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Relembre a história de ‘Pra Frente Brasil’, desenterrada por Regina Duarte

A marchinha foi lançada em 1970 para embalar a conquista do tricampeonato mundial de futebol - mas, na prática, virou peça de propaganda da ditadura militar

Por Felipe Branco Cruz Atualizado em 8 Maio 2020, 15h39 - Publicado em 8 Maio 2020, 14h12

No dia em que o país registrou mais de 600 mortos em decorrência do Covid-19, a secretária de Cultura, Regina Duarte, em vez de lamentar a perda das vidas dos brasileiros, brindou o público com um espetáculo grotesco ao dançar e cantar Pra Frente Brasil durante uma entrevista para o canal CNN Brasil. Em um dos momentos mais bizarros da “performance”, ela gesticula e diz para o perplexo entrevistador: “Não era bom quando a gente cantava isso?”.

Mas qual é, afinal, a história dessa marchinha desenterrada pela secretária? Pra Frente Brasil foi lançada no auge da ditadura militar para embalar o tricampeonato da seleção na Copa do Mundo de 1970 no México – e passou à história como uma peça de propaganda para louvar o “Brasil do milagre” alardeado pelo regime de exceção.

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Composta por Raul de Souza e Miguel Gustavo, a música foi a vencedora de um concurso organizado pelos patrocinadores dos jogos e, até hoje, é lembrada quando se fala da vitoriosa campanha brasileira. Na época, o país vivia sob o AI-5, instituído dois anos antes pelo presidente e general Artur da Costa e Silva. Em 1970, já então no posto de presidente, Emilio Garrastazu Médici percebeu que a vitória da seleção – e também os versos ufanistas da canção – poderiam ser usados para conquistar os corações e mentes dos brasileiros, que já viviam em um país sob censura e que torturava e matava presos políticos.

A letra foi escrita por Miguel Gustavo, que também era jornalista, e ganhou notoriedade compondo sambas e marchas. Entre os jingles que escreveu, estava o das Casas da Banha e o do Leite Glória. Outra música famosa foi a Dança da Boneca, gravada por Chacrinha para o Carnaval de 1967. Miguel morreu dois anos depois de escrever Pra Frente Brasil, aos 49 anos. A melodia chiclete foi composta pelo trombonista Raul de Souza, que gravou os instrumentos com a Orquestra da Rádio Globo. Raul, também toca saxofone, já trabalhou com Sérgio Mendes, Milton Nascimento, Sonny Rollins, entre outros.

Antes dos jogos, o presidente gostava de surgir na TV como um torcedor comum e até tentou escalar a seleção, sugerindo colocar o centroavante Dario como titular, o que era rejeitado pelo técnico João Saldanha. “Eu não escalo ministros, por que ele vai escalar jogadores?”, teria dito o treinador. Ligado ao PCB (Partido Comunista Brasileiro), Saldanha foi substituído por Zagalo. Dario acabou convocado, mas não jogou.

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Desde então, a alegre canção, com seus pueris versos “de repente é aquela corrente pra frente parece que todo o Brasil deu a mão, todos unidos na mesma emoção”, foi caindo no esquecimento – até ser resgatada do limbo do autoritarismo por Regina Duarte.

Na entrevista, a secretária relativizou a perseguição de opositores na ditadura e deu risada quando o repórter ponderou que ela estava enaltecendo um período difícil da história, quando muitos brasileiros morreram torturados. A entrevista também causou diversas reações de repúdio da classe artística.

“Cara, desculpe, vou falar uma coisa assim. Na humanidade, não para de morrer. Se você falar vida, do lado tem morte”, disse Regina. “Meu Deus do céu, Stalin, quantas mortes? Hitler, quantas mortes? Não quero arrastar um cemitério de mortes nas minhas costas. Não desejo isso para ninguém. Estou viva, estamos vivos. Vamos ficar vivos. Pare de olhar para trás. Não vive quem fica arrastando cordéis de caixões. Acho que tem uma morbidez nesse momento, o Covid-19 está trazendo uma morbidez insuportável para a cabeça das pessoas, não está legal”, completou. Se depender da “ministra”, todos juntos vamos pra trás, Brasil.

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Que vergonha!!! Que horror!!! Que triste…

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