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“Faço agora o cinema que quis fazer minha vida toda”, diz diretor de ‘Trapaça’

O cineasta David O. Russell, indicado ao Oscar de melhor diretor, conta ao site de VEJA como encontrou, depois de duras quedas, o caminho para o estrelato, sem perder sua essência

Por Mariane Morisawa, de Berlim - 2 mar 2014, 16h05
David O. Russell - Trapaça
David O. Russell – Trapaça VEJA

O americano David O. Russell, 55, estreou em longas-metragens em 1994, com A Mão do Desejo. Dirigiu filmes que tiveram alguma repercussão, como Três Reis (1999), mas foi só com sua trinca de mais recentes trabalhos que entrou para o time A de cineastas dos Estados Unidos. O Vencedor (2010) deu o Oscar de coadjuvantes para Christian Bale e Melissa Leo e foi indicado a outros cinco. O Lado Bom da Vida (2012) concorreu a oito estatuetas e levou o de atriz coadjuvante para Jennifer Lawrence. E Trapaça, em cartaz no Brasil, disputa dez categorias no Oscar 2014 (filme, direção, ator para Christian Bale, atriz para Amy Adams, ator coadjuvante para Bradley Cooper, atriz coadjuvante para Jennifer Lawrence, figurino, edição, desenho de produção e roteiro original). No filme, Irving (Bale) e Sydney (Adams) são amantes que dão golpes em outras pessoas. Um agente (Cooper) descobre e os obriga a colaborar com uma investigação do FBI, enquanto a mulher de Irving, Rosalyn (Lawrence) recusa-se a lhe dar o divórcio.

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No meio artístico, Russell é conhecido por apadrinhar atores e extrair deles o melhor, por este motivo seus elencos são presença certa entre os indicados ao Oscar e os nomes se repetem de uma produção para outra, caso de Jennifer, Amy, Bale e Cooper, que já haviam trabalhado com o cineasta antes de Trapaça. Sua segunda fama é a de ser ligado no 220 volts, com saltos desconcertantes no meio do raciocínio, alguns perceptíveis na entrevista que o diretor concedeu ao site de VEJA, durante o festival de Berlim.

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Qual é seu objetivo com o cinema? Faço agora o cinema que quis fazer minha vida toda. E fico feliz que tenha conseguido antes de morrer, porque amadureci tardiamente, só nos meus últimos três filmes realmente descobri a estrada para a humanidade, que é apaixonada, com um ar de ópera, que tende ao amor, à esperança apesar de todas as catástrofes, que tende ao romance. Sou feliz de levantar essa bandeira. É uma coisa muito específica, não necessariamente comercial. Então o fato de os últimos três filmes terem sido sucesso comercial foi um pequeno milagre. Eu aspiro continuar fazendo isso.

Como se deu essa virada? Tive uma folga não programada. Minha vida mudou e, como contador de histórias, fiquei meio perdido. Eu gosto de escrever histórias como se tivesse uma arma apontada para minha cabeça. Porque na época de Huckabees – A Vida é uma Comédia (2004), eu já estava alienado e racionalizava demais cada coisa. Christian Bale sempre fala de uma frase do ator Bob Hoskins: “Atuar não é das orelhas para cima. É dos pés para cima”. Estava fazendo cinema que era da orelha para cima. Quando voltei, depois de pular do alto de uma montanha e cair de costas no chão, comecei a fazer cinema dos pés para cima. Eu me divorciei, tive de ajudar um garoto bipolar a organizar sua vida… Tive dois projetos que nunca foram para frente. Foi uma grande queda.

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Como teve a ideia de fazer Trapaça? Sydney Pollack me deu o trabalho de adaptar um romance, O Lado Bom da Vida. Eu disse que conseguia porque tinha vivido aquilo. É meu projeto mais pessoal, apesar de ser adaptado de um livro. Mas aí Pollack morreu, o que foi muito triste, e não consegui ninguém para dirigi-lo. Mark Wahlberg me ofereceu O Vencedor. Como estava mais humilde, pude olhar no olho daquelas pessoas, as reais e os personagens. Eu sabia quem eram. Aí eu consegui fazer O Lado Bom da Vida. Ficou esse cinema de música, romance, paixão, sobrevivência. Trapaça veio daí. É difícil encontrar uma situação que seja boa o bastante para seus atores, para que possam criar personagens de ópera. Mas estava mais interessado na situação emocional do que na situação criminosa, do caso real que inspirou Trapaça (a operação Abscam, que prendeu políticos por corrupção no início dos anos 1980).

