Clique e Assine a partir de R$ 19,90/mês

Malcolm Gladwell: um filósofo pop contra as paranoias do mundo atual

O autor inglês conta a VEJA por que fez um livro sobre a falta de confiança entre as pessoas - e como isso tem implicações das fake news às ações policiais

Por Raquel Carneiro Atualizado em 10 mar 2020, 17h30 - Publicado em 9 mar 2020, 16h22

O jornalista inglês Malcolm Gladwell, 56 anos, é figura onipresente em listas de best-seller, posto alcançado com livros como Fora de Série (2008) e Davi e Golias (2013). Os títulos andam com um pé na autoajuda e outro na filosofia social, em que ele se debruça sobre louváveis histórias de sucesso. Não à toa ele surpreendeu com seu novo trabalho, Falando com Estranhos (Sextante). Na obra, Gladwell deixa de lado conclusões típicas da literatura motivacional para refletir sobre as interações humanas entre os diferentes. Ele explica, a partir de pesquisas sociológicas variadas, que a base do convívio humano é construída a partir da confiança mútua: é inerente às pessoas acreditar antes de desconfiar. Tal pressuposto, aos poucos, tem se esfacelado, em um mundo em crise, de traições pessoais e de corrupção enraizada.

Capa do livro ‘Falando com Estranhos’, de Malcolm Gladwell //Divulgação

Um dos casos analisados no livro é o de Sandra Bland. Uma mulher negra de 28 anos que, em 2015, foi detida por um policial exaltado em uma simples batida de trânsito: ela foi parada por não ter dado seta ao trocar de faixas. Presa por desacato após uma discussão, Sandra se matou na prisão três dias depois, um dos estopins para o movimento “Vidas Negras Importam” (Black Lives Matter), nos Estados Unidos. A partir dessa interação entre dois indivíduos de mundos distantes, Gladwell decidiu investigar o que havia para além do fator racismo nesse desastroso encontro. Outros exemplos são citados, da chegada dos espanhóis à América, até negociações na Europa com Hitler, fechando com tramas do cotidiano.

Em entrevista a VEJA, Gladwell fala sobre o assunto. Confira:

 

Em resposta a um mundo confuso, seu novo livro analisa o modo como humanos lidam com os estranhos. Ao contrário de seus trabalhos anteriores, este não oferece uma resposta, mas sim uma reflexão com muitos exemplos. Por que optou por esse caminho? Este assunto não oferece respostas, é algo muito complexo. O que eu espero é que as pessoas entendam que o contato com os que são diferentes de nós deve ser feito com humildade e precaução. Temos que estar dispostos a aprender com os outros, assim como diminuir nossas expectativas em pessoas que achamos estar acima das suspeitas, como políticos, por exemplo.

Qual foi sua inspiração para escrevê-lo? Tudo começou com o caso de Sandra Bland. Quanto mais eu lia a respeito, mais percebia que o problema ali ia além do racismo, como muitos apontam. Tinha a ver também com o modo como tratamos, na sociedade moderna, o próximo que não conhecemos, com a falta de empatia e dificuldades de criar um diálogo saudável.

Continua após a publicidade

O senhor analisa o caso tirando o racismo do cenário. Mas também aponta que os negros são os mais parados em blitz de trânsitos nos Estados Unidos. Não acha contraditório? O que eu quis dizer não é que o racismo não existe, mas quis levar o caso para além dos elementos raciais. Não sei se Sandra teria sido parada pelo policial se fosse uma mulher branca. Mas se toda discussão do tipo for simplesmente encerrada com o veredicto “isso foi racismo”, perdemos outras camadas importantes. O problema é mais complexo. Ali está envolvido o jeito como os policiais americanos são treinados, todos em constante tensão, pensando que qualquer um pode ter uma arma no carro e pode ser um perigo em potencial. O que leva a prisões desnecessárias, sem ser efetivo na hora de deter quem realmente é perigoso. Tem também o excesso de autoridade de alguém que não se dispôs a conversar e acalmar a motorista. São muitos elementos que vão além do racismo e que podem ser resolvidos em sua base.

