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Chiquinha, de ‘Chaves’, a personagem que todos disputam

Maria Antonieta de Las Nieves vem ao país para se apresentar como a personagem que marcou a sua carreira – e a infância de mais de uma geração

Por Raquel Carneiro - Atualizado em 17 jan 2017, 12h05 - Publicado em 3 nov 2013, 09h10

“Não temos nenhum contato. Ele não atende meus telefonemas nem meus convites. Se não quer, não posso obrigá-lo a ser meu amigo”, diz Maria Antonieta sobre a amizade com Roberto Bolaños, o Chaves

Poucos elencos da televisão dispensam apresentação como os populares vizinhos de vila do programa Chaves. No grupo está Chiquinha, a garota sardenta e chorona que é a melhor amiga de Chaves e pivô da maior parte das confusões dos episódios. A responsável por dar vida à personagem é a mexicana Maria Antonieta de Las Nieves, atriz que a interpretou pela primeira vez aos 18 anos e hoje, aos 62, ainda faz apresentações de humor com o característico figurino verde e vermelho. Sua turnê Fijate, fijate, fijate!, expressão que em português é um dos famosos bordões da série, o “Pois é, pois é, pois é”, já passou por diversos países e, em novembro, chega ao Brasil pela primeira vez, com uma apresentação no Rio de Janeiro, no dia 8, em São Paulo, no dia 10, e outra em Porto Alegre, no dia 11.

“Às vezes, sinto que não aguento mais e penso em deixar de fazer shows. Afinal, não tenho mais 20 anos de idade. Mas, no dia seguinte, vejo o vestido da Chiquinha e lembro que essa é a vida que eu amo. Nunca vou abandoná-la”, diz a atriz em entrevista por telefone ao site de VEJA.

Apesar de ser amplamente conhecida pelo programa humorístico, as raízes de Maria Antonieta residem em outro estilo. “Na verdade, sou uma atriz de drama. A Chiquinha é quase um hobby, é minha vida e adoração”, conta. Seu primeiro trabalho foi aos 7 anos de idade, na série mexicana Pulgarcito (1957). Depois foi a vez da novela La Leona (1961), que rendeu a ela um prêmio de melhor atriz dramática infantil. A grande virada viria na adolescência após receber o convite de Roberto Bolaños, criador e intérprete de Chaves hoje com 84 anos, para atuar em esquetes de comédia. A ideia de trabalhar com humor causou estranhamento e a atriz quase recusou o desafio. “Então, ele me disse que um bom ator deve saber fazer o público rir mas também chorar”, conta a atriz.

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Sua primeira atuação ao lado de Bolaños foi no programa Los Supergenios de La Mesa Cuadrada (1968), juntamente com os atores Rubén Aguirre, que já interpretava o Professor Girafales, e Ramón Valdés, que mais tarde se tornaria o Seu Madruga, na Rede Televisa, espécie de Globo do México. Depois, o grupo migrou para Chespirito (1968), programa feito de diferentes esquetes de humor, com personagens variados interpretados pelos atores. Foi daí que nasceu, em 1970, Chapolin e, um ano depois, Chaves.

O sucesso dos dois programas se espalhou pelo mundo e ambos chegaram ao Brasil em agosto de 1984, no programa TV Pown, do SBT. Até hoje, Chaves é exibido pelo canal – Chapolin saiu do ar em março. A longevidade da história e a amplidão do público alcançado são, para Maria Antonieta, algo inexplicável. “É um milagre, é difícil um seriado durar tanto tempo no ar. O roteiro era muito bem escrito e a equipe trabalhava bem. Éramos uma família, com todos os prós e contras”, diz a atriz.

Nesta família, ganha destaque Ramón Valdés (Seu Madruga), seu pai na ficção. Para ela, o ator, morto em 1988 de câncer do pulmão, era o mais especial do elenco. “Ele era uma pessoa maravilhosa. Tinha sete filhos, mas falava que a Chiquinha era a sua primeira, então carregava minha foto junto com a dos outros”, lembra a atriz. “Ele me amava como filha, e eu o amava como pai. Quando ele morreu, fui parar no hospital, fiquei dois dias internada em choque.” Até hoje, Maria diz que assiste ao programa diariamente para vê-lo.

Intrigas – Apesar da nostalgia, Maria Antonieta reconhece que a amizade que havia entre os atores de Chaves, no passado, não existe mais. Desmantelado, o grupo sofreu duas importantes baixas ainda nos anos 1980, década em que aportavam por aqui. Os atores Carlos Villagrán, intérprete de Kiko, e Ramón Valdés, o Seu Madruga, se desentenderam com Bolaños e deixaram o programa. O drama de Villagrán e Bolaños teria como motivo central o triângulo amoroso entre os dois com Florinda Meza, a Dona Florinda. Por anos namorada de Villagrán, Florinda o trocou pelo intérprete de Chaves, em 1977, com quem é casada até hoje, o que afetou o clima nas gravações e provocou a saída de Kiko.

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Fora da turma, o ator fez outros trabalhos de humor, entre eles Kiko Botones (1981), criado por ele, e Kiko e sua Turma (1988), uma parceria com Valdés, que abandonaria o projeto pouco depois por causa do câncer. A briga entre Villagrán e Bolaños se desdobrou em uma disputa judicial pelo personagem de Kiko, do qual ambos reclamaram a autoria. Até hoje, o caso não se resolveu.

Conflito semelhante envolve a intérprete de Chiquinha. Em 1994, após atuar no programa Aquí Está la Chilindrina (Aqui está a Chiquinha, em tradução livre), também na Televisa, Maria Antonieta se desentendeu com Bolaños, que queria o seu nome nos créditos como criador da personagem. Insatisfeita, a atriz também reclamou os direitos autorais de Chiquinha, briga que levou quase dez anos para ser dada como resolvida por ela.

