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O fator que tirou o fôlego de novelas no streaming

Formato tem perdido espaço fora da TV aberto

Por Nara Boechat Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 7 fev 2026, 12h00 •
  • Há cerca de quatro anos, as novelas produzidas para o streaming no Brasil passaram a ser tratadas como a grande reinvenção do gênero e uma alternativa à televisão aberta. Com elencos populares, textos bem acabados e alto investimento, títulos como Todas as Flores (2022), do Globoplay, Pedaço de Mim (2024), da Netflix, e Beleza Fatal (2025), da HBO, sinalizavam que o formato havia encontrado um espaço fora do modelo tradicional. Passado um ano, porém, o ritmo desacelerou, sem novos anúncios pelas plataformas e com intervalos longos entre projetos.

    Para Mauro Alencar, consultor e doutor em Teledramaturgia da USP, a perda de fôlego não se resume a uma questão criativa, mas, de certa forma, estrutural. “Em que pese questões jurídicas envolvendo a produção de novelas no streaming, refiro-me o projeto que regulamenta e tributa esses serviços, não observo uma organização empresarial em torno da produção de novelas para o streaming no Brasil. Vemos uma aqui, outra ali, mas sem uma cadeia sistêmica que movimente o mercado artístico nacional”, observa Alencar,  em conversa com a coluna GENTE.

    Esse descompasso, segundo o especialista, ajuda a explicar o longo intervalo entre projetos como Beleza Fatal e a releitura de Dona Beja, que, embora tenha estreado recentemente, já foi finalizada pela HBO há algum tempo. “Compreendo que produzir novela é para poucos, pois exige grande estrutura empresarial — o que tem sido a base da Globo desde o início da década de 1970. Assim sendo, se a produtora independente não consegue estabelecer um diálogo produtivo com o streaming e/ou televisão aberta, não há como organizar um núcleo produtivo e serializado”, pontua.

    Enquanto o Brasil ainda patina nesse modelo, outros países encontraram no streaming um meio de explorar sua dramaturgia globalmente. As novelas turcas são o exemplo mais evidente. “Elas se tornaram um desejo de consumo mundial antes mesmo do streaming, quando já estavam consolidadas na televisão aberta”, explica Mauro, acrescentando que tais produções encontraram uma fórmula que equilibra o melodrama clássico e temas contemporâneos, como a opressão feminina e as questões de gênero. “São tramas fortes, objetivas, com personagens que não perdem o foco em seus objetivos e que dialogam diretamente com as aspirações emocionais do público”, diz.

    Do ponto de vista industrial, segundo Alencar, essas produções rapidamente se globalizaram e se alastraram pelo streaming. “Outro dia estava no metrô e vi um grupo acompanhando avidamente uma novela turca”, lembra. Neste contexto, Mauro vê com cautela o anúncio de uma continuação de Beleza Fatal como um possível respiro do gênero.

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    “Vejo mais como uma exceção pelo enorme sucesso da primeira temporada. Sejamos honestos: para criar uma produção sistêmica do formato é preciso uma nova dinâmica entre as empresas de streaming, produtoras independentes e televisão aberta. Sem um alinhamento entre esses três polos e uma colaboração efetiva entre as empresas o que teremos são produções esparsas que acrescentam apenas um saldo positivo momentâneo à indústria cultural brasileira. Certamente, nenhuma empresa do mundo da comunicação se desenvolveu dessa maneira”, conclui.

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