Como costuma trabalhar com seus atores? Você precisa trabalhar com cada ator de maneira diferente. Porque uma pessoa é diferente da outra… Os atores meio que sabem o que vão encontrar, porque eu escrevo pensando em cada um deles. Você escreve para quem te inspira.

Preocupa-se com a crítica? Quando o Círculo de Críticos de Nova York elegeu Trapaça como o melhor do ano, foi muito importante. Foi uma decisão ousada porque não somos a escolha óbvia, não somos sobre um evento histórico trágico ou alguma coisa grande. Só falamos de pessoas. E humanidade. Emoção. E falamos de cinema, o filme é na verdade sobre isso. Um crítico me disse que o filme o deixou feliz. Parte do meu objetivo é que as pessoas se sintam como se tivessem tomado uma droga.

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Não sente pressão agora que seus filmes são premiados e têm bilheteria? Sinto, mas, se não quisesse sentir, não estaria nesta profissão. Houve vezes em que não me preocupei com o resultado. Não quero voltar a essa posição.

‘Trapaça’

Trapaça, que tem David O. Russell no roteiro e na direção, é baseado em uma operação real do FBI batizada de Abscam, que ocorreu nos anos 1970 e descobriu, enquanto investigava um grupo de trapaceiros, uma rede de corrupções políticas. O ponto alto do filme, que levou o troféu de melhor longa cômico ou musical no Globo de Ouro, fica nas mãos do elenco, que conta com a presença de Christian Bale, Amy Adams, Bradley Cooper e Jennifer Lawrence. Todos conquistaram indicações ao Oscar, dominando as categorias de atuação. No Globo de Ouro, Jennifer Lawrence e Amy Adams já saíram vencedoras, dando à produção o maior número de prêmios na festa, três. Em 2013, Russel já se saiu bem com O Lado Bom da Vida, que deu a Jennifer o Oscar de melhor atriz. No total, Trapaça, que estreia dia 7 de fevereiro no Brasil, teve 10 indicações. 

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‘Gravidade’

Um dos favoritos ao prêmio principal do Oscar, o longa dirigido pelo mexicano Alfonso Cuarón conta a história de Ryan Stone (Sandra Bullock), uma engenheira médica em sua primeira missão fora da Terra, na companhia do experiente astronauta Matt Kowalski (George Clooney). O trabalho — e a sobrevivência — da dupla no espaço é ameaçado quando uma nuvem de partículas resultante da destruição de um satélite russo chega ao local onde eles se encontram. Ryan e Kowalski não conseguem retornar ao ônibus espacial e ficam à deriva. O filme foi o vencedor do Globo de Ouro na categoria de direção e ficou entre os finalistas ao prêmio de melhor filme de drama na competição. No Oscar, Gravidade lidera as indicações ao lado de Trapaça. O longa é lembrado em outras nove categorias, incluindo a de melhor atriz com Sandra Bullock, a de melhor diretor para Alfonso Cuarón e a de melhor montagem. No Brasil, o filme estreou em 11 de outubro.

’12 Anos de Escravidão’

Um dos favoritos ao prêmio, o elogiado longa de Steve McQueen acumula um Globo de Ouro de melhor drama e indicações ao Bafta, o Oscar britânico, e aos prêmios concedidos pelos sindicatos de atores, diretores e diretores de arte dos Estados Unidos. A produção conta a história adaptada da autobiografia Twelve Years a Slave, de Solomon Northup, um americano livre de origem africana que foi sequestrado e vendido como escravo durante a década de 1840. No longa, Northup é interpretado por Chiwetel Ejiofor, indicado ao prêmio de melhor ator no Oscar. No total, o filme foi indicado a nove prêmios, incluindo o de ator coadjuvante para Michael Fassbender, que dá vida a um cruel dono de escravos. No Brasil, o longa tem estreia prevista para 28 de fevereiro. 