Em julho, durante um show em Lima, no Peru, Maria Antonieta afirmou ter ganhado o caso de Bolaños. Antes, ela tinha apenas o direito de fazer apresentações como Chiquinha, mas não ganhava nada pelo licenciamento de produtos e pelo uso de imagem da personagem, situação que mudaria com a sua vitória judicial. Na época, porém, a informação foi contestada por Roberto Gómez Fernández, filho do comediante, segundo o qual o processo ainda corre na justiça. Procurada pela reportagem do site de VEJA, a rede Televisa, detentora dos diretos do programa, não quis se pronunciar.

Apesar dos pesares, a atriz diz que já tentou retomar o relacionamento com Bolaños. “Não temos nenhum contato. Ele não atende meus telefonemas nem meus convites. Se não quer, não posso obrigá-lo a ser meu amigo.”

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Show atualizado – Na estrada há 38 anos, e há 29 no SBT, esta será a primeira vez que Maria Antonieta fará um show no Brasil. Aulas diárias de português estão sendo ministradas para que consiga se comunicar da melhor maneira com o público. “É difícil aprender português. Estou desesperada, pois está chegando o dia da turnê e ainda não aprendi de verdade”, admite. Mesmo se não conseguir falar todo o texto em português, Maria Antonieta terá uma intérprete para auxiliá-la no palco. “Tem sido difícil, mas não se preocupem: vou dar um jeito e vou falar português no show!”

Também haverá outros elementos de brasilidade na apresentação. Para não estacionar em um público cativo de fãs saudosistas, a atriz tenta se reinventar incorporando brincadeiras que envolvem a internet e especialmente o Facebook, ótimas para fisgar crianças. No caso do Brasil, a animada Chiquinha pode fazer uma apresentação da canção Show das Poderosas, da cantora MC Anita. “O texto evolui com o tempo, mas a personagem continua sendo a mesma menina travessa e chorona de sempre.”

Casada com o produtor de televisão Gabriel Fernández desde 1971, e mãe de dois filhos, Verônica e Gabriel, a atriz não leva consigo arrependimentos. “Apesar da carreira artística, fiz um bom trabalho como mãe. Nunca fui uma pessoa rica, mas me sacrifiquei pela família e pelo que sonhava. Meus filhos puderam ter e fazer tudo que eu não pude.”

Sobre o futuro, Maria Antonieta não tem planos de se aposentar tão cedo. “Enquanto estiver bem fisicamente, vou continuar fazendo a Chiquinha. Ela é a minha vida. Fazer o programa Chaves foi algo mágico e único. Tenho saudade.”

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Para quem quiser conferir a atriz de perto, ainda há ingressos disponíveis no Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre.

Confira abaixo a trajetória dos populares personagens de Chaves:

 

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‘Los Supergenios de la Mesa Cuadrada’

O programa de 1968 reunia os atores Rubén Aguirre (Professor Girafales), Roberto Bolaños (Doutor Chapatín), Ramón Valdés (Ingeniebrio Ramón Valdés) e María Antonieta de las Nieves (como ela mesma e apresentadora). Em tom bem-humorado, os personagens comentavam notícias do momento, intercaladas por esquetes divertidos.

‘Chespirito – El Ciudadano Gomez’

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El Ciudadano Gomez (1968) foi umas das histórias criadas por Roberto Bolaños para o programa Chespirito, em que apresentaria diversos personagens — entre eles o que dava título à atração. Foi também em Chespirito que nasceram os roteiros de Chapolin e Chaves. No episódio acima, Maria Antonieta interpreta uma vidente vigarista, que finge ver o futuro em sua bola de cristal.

‘Chapolin’

A história do herói atrapalhado e medroso nasceu em 1970, um ano antes de Chaves e sua vila. Vivido por Roberto Bolaños, Chapolin aparece sempre que alguém está em apuros e tenta resolver a situação. O mesmo grupo de atores que trabalhava em Chespirito se reveza entre diferentes papéis nas histórias que mantêm apenas o quase-herói (e quase anti-herói) como elo principal. Uma das histórias mais famosas é aquela em que Maria Antonieta de Las Nieves interpreta a Bruxa Baratuxa, que tenta fazer com que a “camponesa de coração nobre” se case com seu filho.

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‘Aquí Está la Chilindrina’

Em 1994, a personagem Chiquinha protagonizou a série Aquí Está la Chilindrina, que contava com números musicais. A história da personagem, no entanto, é diferente da que ficou conhecida em Chaves. Chiquinha era uma garota abandonada pelos pais que foi viver em um convento e enlouqueceu o padre e as freiras do local. Dirigido por Rubén Aguirre, o Professor Girafales, o programa foi o último apoiado por Bolaños, que queria seu nome nos créditos como criador intelectual da personagem e começou, então, a brigar com Maria Antonieta de Las Nieves.

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‘Kiko e sua Turma’

O ator Carlos Villagrán, intérprete de Kiko, protagonizou o seriado ¡Ah qué Kiko! (1988), traduzido como Kiko e sua Turma pela Rede Bandeirantes, que o transmitiu no Brasil. O programa também tinha o ator Ramón Valdés, o Seu Madruga, que assim como Villagrán se desentendeu com Bolaños e deixou o elenco de Chaves. Na história, Kiko é um garoto que trabalha na venda Surpresa, de Seu Madruga. Entre Chaves e Kiko e sua Turma, Villagrán protagonizou também as séries Kiko Botones (1981), Frederrrico (1982) e Las Nuevas Aventuras de Fredericco (1983).

 

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