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Brasil busca engenheiros. Vestibulandos candidatam-se

As engenharias – com destaque para a civil – recebem sopro de vigor dos investimentos em infraestrutura. E os estudantes perceberam isso

A engenharia civil está em alta. Na última terça-feira, a Fuvest, principal vestibular do país, que seleciona estudantes para a Universidade de São Paulo (USP), informou que a carreira é a mais concorrida do processo seletivo 2012, destronando medicina: são 52,27 candidatos disputando cada uma das 60 vagas para futuros engenheiros. Em outros vestibulares, a concorrência também é acirrada. Na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), são 47,4 candidatos por vaga, atrás apenas de medicina (114,4) e arquitetura (82). As engenharias – com destaque para a civil – vem recebendo um sopro de vigor do aquecimento da economia e dos investimentos em infraestrutura realizados no país. Afinal, para construir casas, hotéis, pontes e redes de esgoto, precisa-se de engenheiros. Os salários subiram e os candidatos a engenheiro perceberam isso. Discute-se até que, mantido o atual ritmo, o Brasil precisará formar mais profissionais. “Os vestibulares revelam que há uma percepção da sociedade, principalmente por parte dos jovens, de que as carreiras ligadas à engenharia oferecem oportunidades promissoras”, afirma Aluízio de Barros Fagundes, presidente do Instituto de Engenharia (IE).

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É uma mudança significativa em relação a décadas anteriores. Com o fim do “milagre econômico”, na década de 1970, a engenharia civil passou por momentos de baixa, fruto do magro investimento em infraestrutura. Havia oportunidades para outras subáreas, como a eletrônica, nos anos 80. “A engenharia é uma área muito suscetível ao crescimento econômico. À medida que a economia se fortalece, as oportunidades surgem e o mercado seleciona os melhores profissionais”, afirma Paulo Meyer, técnico de planejamento e pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Continue a ler a reportagem

De forma geral, a carreira de engenharia tem se tornado mais atrante. De acordo com dados do Ipea, em 2000, 71% dos engenheiros atuavam fora da área de formação. Nove anos depois, a taxa caiu para 62% – ou seja, mais gente ficou no segmento para o qual se preparou. “Isso mostra um crescimento nas oportunidades de trabalho e também do interesse dos engenheiros em exercer sua profissão”, diz Meyer. O instituto estima ainda que, até 2020, se o país crescer a uma taxa média de 4,5%, apenas metade dos formados na área terá migrado para outros setores.

Uma das formas de medir o aumento da demanda por engenheiros é acompanhar a variação dos salários. Pesquisa realizada pela empresa de recrutamento Catho Online mostra que cargos ocupados por engenheiros civis tiveram uma valorização salarial de cerca de 50% entre 2009 e 2011. Os estagiários da área, por exemplo, recebem atualmente uma bolsa-auxílio de aproximadamente 1.110 reais – 94,3% a mais do que a cifra paga há dois anos. O vencimento de um recém-formado recebeu um incremento de 59,8%, atingindo 4.800 reais. “São raras as profissões e situações em que um jovem deixa a universidade ganhando quase 5.000 reais. Isso chama a atenção”, diz Fagundes, do IE. De novo, o Ipea apresenta projeções animadoras para os próximos dez anos: se a economia acelar a 4,5% ao ano em média, o Brasil precisará de 765.000 profissionais.

“É emblemático que, neste ano, a procura pelo curso de engenharia tenha superado a de medicina no vestibular mais importante do Brasil”, diz Silvio Bock, pedagogo e orientador vocacional. “Há alguns anos, as ofertas de emprego nessa área têm sido ampliadas, e isso chega aos ouvidos dos jovens que estão definindo seu futuro profissional.”

O cenário é animador. Mas também suscita preocupação. As empresas reclamam que já faltam profissionais experientes no mercado. Os analistas, no entanto, evitam falar em “apagão” de mão de obra. “Não se trata de uma escassez generalizada”, diz Fagundes, do IE. “O que ocorre é que, nas últimas décadas, perdemos gerações de engenheiros, que não encontravam trabalho e migravam para outras áreas.”

Se comparado a outras nações, o Brasil de fato têm poucos engenheiros e também forma poucos profissionais a cada ano (confira tabela abaixo). Mas há outros dados a serem considerados nessa equação. O primeiro é que, nos últimos nove anos, o número de vagas de engenharia nas universidades cresceu 3,5 vezes. Outro dado que deve ser levado em conta é o índice de evasão dos cursos de engenharia, que supera os 50%, de acordo com a Confederação Nacional das Indústrias (CNI). “Formamos poucos engenheiros, mas nossa economia ainda é baseada em commodities, ao contrário de países como a Coreia do Sul, onde a indústria absorve uma parcela significativa dos engenheiros”, diz Meyer.

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