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Tom político marca Globo de Ouro que consagrou ‘Boyhood’

Projeto de doze anos do americano Richard Linklater, de 'Escola do Rock' e da trilogia iniciada por 'Antes do Amanhecer', leva estatuetas de melhor diretor, atriz coadjuvante para Patricia Arquette e melhor filme dramático. 'Birdman' perde prêmio de melhor comédia ou musical para 'O Grande Hotel Budapeste'

Por Maria Carolina Maia e Meire Kusumoto 12 jan 2015, 02h47

A política subiu ao palco em Los Angeles na noite deste domingo. Alfinetadas em rivais americanos e gritos de guerra contra o terrorismo marcaram tanto ou mais o Globo de Ouro deste ano quanto o resultado da premiação, que terminou com a consagração do favorito Boyhood e com uma grande pulverização de prêmios entre os concorrentes. O projeto de doze anos do americano Richard Linklater, de longas como Escola do Rock (2003) e da trilogia iniciada por Antes do Amanhecer (1995), foi o único a sair da festa com três estatuetas: a de melhor diretor para Linklater, a de melhor atriz coadjuvante para a fantástica Patricia Arquette e a de melhor filme dramático, a principal de toda a noite.

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Birdman, cotado para levar o troféu de melhor comédia ou musical, ganhou dois, o de melhor ator para Michael Keaton e o de melhor roteiro para a equipe liderada pelo diretor Alejandro González Iñárritu, mas perdeu o mais relevante para O Grande Hotel Budapeste, de Wes Anderson. O restante das estatuetas foi distribuído aos pares ou isoladamente entre os finalistas — como House of Cards, da Netflix, que, novamente injustiçada, só levou a de melhor ator, para o merecedor Kevin Spacey. Sem a concorrência de Breaking Bad, que ganhou tudo ou quase tudo no último Emmy, Transparent, a série da Amazon sobre um transexual, surpreendeu ao levar dois prêmios: o de melhor série cômica ou musical (embora seja um drama com situações cômicas) e o de melhor ator de série cômica ou musical, para Jeffrey Tambor. A atração é uma das apostas da Amazon na guerra contra a Netflix, gigante do streaming que vem mudando a maneira de se consumir cinema e televisão e deixando eriçados executivos de emissoras e estúdios. Confira outros destaques da festa na lista abaixo.

Na categoria política, o Globo de Ouro teve muitos vencedores. A atriz britânica Helen Mirren desfilou com um broche com uma caneta tinteiro e, no tapete vermelho, exibiu um cartaz com a frase “Je suis Charlie” (“Eu sou Charlie”), que vem sendo usada em apoio à revista Charlie Hebdo, e à liberdade de expressão, desde o ataque de radicais muçulmanos à publicação que acabou em doze mortes, na semana passada, em Paris. A atriz Kathy Bates optou por colocar a frase em seu celular, enquanto a alemã Diane Kruger segurou um cartaz com os dizeres. O slogan ainda apareceu em broches usados pelo casal George Clooney e Amal Alamuddin.

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Conhecido por seu envolvimento em questões políticas, Clooney aproveitou o espaço que recebeu como homenageado do prêmio honorário Cecil B. DeMille, que todos os anos destaca um artista pela sua carreira, para cunhar o grito de guerra da festa. “Não iremos caminhar com medo”, disse, em uma frase que cabe tanto como resposta ao ataque à revista francesa como àquele que, acredita a Casa Branca, foi promovido pela Coreia do Norte contra a Sony. Segundo o governo americano, o ditador comunista Kim Jong-un teria orquestrado uma invasão ao sistema de dados da Sony por causa do filme A Entrevista, uma comédia que narra um plano da CIA para assassiná-lo.

Bem-humorado e apaixonado, o ator aproveitou o espaço também para se declarar à mulher, a advogada de origem libanesa Amal Alamuddin — “É muito bom quando se encontra alguém para amar. É um orgulho para mim estar aqui e ser o seu marido”–, e para fazer piada com o vazamento de e-mails e informações confidenciais da Sony causado pelo ataque de hackers aos sistemas do estúdio. Nos e-mails, executivos e produtores falavam mal de artistas, como Angelina Jolie, chamada de “mimada” por Scott Rudin, produtor de filmes como Onde os Fracos Não Têm Vez (2007). “É ótimo nos vermos cara a cara, depois de sermos hackeados, e pedir desculpas pelo que dissemos uns sobre os outros.”

Outro grito de guerra foi dito pelo presidente da Associação de dos Correspondentes Estrangeiros de Hollywood (HFPA na sigla em inglês), que realiza o Globo de Ouro. Em uma menção ao ataque da Coreia do Norte à Sony e às vítimas dos atentados de Paris, o holandês Theo Kingma disse, firme: “Não nos renderemos”. Foi aplaudido de pé pela plateia estrelada.

É importante lembrar que o posicionamento da TV e do cinema diante do terror de muçulmanos radicais e de norte-coreanos acontece após as críticas que o presidente americano, Barack Obama, fez à Sony por recuar no lançamento de A Entrevista depois de ameaças de atentados terroristas. O estúdio chegou a anunciar que o filme de Seth Rogen e James Franco não entraria em cartaz, e só mudou de ideia na véspera, quando redes de cinema independentes aceitaram exibir o longa. Um longa, aliás, inofensivo: raso, bobo, que só poderia mesmo desagradar a um ditador infantil e sem senso de humor como Kim Jong-un. E foi contra esse ponto fraco do comunista que as comediantes Tina Fey e Amy Poehler, que deixam o posto de apresentadoras do Globo de Ouro em 2016 após três anos, se voltaram com perspicácia. A primeira piada da dupla foi uma estocada que deve ter feito Kim Jong-un chorar. “Estamos aqui para apresentar os filmes que a Coreia do Norte permitir lançar.”

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