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O paisagismo britânico entre o Impressionismo e a Revolução Industrial

Richard Humphreys, curador da exposição, conta como as pinturas de paisagem inglesas mudaram ao longo dos séculos – e como mudaram o mundo da arte

Para se sentir imerso na natureza, o pintor inglês William Turner (1775-1851), reza a lenda, certa feita se deixou amarrar a uma ovelha. Ali, das costas do animal, ele poderia ver o mundo natural de uma perspectiva, digamos, mais legítima. Ele poderia mergulhar na paisagem. A busca pela natureza foi o grande motor dos paisagistas do Reino Unido, que em fins do século XVIII elegeram o campo como contraponto à urbanização provocada pela Revolução Industrial e criaram um estilo de pintura que teria ecos na França, em especial entre os impressionistas. São essas duas conexões históricas do paisagismo britânico que sobressaem na mostra que a Pinacoteca do Estado de São Paulo abre neste sábado, A Paisagem na Arte: 1690 – 1998 | Artistas Britânicos da Coleção da Tate, uma reunião de mais de cem obras de artistas britânicos do século XVIII até o XX, entre clássicos, românticos, pré-rafaelitas, impressionistas e modernistas, organizada em associação com a Tate, de Londres. A exposição apresenta ao público a evolução da escola paisagística inglesa, uma das grandes contribuições da arte da britânica para o resto da Europa, segundo o curador Richard Humphreys. “Essa tradição de trabalhar paisagens com aquarela e às vezes em pinturas a óleo teve um grande impacto sobre os artistas franceses. E, claro, sobre os impressionistas, que mais tarde trabalharam seus quadros diante das paisagens queriam retratar. Esse provavelmente foi o principal impacto do grupo: A ideia de trabalhar ao ar livre.”

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Como ver o impressionismo além do clichê de Monet

No lugar das chaminés, árvores. Em vez de fumaça, o céu azul. A reação à mudança por que passavam as cidades era calcada em um profundo saudosismo. “Havia nisso um sentimento de nostalgia em relação à Inglaterra de antes”, conta Humphreys. E os ingleses faziam isso tão bem que acabaram virando mestres na tarefa de retratar paisagens.

A nostalgia fez aumentar a sede pela natureza. Em vez de pintar no ateliê, de memória, os pintores passaram a trabalhar ao ar livre, bloquinho de rascunho na mão, onde registravam as primeiras impressões do que pretendiam retratar, para então partir para o estúdio, onde assinavam as suas obras. A ideia era captar a natureza tal como ela era. Turner foi quem levou essa meta mais longe. “Há a ficção presente no quadro e a realidade, que seria você em pé olhando para ela. À medida que o trabalho de Turner se desenvolveu, ele quis quebrar essa distinção”, explica o curador.

E foi Turner que começou a experimentar. Com ele, as telas pautadas pela perspectiva deram lugar a “coisas estranhas”, como as chama Humphreys, “sem perspectiva, uma arte muito mais moderna”, que teriam grande impacto sobre os impressionistas. Anterior a ele, por exemplo, era Thomas Gainsborough (1727-1788), outro paisagista da exposição, que ainda seguia os paradigmas clássicos, pincelando pastores e seus rebanhos.

John Constable (1776-1837), que acompanhava os passos de Turner, foi outro a reverberar na França. Ao chegar a Paris, nos anos 1820, seu trabalho teve uma recepção completamente diferente da colhida em sua terra natal. “Delacroix disse: ‘Nossa, que grande pintor!'”, conta o curador. Os franceses adotaram essa nova forma de retratar paisagens e se deixaram influenciar por esse tipo de pintura, em especial os impressionistas Manet (1832-1883) e Monet (1840-1926), grandes fãs da arte inglesa. Os experimentalismos da terra da rainha ao longo do tempo deram ideias aos impressionistas, que mais tarde também acabariam dando a própria contribuição ao paisagismo inglês, afastando-os da reprodução obsessiva da realidade. As cores de Gauguin (1848-1903) e Cézanne (1839-1906), por exemplo, que não existiam na natureza, caíram no gosto dos ingleses. Elas eram empregadas em telas que buscavam cada vez mais a abstração, a fuga da realidade, com doses de surrealismo. “Os impressionistas e, particularmente, os pós-impressionistas, como Cézanne e Gauguin, usavam as cores de uma maneira radical. Você podia ver claramente que era uma tela com tinta. E no final do século XIX e começo do século XX os artistas britânicos começaram a usar combinações estranhas de cores”, explica Humphreys.

O Impressionismo e suas influências no paisagismo do Reino Unido podem ser vistos nas obras produzidas durante as grandes guerras, algumas delas presentes na mostra da Pinacoteca. A guerra está na tela, sem estar de fato: “Muitas vezes o quadro não mostrava a guerra, mas sim o que se sentia sob a escuridão de uma guerra”. Ao retratar paisagens, mesmo que alheias às batalhas, os ingleses colocavam nos quadros os sentimentos que os conflitos despertavam neles, deixando as telas mais misteriosas, mais caóticas e problemáticas. As tintas do surrealismo ganhavam espaço nas paisagens da Grã-Bretanha.

Além da relação dos paisagistas com os impressionistas, a exposição ainda se abre para a produção feita antes e depois desse diálogo. Os quadros mais antigos mostram paisagens clássicas, como os pastores de Gainsborough, que pintava suas cenas em um quarto escuro à luz de velas – ele apenas imaginava o que estava pintando, prática anterior à da pintura ao ar livre. “O principal interesse é mostrar uma relação harmoniosa entre os pastores, seu rebanho e as paisagens para indicar que o homem está em harmonia com a natureza”.

Entre os pós-impressionistas, tem destaque o contemporâneo Richard Long, que utiliza mapas, fotos e textos para tecer uma paisagem. Em uma obra da mostra, ele dá nome aos lugares por onde caminhou e ao lado escreve algo que viveu em cada um desses lugares, muitas vezes com palavras inventadas. Puro texto, a obra parece um poema concreto. A exposição é interessante por apontar a evolução do tratamento concedido à paisagem, evolução clara quando se vê, uma perto da outra, a tela com uma montanha cheia de ovelhas e o poema capaz de ampliar o olhar. E também de incutir nostalgia.

A mostra abre 18 de julho e fica em cartaz até o dia 19 de outubro. A Pinacoteca do Estado de São Paulo fica na Praça da Luz, 2, e abre de terça a domingo das 10h às 18h (a bilheteria fecha 17h30). Os ingressos custam 6 reais.