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Mostra mergulha na relação entre a arte e a saúde mental de Van Gogh

Exposição em Paris lança luz sobre os últimos meses da vida do artista

Por Amanda Capuano
15 out 2023, 08h00

No dia 20 de maio de 1890, Vincent van Gogh (1853-1890) desembarcou no vilarejo de Auvers-sur-Oise, a 30 quilômetros ao norte de Paris, depois de um ano internado em um hospital psiquiátrico. Com um histórico de delírios, ele se mudou para o local para ficar mais perto do irmão, Theo, e se tratar com o doutor Paul Gachet, médico especializado no que à época era chamado de “melancolia”. Dois meses depois, em julho, o pintor deu fim à própria vida com um tiro no tronco, aos 37 anos. A breve estadia na cidadezinha francesa ficou marcada pela sina trágica, mas também pelo célebre surto criativo de Van Gogh: nos últimos setenta dias de vida, ele produziu 74 quadros e 33 desenhos, incluindo algumas das obras mais famosas, como O Retrato de Dr. Gachet.

Em cartaz desde a semana passada no Museu d’Orsay, em Paris, a exposição Van Gogh em Auvers-sur-Oise: Os Meses Finais é a primeira inteiramente dedicada a esse período conturbado e artisticamente efervescente da vida do holandês. Composta por quarenta pinturas e vinte desenhos vindos majoritariamente dos acervos do D’Orsay e do Museu Van Gogh, em Amsterdã, a exibição se debruça sobre aqueles dias febris, mostrando como sua derradeira fase estética foi moldada pelas paisagens pitorescas de Auvers-­sur-­Oise — e também pelo sofrimento psíquico. Dos quadros pintados no período, cerca de vinte retratam campos da região, mas as plantações raramente são povoadas por camponeses e outras pessoas — sinal, para estudiosos, do desejo de Van Gogh de expressar a solidão que sentia.

A mente do mestre sempre despertou interesse no meio acadêmico e artístico. Em 2020, um estudo publicado por pesquisadores da Universidade de Medicina de Groningen, na Holanda, atestou que o pintor, embora não diagnosticado em vida, provavelmente sofria de um quadro de bipolaridade e depressão, agravado pela abstinência de álcool. Para chegar a essa conclusão, os cientistas analisaram mais de 900 cartas escritas por Van Gogh durante a vida, a maioria delas para o irmão. Os escritos que narram o dia a dia e os sentimentos do pintor também alimentaram uma inteligência artificial que interage com o público ao final da exposição. Questionado sobre o porquê de ter cortado a orelha esquerda, o Van Gogh artificial alega que isso é um equívoco e que apenas decepou parte do lóbulo do órgão. Ele também diz que a motivação para seu suicídio permanece um mistério.

Além da inteligência artificial mórbida, a mostra oferece ao público uma experiência de realidade virtual criada a partir da última paleta de cores usada por Van Gogh. No mundo real, obras como a famosa Igreja de Auvers-sur-Oise e a tela Les Racines, finalizada por ele 36 horas antes da morte, são algumas das peças expostas. Também se pode ver O Retrato de Dr. Gachet, que foi doado ao médico após a morte de Van Gogh. A obra tem outra versão notória, que foi vendida a um industrial japonês em 1990 por 82,5 milhões de dólares. O comprador ameaçava cremar o quadro junto com seu corpo quando morresse, mas isso felizmente não aconteceu. Já o Gachet do D’Orsay foi doado ao Louvre pela família, e acabou no museu vizinho. No retrato, o médico é representado com feição cabisbaixa, descrita por Van Gogh como “a expressão desolada” de seu tempo. Nas suas pinceladas finais, o gênio captou a vida sem filtros.

Publicado em VEJA de 13 de outubro de 2023, edição nº 2863

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