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Cauby Peixoto fala sobre sua sexualidade em documentário

'Eu era um garoto quando ia para os morros transar com os veados', diz em filme de Nelson Hoineff, com estreia marcada para a próxima quinta, dia 28

A Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Santa Isabel, em São Paulo, despertou com um trovão no começo deste ano. Uma voz grave forte e cheia de vibratos clamava por Conceição, a personagem-título daquela que talvez seja a música mais conhecida de Cauby Peixoto, que a entoa há 60 anos. Alguns pacientes acordaram, enfermeiros sorriram e os médicos entraram logo depois, aplaudindo o cantor. Evocada na UTI de um hospital, Conceição era o sinal de que Cauby estava pronto para voltar. Aos 84 anos, ele passava por uma internação para se recuperar dos descontroles de sua diabetes. E, mesmo em condições delicadas, cantou no quarto Conceição e Arrastão, e durante os dias mais tensos. E não só cantou. Em uma tarde de visitas, virou-se para o seu produtor, Thiago Marques, e fez planos: “Quero gravar um disco de bossa nova”. E ele vem aí mesmo: A Bossa Moderna de Cauby acaba de receber as primeiras vozes de Cauby. Que não para. A agenda do cantor atropela a de seus produtores. Seus discos se sobrepõem uns aos outros como se o mundo tivesse as horas contadas e seus shows só são suspensos por ordens médicas. Nos últimos dez anos, foram oito CDs e três DVDs lançados. E uma temporada no Bar Brahma, prevista para durar um mês, ficou na casa por espetaculares 12 anos. E ele também ganha agora um documentário, Cauby – Começaria Tudo Outra Vez, de Nelson Hoineff, com estreia marcada para a próxima quinta, dia 28.

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O filme traz um tema sobre o qual o cantor falou poucas vezes: sua sexualidade. Cauby diz que logo cedo, quando garoto, descobriu que o amor entre homens era perfeito, como o amor entre um homem e uma mulher. Sorri muito quando lembra da adolescência. “Eu era um garoto quando ia para os morros transar com os veados. Eu também andava com eles. Transar (assim) era uma coisa natural.” Sempre cuidadoso com sua intimidade nas entrevistas, ele fala sobre o assunto com leveza. E diz que, com o passar dos anos, começou “a andar direito”. “Depois, eu comecei a ter namoradas.”

Um dos personagens que enriquecem o documentário de 90 minutos é Tadeu, um garoto de 15 anos que vive em Olaria, Rio de Janeiro. Sua devoção a Cauby é de impressionar. E o filme vai explorar esse traço de personalidade, abrindo e fechando a história com o menino que sonha em encontrar seu ídolo.

Cauby aparece quase sempre cuidado e amparado por sua secretária pessoal, Nancy, e por seu produtor, Thiago Marques. É um homem frágil, anda em passos lentos e precisa de cuidados. E é justamente das imagens de suas limitações que sai a grande contribuição de Hoineff à história. A voz de Cauby funciona como se fosse algo ou um ser de vida própria. Aparenta ter por 20 anos a menos do que seu dono e contrasta com as sua limitações. O sentimento de piedade que pode haver dos que observam Cauby se movimentando com dificuldade e cantando sempre sentado desaparece no instante em que sua boca se abre. A voz parece representar a integridade de sua alma e transmite uma dualidade intrigante entre corpo e espírito. Enquanto o primeiro vive as limitações impostas pelo tempo, o segundo pega o caminho contrário, ganhando força e recursos que antes não tinha.

Cauby sofre para aparecer em cena. Uma escada de três andares pode ser para ele um grande desafio, mas a sua confiança na voz parece ainda maior. Antes de um de seus shows mostrados no filme, há uma preocupação de sua equipe com a primeira música. Os produtores não sabem se ele vai se lembrar de que ela é Força Estranha, de Caetano Veloso. Mas basta um toque ao violão para ele soltar a voz com uma precisão que faz entender o que segura este homem nas alturas por tanto tempo.

(Com Estadão Conteúdo)