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Como os artistas da Semana de 22 foram de demolidores a cancelados

De Tarsila a Mário de Andrade, os mesmos modernistas que atacavam com fúria o passado agora são alvos da iconoclastia das redes sociais

Por Diego Braga Norte
Atualizado em 10 fev 2022, 15h51 - Publicado em 10 fev 2022, 15h33

O modernismo celebrado e propagado pela Semana de Arte Moderna de 1922 tinha uma forte característica iconoclasta. Os artistas e intelectuais futuristas (só posteriormente eles seriam rotulados de modernistas) queriam se livrar do “passadismo”. E dentro nessa definição imprecisa e elástica cabiam muitos alvos: parnasianismo, academicismo, simbolismo e praticamente quaisquer outros “ismos” vindos do passado. Em busca da renovação nas artes, os modernistas torciam o nariz para o perfeccionismo anatômico das estátuas clássicas gregas, mas louvavam as linhas “duras” e geométricas das obras de Victor Brecheret. Eles se enfastiavam com a simetria e organização dos quadros renascentistas, mas batiam palmas para liberdade de escalas e proporções do cubismo.

É um exercício fascinante imaginar como essa iconoclastia se apresentaria nos dias de hoje, 100 anos após a Semana de 22 – efeméride que se comemorará nesta sexta-feira, 11 de fevereiro. Mais que isso, é inevitável constatar: nem mesmo aqueles vanguardistas empenhados em demolir as convenções escapam da fúria da cultura do cancelamento – a temível forma contemporânea de ação iconoclástica que viceja nas redes sociais.

Uma história protagonizada por um dos líderes da Semana de 22, o escritor Mário de Andrade, ilustra bem essa ironia histórica. Em 1920, Andrade estava ansioso para chegar em casa, no Largo do Paissandu, no centro de São Paulo, e mostrar para sua família uma imagem de Cristo que ele havia adquirido. Andando a pé para economizar com bonde e valendo-se de empréstimos, ele comprara uma cópia em bronze da obra Cabeça de Cristo, do então jovem escultor Victor Brecheret. “Sensualissimamente feliz”, ele desembrulhou o pacote na sala, na frente de seus pais e de uma tia mais velha, a matriarca da família. A imagem da face de Jesus em formato piramidal, com traços fortes, angulosos e de lábios volumosos causou espanto aos católicos Andrade. Seus pais e sua tia, devotos fervorosos, ficaram particularmente escandalizados com as trancinhas no cabelo de Cristo, classificando a imagem como “medonha” e “herética”.

Andrade ficou muito aborrecido e posteriormente, numa carta, contou o que se passou naquela noite: “Fiquei alucinado, palavra de honra. Minha vontade era bater. Jantei por dentro, num estado inimaginável de estraçalho. Depois subi para o meu quarto, era noitinha, na intenção de me arranjar, sair, espairecer um bocado, botar uma bomba no centro do mundo. Me lembro que cheguei à sacada, olhando sem ver o meu largo. Ruídos, luzes, falas abertas subindo dos choferes de aluguel. Eu estava aparentemente calmo, como que indestinado. Não sei o que me deu. Fui até a escrivaninha, abri um caderno, escrevi o título em que jamais pensara, Pauliceia Desvairada.” Pouco mais de uma semana depois, estava praticamente pronto seu primeiro livro de poesias modernistas, sem métricas fixas, sem rimas e com seus 22 poemas tratando de temas exclusivamente urbanos. O livro seria publicado em 1922, alguns meses depois da Semana de Arte Moderna, que, entre outras obras, exibiu esculturas do Brecheret no saguão do Teatro Municipal de São Paulo.

Curioso notar o percurso histórico de inúmeras obras modernistas nesses 100 anos que se passaram desde a Semana de 22. Elas foram incompreendidas e criticadas no lançamento. Mais tarde, assimiladas, aplaudidas e comercializadas por valores expressivos. Agora, finalmente, caem na vala comum das produções culturais canceladas. Como Mário de Andrade e seus colegas reagiriam às críticas ao Monumento às Bandeiras, de Brecheret, por ele retratar homens brancos subjugando escravos negros? O que diriam sobre o cancelamento do quadro A Negra, de Tarsila do Amaral?

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Nem o próprio Andrade, estrela maior da constelação modernista, está a salvo. Sua obra-prima Macunaíma é acusada de fazer “apropriação cultural” e deturpar lendas e saberes dos povos nativos. O escritor e músico indígena Cristino Wapichana escreveu recentemente na revista Quatro Cinco Um: “A forma como [Mário de Andrade] descreveu Macunaíma reforçou o sentimento anti indígena dos brasileiros, que ainda persiste 93 anos depois da publicação do célebre livro. A mistura dos diversos personagens indígenas, como muiraquitã, ceuci e Tainakã, fortalece a ignorância e a falta de humanidade dos não indígenas.”

Há algo de moderno ou modernista no atual cancelamento? Para os especialistas, esse movimento tem aspectos positivos, mas traz também riscos. De um lado há a necessidade de reparação histórica e de construção de uma sociedade mais igualitária. Do outro, há os perigos do apagamento da história e do revisionismo. “Não adianta derrubar, apagar a memória nacional. Somos o resultado da somatória de coisas boas e negativas. O Monumento às Bandeiras  é um dos únicos grandes monumentos do país. Vale a pena destruí-lo para sempre ou encará-lo e estudá-lo de forma crítica?”, questiona a historiadora, curadora e crítica de arte Aracy Amaral.

“É justo que grupos reivindiquem atualizações na história e novas interpretações. Grupos identitários não pertencem a uma classe, a um país, mas a uma linhagem cultural. Faz sentido, mas a expressão pública disso é problemática, pois não há superioridade moral. Esse debate é legítimo e necessário, mas não tem cabimento apagar. Se for assim, a gente apaga tudo, toda a herança colonial brasileira. Não quero relativizar nem diminuir a dor dos que foram oprimidos, mulheres, LGBTQIA+, indígenas, negros. Na minha república ideal, o espaço público e a história têm de ser debatidos, não cancelados”, avalia Luís Augusto Fischer, ensaísta e professor de literatura brasileira da UFRGS.

O tempo passa – e a iconoclastia assume novas e inesperadas formas. Diante disso, a pergunta que não quer calar: se a Semana de 22 ocorresse agora, os jovens equivalentes de Mário de Andrade e dos demais modernistas estariam do lado dos canceladores ou cancelados? Resumindo as diferentes percepções dos especialistas ouvidos por VEJA, conclui-se que a contestação do passado é uma atitude bem modernista, mas o aniquilamento, não. Salvo por críticas feitas em manifestos e ensaios, os modernistas jamais chegaram a destruir obras consideradas passadistas. “Uma coisa é o embate teórico e estético e outra, bem diferente, é a destruição física”, explica Regina Teixeira, historiadora da arte e curadora. “É sempre importante rever e discutir, mas nunca é bom apagar o passado. Proponho aos artistas e questionadores fazerem uma obra anti-Borba Gato. Apagar a história é prejudicial para todos, até para quem critica as estátuas”, diz, referindo-se à estátua do bandeirante incendiada em São Paulo.

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