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Nanni Moretti, presidente do júri de Cannes: um cronista de seu tempo

Ao longo de três décadas, o diretor, ator e roteirista italiano Nanni Moretti, que presidirá o júri do Festival de cinema de Cannes, que começa na quarta-feira no sul da França, foi um crítico de seu tempo e um italiano até a medula, amado e odiado.

Desde sua estreia formal em 1978, quando era muito jovem, Moretti – nascido na montanhosa Brunico, em 1953 -, surgiu no panorama do cinema mundial, revelando-se como um autor com uma visão muito crítica do mundo e de si mesmo, cheia de ironia.

Observador da sociedade sagaz e multifacetado, Moretti alcançou reconhecimento internacional com “Querido diário” (“Caro diário”), um relato entre realidade e ficção realizado em 1993 e premiado em Cannes.

Nesse filme, o cineasta, conhecido por sua timidez, narra sua batalha pessoal contra o câncer.

Esse estilo insólito, íntimo, sem preconceitos, caracterizou toda sua carreira, que se iniciou em 1976 com “Sou um autárquico”, título decididamente premonitório.

Seus primeiros filmes, já marcados por seu compromisso político e social, falam dos jovens. Sua produção era caseira e cheia de improvisos.

Ao longo de sua fecunda e variada carreira, Moretti não só foi diretor, como, com frequência, ator, roteirista, produtor e inclusive editor do mesmo filme.

Por este motivo e por sua tendência a se inspirar em suas próprias experiências, o chamam de “Woody Allen” do cinema italiano.

Identificado como cineasta comprometido com a esquerda e ferrenho defensor de sua independência, Moretti ganhou em 2001 a Palma de Ouro de Cannes com “O quarto do filho” (“La stanza del figlio”), em que deixou de lado seu sarcasmo habitual para contar um drama sobre a perda de um filho.

Reflexivo, culto, o cineasta – filho de um professor universitário de epigrafia grega e formado em um dos liceus tradicionais de Roma, onde sua mãe era professora – decidiu, aos 47 anos, deixar de lado o que ele define como “uma etapa de autocelebração e autoindulgência” para se arriscar em um melodrama.

“Uma entrada definitiva na maturidade pessoal e profissional”, confessou, ao falar do filme, que descreve os temores íntimos de todo pai depois do nascimento em 1996 de seu primeiro e único filho, Pietro, que teve com Silvia Nono, de quem está separado.

Depois de um período dedicado à política, durante o qual se opôs e se expôs pessoalmente contra a vitória eleitoral do magnata das comunicações Silvio Berlusconi, a quem dedicou o filme “O crocodilo” (“Il caimano”), retornou em 2011 às telas com uma comédia: “Habemus Papam”, sobre as fobias de um novo Papa.

De fácil acesso para os romanos, que podem cumprimentá-lo frequentemente na antiga sala de cinema Sacher, que comprou e restaurou no fim dos anos 80, no bairro de Trastevere, onde produz cinema independente, Moretti é o oposto do homem extrovertido e pomposo que interpreta em seus filmes como “Palombella rossa” (Pomba Vermelha) ou “Aprile” (Abril).

O homem de esquerda mais crítico da esquerda, admirador confesso de Visconti, Pasolini, Ferreri, Bellocchio, dos irmãos Taviani, Bertolucci, Hitchcock, Buñuel e Truffaut, é construtor de um cinema livre, longe das normas e da produção padrão.

“Em meus filmes ri muito da esquerda, de minha geração, da relação entre pais e filhos, da escola e do mundo do cinema e inclusive, em ‘Querido diário’, do câncer que tive há 20 anos”, disse em uma entrevista.

“Por que não? Nada deveria ser tabu no século XXI”, afirmou com seu estilo provocador, que pode cativar ou irritar, mas que não deixa ninguém indiferente.