A tendência geral das pessoas é acreditar que o outro diz a verdade. Isso é importante para vivermos em sociedade, é o que nos faz humanos. Mas também é algo que nos deixa vulneráveis

Malcolm Gladwell

Boa parte do livro é ancorada na teoria do “pressuposto da verdade”, do pesquisador e comunicador Tim Levine. O que o atraiu nessa ideia? A teoria diz que a tendência geral das pessoas é acreditar que o outro diz a verdade. Isso é importante para vivermos em sociedade, é o que nos faz humanos. Mas também é algo que nos deixa vulneráveis. Sempre começamos uma relação baseados nesse instinto natural da confiança. Se não fosse assim, não conseguiríamos dar início à civilização, à família, ou nos comunicarmos. Por exemplo, eu atendi a seu telefonema e simplesmente acredito que você é você, uma jornalista do Brasil que leu meu livro. Por outro lado, você acredita que eu sou eu. Se não fosse assim, se não tivéssemos a verdade como pressuposto, não falaríamos com as pessoas, não nos relacionaríamos. No geral, a taxa de pessoas enganando as outras é muito baixa, então apostamos na confiança.

Essa confiança natural no outro seria uma razão para a recente popularidade das fake news? Como seres humanos, somos inclinados a acreditar no que lemos e ouvimos. O que nos deixa abertos ao engano. Mas a teoria também funciona no sentido de que se olharmos para todo o volume de notícias que circulam neste momento, apenas uma pequena fração delas é falsa. A maioria é verdadeira, podemos confiar nisso. Quando estudamos História nas escolas, o que ouvimos é verdade, muito pouco foi manipulado ou editado. E isso vale para tantas áreas. Quando entro em um relacionamento, quando estou com a família, confio mais do que desconfio. Quando entramos em um avião temos mais convicção de que vamos pousar são e salvos do que o contrário, e é o que acontece. Vivemos em um mundo amparado pela verdade e pela confiança como regra, se não fosse assim, estaríamos no caos.

As pessoas que acreditam em fake news não estão interessadas na verdade: elas querem ouvir e ler algo que confirme sua crença e ideologia, e que as faça se sentirem protegidas e entendidas

Malcolm Gladwell

As fake news podem ter um volume pequeno, mas tiveram um impacto enorme em eleições pelo mundo nos últimos anos. As fake news predominam em áreas bastante específicas. Em regiões ou comunidades onde pessoas são muito apegadas a alguma ideia, onde posições ideológicas são muito fortes, ou entre os que sentem que suas identidades e valores estão sob ameaça. São áreas instáveis e, ali, a notícia falsa e de forte teor ameaçador predomina e se espalha facilmente como verdade. As pessoas que acreditam em fake news não estão interessadas na verdade: elas querem ouvir e ler algo que confirme sua crença e ideologia, e que as faça se sentirem protegidas e entendidas. É um discurso de fato tentador.

Sua mãe é uma imigrante jamaicana nos Estados Unidos. Seu livro cai muito bem em uma análise da atual crise de refugiados na Europa ou da feroz política anti-imigração de Donald Trump. Por que temos tanta dificuldade de lidar com o estrangeiro? Sei que vivemos uma crise, mas gosto de olhar essa crise por outro lado. Ao observar países como Brasil, Estados Unidos, Canadá, onde eu cresci, são lugares com uma sociedade muito diversa. Não são, por exemplo, como Japão ou China, onde existe um grupo étnico dominante. Fico feliz e surpreso com nossa história até agora. Temos feito um bom trabalho em aceitar etnias e culturas diferentes. Historicamente, nos adaptamos. Os Estados Unidos mudaram drasticamente nos últimos 50 anos, de uma população majoritariamente branca para uma que não é mais assim. Vejo que esse crescimento de extremistas contra imigrantes, na verdade, é uma reação a esse contexto de aceitação do passado, que ainda é, no fundo, apoiado pela maioria das pessoas. Mudanças sociais aceleradas causam medo e crises, mas faz parte do processo. Prefiro olhar para o quanto somos adaptáveis e abertos para o diferente do que para os grupos que não são assim.

Seu livro não fecha com uma conclusão definitiva. Teria um desfecho para dizer agora? Eu digo que não há razões para vivermos sob o medo da paranoia ou constantemente preocupados com o próximo, seja um desconhecido na rua, seja um cônjuge. Pessoas produtivas e felizes confiam no próximo, trabalham em equipe, buscam o diálogo. Meu conselho, mais que minha conclusão, é que o leitor continue a confiar e a fazer laços, apesar dos tempos instáveis. E também que ele aceite o fato de que, vez ou outra, será traído, passado para trás, ou enganado. Faz parte do que nos faz seres humanos, faz parte de uma sociedade.

Continua após a publicidade
Publicidade