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‘O Lobo de Wall Street’

O controverso filme de Martin Scorsese marca a quinta parceria do diretor com o ator Leonardo DiCaprio e conta a história real de Jordan Belfort, um corretor de títulos da bolsa americana que entrou em decadência nos anos 1990. Cercado por uma vida de ganância e abusos, regada a drogas, sexo e álcool, Belfort se envolveu em diversos crimes do colarinho branco e acabou investigado pelo FBI. O Lobo de Wall Street conquistou cinco indicações, entre elas as de melhor filme, melhor ator para Leonardo DiCaprio e melhor diretor. O longa estreia no Brasil dia 24 de janeiro. 

‘Capitão Phillips’

O longa dirigido por Paul Greengrass, indicado também ao Globo de Ouro na categoria de melhor drama, é baseado em fatos reais e conta a história de Richard Phillips (Tom Hanks), o capitão de um navio cargueiro sequestrado por piratas somalis em 2009. O roteiro assinado por Billy Ray, também responsável pela adaptação da saga Jogos Vorazes, é inspirado no livro de memórias A Captain’s Duty: Somali Pirates, Navy SEALs, and Dangerous Days at Sea, escrito pelo próprio Phillips. No Oscar, o filme foi lembrado em outras cinco categorias, incluindo a de roteiro adaptado e a de ator coadjuvante com Barkhad Abdi, que interpreta o líder do grupo pirata invasor do navio. No Brasil, o longa estreou em 8 de novembro. 

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‘Philomena’

O filme estrelado por Judi Dench conta a história real de Philomena, uma mulher que, nos anos 1950, dá à luz em um convento e se vê obrigada a dar o bebê para adoção. A criança é levada para os Estados Unidos e logo depois Philomena começa a sua busca por ela. Cinquenta anos depois, ela conhece o jornalista Martin Sixsmith (Steve Coogan), que a ajuda na investigação sobre o paradeiro do filho. O longa, dirigido por Stephen Frears, foi baseado no livro escrito por Sixsmith. No Oscar, teve quatro indicações: melhor filme, melhor atriz para Judi Dench, melhor roteiro adaptado e melhor trilha sonora original. Philomena está previsto para estrear no Brasil no dia 7 de fevereiro. 

‘Clube de Compras Dallas’

Baseado na história real do eletricista e caubói texano Ron Woodroof, um machão que descobre ter aids em 1986, o longa do canadense Jean-Marc Vallée conquistou seis indicações, entre elas a de melhor ator para Matthew McConaughey e a de ator coadjuvante para Jared Leto. Após receber o diagnóstico, Woodroof descobre que tem apenas um mês de vida. Para conseguir o tratamento que mudará esse quadro, ele passa a adquirir a droga ilegalmente. Depois, ele se alia ao personagem de Leto, um travesti, em um esquema de contrabando. A produção está prevista para 21 de fevereiro no Brasil. 

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‘Ela’

O filme dirigido e escrito por Spike Jonze conta a inusitada história de Theodore Twombly (Joaquin Phoenix), um escritor solitário que se apaixona pelo sistema operacional de seu smartphone, cuja voz é a de Scarlett Johansson. O aparelho apresenta uma interface interativa a partir de uma voz feminina que se apresenta como Samantha (inspirada em Siri, do iPhone). O longa saiu vencedor na categoria de melhor roteiro no Globo de Ouro, onde também foi indicado a melhor comédia ou musical. No Oscar, a produção foi lembrada em outras quatro categorias, incluindo a de direção de arte e de roteiro original. No Brasil, o longa tem estreia prevista para 14 de fevereiro.

‘Nebraska’

O longa dirigido por Alexander Payne conta a história de Woody Grant (Bruce Dern), um ex-alcoólatra que decide ir do Estado americano de Montana até o de Nebraska a pé com seu filho David (Will Forte) para exigir um prêmio de 1 milhão de dólares que acredita ter ganhado após receber uma propaganda publicitária pelo correio. O filme foi indicado ao prêmio de melhor comédia ou musical no Globo de Ouro e foi lembrado também em premiações como o Bafta e a organizada pelo American Film Institute. No Oscar, Nebraska foi indicado em outras cinco categorias, incluindo a de direção e a de melhor ator para Bruce Dern. No Brasil, o longa tem estreia prevista para 31 de janeiro.

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