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Refugiada síria foge da morte para vencer bateria na Rio-2016

Há um ano, Yusra Mardini nadou em mar aberto por três horas e meia puxando um bote superlotado para fugir da guerra; neste sábado, ela estreou na Rio-2016

Uma atleta em especial chamou a atenção na primeira bateria das eliminatórias dos 100 metros borboleta. Disputando os Jogos Olímpicos sob a bandeira dos refugiados, a síria Yusra Mardini deixou para trás quatro adversárias que estavam na piscina e fechou a prova com o tempo de 1 minuto, 9 segundos e 21 centésimos.

A marca não garantiu nem de longe a classificação para as semifinais (ela ficou em 41º entre 45 atletas), mas só o fato de estar competindo dentro das piscinas já representa uma vitória para a atleta.

Nadadora na Síria, onde disputou o campeonato mundial de 2012, ela teve que fugir do país pelo mar por causa dos conflitos no Oriente Médio. Em uma parte da viagem, o barco em que ela estava virou e ela teve que nadar até que o socorro chegasse. Nesta semana, ela falou sobre o episódio e fez um paralelo com as Olimpíadas.

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“Eu nadei para sobreviver quando meu barco virou na ida para a Alemanha. Hoje, a natação é que salva a minha vida e me dá a oportunidade de representar não só a bandeira olímpica como o mundo todo”, conta Yusra.

A disputa da síria marcou a estreia da equipe de refugiados nos Jogos do Rio. Yusra ainda participa de mais uma prova, ela nada pelos 100 m livre na próxima quarta-feira. Antes dela, Rami Anis, outro sírio da equipe de refugiados, disputa as eliminatórias dos 100m livre masculino. A prova do sírio está marcada para terça-feira (9).

A fuga

Mardini morava em Damasco, cidade em que muitas muitas vezes treinava em piscinas cobertas por telhados perfurados por bombardeios. Em agosto do ano passado, ela e sua irmã, Sarah, decidiram fugir da guerra e tentar vida nova.

O plano era partir para a Alemanha, em um trajeto que passaria pelo Líbano e pela Turquia antes de chegar à Grécia. Trinta minutos depois de o grupo sair da Turquia pelo mar Mediterrâneo em direção à ilha grega de Lesbos, o motor do barco – que tinha capacidade para seis pessoas, mas transportava vinte – começou a falhar. A maioria das pessoas a bordo não sabia nadar. Sem outra alternativa, Yusra, Sarah e dois nadadores fortes pularam no mar e nadara, durante três horas em mar aberto.

“Eu tinha uma mão com a corda amarrada ao barco, e nadei com as duas pernas e um braço. Foram três horas e meia em água fria”, relembra a atleta. Yusra admite que odeia águas abertas por causa do episódio, mas ela diz não ter ficado traumatizada. “Sem a natação eu nunca teria sobrevivido. Essa é uma memória positiva para mim.”

Depois da passagem pela ilha de Lesbos, Mardini e Sarah viajaram pela Macedônia, Sérvia, Hungria e Áustria antes de chegarem à Alemanha. As irmãs se estabeleceram em Berlim. Antes de chegar aos Jogos do Rio, a rotina de Yusra tinha de duas e três horas de treinos a cada manhã, escola e, em seguida, treinos também à noite.

A equipe de atletas refugiados tem dez integrantes. Além da Síria, o grupo tem representantes de Sudão do Sul, Etiópia e República do Congo, em três modalidades: atletismo, natação e judô.