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‘Amizade Desfeita’ explora cyberbullying, mas esquece de assustar

O longa, desde quinta em cartaz, é narrado a partir da tela do computador de Blaire, menina que é perseguida junto com seus amigos por um espírito virtual

Repetidas atitudes violentas de uma ou várias pessoas contra um sujeito são chamadas de bullying e, quando ocorrem no ambiente virtual, de cyberbullying. A diferença deste para o outro são as vantagens que a internet proporciona, como a distância física e o anonimato, mais a facilidade dos smartphones em capturar e espalhar um acontecimento, seja o ataque em si ou o material feito a partir dele, prolongando e intensificando a maldade. E foi o último caso o de Laura Barnes (Heather Sossaman) no filme de terror Amizade Desfeita. O longa, que entrou em cartaz na quinta, tem uma narrativa criativa ao mostrar a trama a partir da tela do computador de Blaire (Shelley Hennig), mas peca no ingrediente principal do gênero de terror: o susto. Como uma parábola, ele ainda dá lição de moral no fim para os internautas.

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Dirigido pelo georgiano Levan Gabriadze em sua primeira aventura em Hollywood, Amizade Desfeita conta a história de Laura, uma adolescente que se suicida após um amigo postar um vídeo seu em estado deplorável: bêbada, jogada no chão e suja de fezes. Um ano após sua morte, a garota ressurge como um espírito virtual e entra na sala de bate-papo de Blaire e seus amigos, Adam (Will Peltz), Jess (Renee Olstead), Val (Courtney Halverson), Ken (Jacob Mysocki) e Mitch (Moses Jacob Storm), no Skype. A fantasma os atormenta para descobrir quem publicou a gravação que a levou a tirar sua vida. Depois, ao melhor estilo Jogos Mortais (2004), ela decide brincar com os cinco e revela segredos deles sem dar nome aos bois. Quem assume a autoria, caso realmente tenha feito determinado ato, sobrevive. Quem se omite é tomado por uma força misteriosa e levado a se matar brutalmente.

Apesar de interessante, a linguagem visual do filme não é original. A série Modern Family já fez um episódio inteiro se passar na tela de um computador e o filme indie espanhol Perseguição Virtual (2014), estrelado por Elijah Wood, usou do mesmo formato. Quanto aos sustos, eles ocorrem apenas uma meia dúzia de vezes, e os verdadeiros fãs de terror devem se decepcionar com Amizade Desfeita. Além disso, os personagens são rasos e estereotipados – há o rico, a boazinha, o nerd – mas, para ser justo com o roteirista Nelson Greaves (da série Sleepy Hollow), fica difícil dar profundidade aos papéis com esse tipo de história que mostra tudo para o espectador.

Sem praticamente sair da tela do laptop de Blaire, o longa passa as incômodas sensações de claustrofobia e de impotência. Um dos poucos momentos em que Amizade Desfeita foca além do computador é quando Blaire vira a câmera para si e aparece desesperada, hiperventilando, em uma cena que remete ao já clássico A Bruxa de Blair (1999), assim como o próprio nome da personagem. Por fim, em um momento em que tenta soar sábio, o longa relembra como a internet é uma via de duas mãos. Ao mesmo tempo em que as informações no mundo virtual são fugazes e passageiras, elas também são eternas e o passado, quando ressurge, pode ser assustador.