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Todo mundo tem uma memória de Pelé

As lembranças do Rei na fila ao redor da Vila Belmiro na tarde do velório de um personagem onipresente

Por Fábio Altman, de Santos
Atualizado em 3 jan 2023, 10h07 - Publicado em 3 jan 2023, 09h50

No capítulo inicial de Meu Último Suspiro, o cineasta Luís Buñuel (1900-1983) faz uma delicada homenagem à memória da mãe, que se apagava nas camadas do tempo. Assim: “No colégio, em Zaragoza, eu era capaz de recitar de cor a lista dos reis visigodos espanhóis, as superfícies e populações de todos os Estados europeus e várias outras inutilidades. Em geral, tais exercícios de memória mecânica são menosprezados nos colégios. Na Espanha esse tipo de aluno é conhecido como memorión. E eu mesmo, por mais memorión que fosse, não dava a mínima para aquelas exibições medíocres. Porém, à medida que os anos passam, essa memória antes desdenhada torna-se preciosa para nós. As recordações vão se acumulando de maneira imperceptível e, um dia, de uma hora para outra, inutilmente tentamos nos lembrar do nome de um amigo, de um parente. Esquecemos. Chegamos às vezes a mergulhar numa espécie de raiva ao raiva ao procurar em vão por uma palavra que conhecemos, que está na ponta da língua e se recusa obstinadamente a vir à tona. Esse tipo de esquecimento, e outros que não tardam a surgir, faz que passemos a compreender e admitir a importância da memória. A amnésia – que no meu caso se iniciou por volta dos 72 anos – começa com os nomes próprios e as lembranças mais próximas: onde deixei o isqueiro que estava comigo há cinco minutos?, o que era mesmo que eu queria dizer ao enunciar esta frase? Isso é conhecido como amnésia antirretrógrada, que é seguida pela amnésia anterorretrógrada, referente aos acontecimentos dos últimos meses, dos últimos anos: qual era mesmo o nome do hotel em que me hospedei naquela viagem a Madri no mês de maio de 1980?, o título daquele livro que me interessou há seis meses? Não sei mais, rumino longamente, não adianta. Por fim, vem a amnésia retrógrada, que pode apagar toda uma vida, como no caso de minha mãe”.

As memórias da carreira de Pelé, de tão repetidas nas páginas da imprensa, especialmente na virada de 2022 para 2023, logo depois de sua morte – se é que Pelé morre – parecem indeléveis. Todo mundo viu, todo mundo sabe. Não há amnésia possível em torno de Pelé. É uma memória coletiva, a um só tempo nítida e embaçada, que está pronta para ser publicada – mas que também soa repetitiva, um tantinho previsível. Mas há um modo de tornar as lembranças menos evidentes. Elas serpenteiam, como cobra pelo chão, nas três horas de espera ao redor da Vila Belmiro, a caminho do caixão a corpo aberto do Rei. Ouvir as primeiríssimas lembranças dos cidadãos sobre Pelé, antes da derradeira homenagem, é uma maneira de iluminar sua relevância indizível. Em muitos casos, dada a pouca idade das pessoas, não seria crível lembrar do que se lembram. E daí? No jogo da memória cabe um pouquinho de fabulação – assim nascem e crescem as grandes histórias, os grandes personagens.

 Adilson Boscoli tem 65 anos. É corretor de imóveis.

“Vi o Pelé pela primeira vez em 1962, levado pelo meu pai para a Vila Belmiro. Era um Santos x São Paulo. Meu pai queria que eu torcesse pelo tricolor, mas como? O Santos ganhou por 3 a 0, e aquele camisa 10 jogou muito. Eu morava aqui pertinho, lá no número 495 da Pinheiro Machado. Um dia, alguns anos depois, fui ver um treino do Santos, nas arquibancadas da Vila. Um chute do Edu fez a bola parar no meu colo. Os funcionários do clube pediram que eu a devolvesse, e sei que estavam certos. Mas disse que só a daria nas mãos do Pelé. Tanto insisti, que acataram o meu pedido. Fui até o Rei, levei a bola e ele, generoso, disse que podia ficar com ele – a autografou, e lá fui eu com a pelota e a assinatura do Pelé. Você pode não acreditar, mas logo naquele primeiro dia, a bola foi atropelada por um caminhão, lá em frente de casa, quando a levei para mostrar aos amigos. Foi guardada estourada por minha mãe – mas com o tempo, se perdeu. Aquela bola não tenho mais, mas tenho três camisas autografadas por Pelé, olha aqui, estão no meu celular. Vim aqui agradecê-lo, pela última vez.”

Moacir Batista tem 65 anos. É taxista.

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“Ah, sou eu aqui nessa foto, correndo atrás do Pelé no gramado do Morumbi depois daquela final do campeonato paulista de 1973, entre o Santos e a Portuguesa. Sabe, aquele jogo que o juiz Armando Marques errou a contagem na disputa dos pênaltis? Só eu consegui furar a barreira dos agentes de segurança que, vou dizer a verdade, nem eram tantos e tão seguros. Outro dia alguém achou essa foto na internet e me mandou. Sou eu, aqui, correndo atrás do Rei. Choro só de lembrar o quanto ele foi importante na minha vida – e a prova tá aqui, nessa fotografia de mim mesmo quando menino.”

VEJA
Moacir Batista, o taxista: o registro daquela tarde de 1973 em que ele correu atrás de Pelé no estádio do Morumbi (Fábio Altman/VEJA)

 

Cristina Ribeiro Baizi Rodrigues tem 58 anos. É funcionaria pública federal do Porto de Santos.

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“Lembrar, lembrar mesmo, só da Copa de 1970, com o tricampeonato do México. Eu tinha seis anos. Mas posso dizer que sempre peguei o vácuo da memória do meu pai, de 92 anos, que inclusive é conselheiro do Santos. De muita coisa ele esquece, mas não do Pelé.”

Paulo Antonio de Aquino tem 67 anos. É garçom aposentado.

“Trabalhei como garçom no Palácio dos Bandeirantes, no tempo do Geraldo Alckmin. Em 2002 o Pelé foi convidado para um almoço. Excelente pessoa ele, viu? Tirou mais de uma foto comigo. Quer ver? Estão aqui. Minha mulher, a Neuza, diz que não largo essas fotos, que durmo com elas. Durmo mesmo. Estão aqui. Como não vir homenagear um cidadão como o Pelé? É o mínimo que posso fazer.”

Velório Pelé
Paulo Antonio, o garçom aposentado, em almoço no Palácio dos Bandeirantes, em 2002: “Excelente pessoa ele, viu?” (Fábio Altman/VEJA)

Adilson, Moacir, Cristina e Paulo caminhavam na tarde de segunda-feira, 2 de janeiro, nas cercanias da Vila Belmiro. Passaram diante do corpo de Pelé durante 30 segundos, talvez menos, ao som do hino do Santos, em volume muito baixo, e de uma canção gravada por Pelé. Os quatro, e quase todos que entraram na interminável fila de 24 horas, têm uma história para contar sobre o camisa 10. O mundo inteiro tem. De Buñuel, em Meu Último Suspiro: “Do meu passado remoto, da minha infância, da minha mocidade, guardo lembranças múltiplas e precisas, bem como uma profusão de rostos e de nomes. Se às vezes esqueço um, não me preocupo além da conta. Sei que ele vai voltar de repente, por um acaso do inconsciente, que trabalha incansável na escuridão.”

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