os condenados por terrorismo, traição à pátria, violação sexual de menores e feminicídio. Os crimes contra a humanidade ficariam de fora da lista, para que Fujimori pudesse ser agraciado. “Uma manobra como essa deixaria evidente que se trata de uma lei com nome próprio, feita para beneficiar Fujimori, o que é proibido pela nossa Constituição”, diz o advogado peruano Carlos Rivera, do Instituto de Defesa Legal, em Lima. Além disso, qualquer decisão favorável a Fujimori esbarraria nas convenções internacionais, segundo as quais não há perdão para pessoas que cometeram crime contra a humanidade.

Quando deixou o poder, em 2000, Fujimori transmitiu aos sucessores uma nação dividida ao meio. Havia aqueles que aplaudiam os legados do ditador, como o assistencialismo e a vitória contra o Sendero Luminoso, e aqueles que se opunham à ditadura e temiam o seu retorno. Os antifujimoristas, contudo, nunca conseguiram se organizar e criar raízes. Sempre foram representados por partidos pequenos e instáveis. PPK, por exemplo, fundou um partido nanico com a sigla de seu nome: Peruanos Por el Kambio. Nessas duas décadas, as eleições foram definidas no último minuto, com um candidato concentrando os votos antifujimoristas. A fragmentação da oposição permitiu que o fujimorismo reinasse soberano no Legislativo e na Justiça, ainda que não tenha conseguido voltar ao comando do país.

Agora, com a derrocada aparentemente definitiva do fujimorismo, o Peru tende a mergulhar numa dispersão total — e perigosa. Nenhuma força política parece capaz de conquistar uma maioria razoável e, com isso, oferecer alguma estabilidade ao país. Nesse sentido, segundo o cientista político peruano Carlos Mélendez, da Universidade Diego Portales, no Chile, “a situação do Peru é mais grave do que a do Brasil”. Por aqui, o petismo se enfraqueceu e o antipetismo encontrou um caminho para se contrapor.

Publicado em VEJA de 17 de outubro de 2018, edição nº 2604