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As imagens preciosas de Elis Regina que se perderam para sempre

No palco, a cantora era imbatível. Paradoxalmente, no entanto, as gravações ao vivo do maior show da artista foram pouco registradas

Por Felipe Branco Cruz 19 jan 2022, 17h33

Mesmo após quarenta anos de sua morte, completados nesta quarta-feira, 19, Elis Regina se mantém como uma das maiores cantoras do Brasil, dona de uma potência vocal inimitável e interpretações musicais memoráveis. Não por acaso, foi no calor dos palcos, em vez da frieza ascética dos estúdios, que Elis deixou sua marca. Soa paradoxal, portanto, que pouquíssimos registros ao vivo da artista tenham sido feitos. O principal espetáculo da sua carreira, Falso Brilhante, que ficou em cartaz no teatro Bandeirantes, em São Paulo, entre 1975 e 1977, com 257 apresentações para um público total de quase de 280 000 pessoas, jamais teve um registro em vídeo completo ou uma gravação do som profissional.

Somente agora, mais de cinco décadas depois, se descobriu quase por acaso que existe uma gravação completa do espetáculo, feita pelo irmão da cantora, o técnico de som Rogério Costa. O áudio do show estava guardado no acervo da rádio Eldorado, de São Paulo, que transmitiu em 1983 a apresentação em sua programação e recebeu a fita do próprio Rogério, que morreu em 1996. Agora, o filho mais velho da cantora, o produtor musical João Marcello Bôscoli, pretende entrar em contato com a rádio para pedir uma cópia da gravação e fazer um trabalho de restauração.

Ainda que os áudios recém-descobertos sejam antológicos, permanece a triste constatação: quase não sobreviveram imagens de Elis em seu show mais precioso. A razão dessa lamentável falta de registros ao vivo é explicada pelo próprio João Marcello. Segundo ele, nos anos 1970, caso um artista quisesse registrar uma apresentação ao vivo, seria necessário, literalmente, um caminhão de equipamentos. Não é de estranhar, portanto, que Elis Regina só tenha gravado ao vivo – e em áudio – três apresentações: sua performance no Montreux Jazz Festival, o espetáculo com Carlos Miele e o show Transversal do Tempo. “Não havia o hábito de documentar tudo. Existiam recursos técnicos para gravar, mas era uma empreitada complexa”, justifica João Marcello. “Hoje basta plugar um laptop numa mesa de som”. Imagine-se, então, a dificuldade muito mais complexa de se gravar imagens com uma câmera.

Existem, apesar de tudo, registros em vídeo do espetáculo Falso Brilhante – mas não de sua íntegra. “Para quem ficou quase dois anos em cartaz, poderiam ter sido feitas tomadas maravilhosas daquele espetáculo. A explicação é que o show tinha uma iluminação muito específica e as câmeras da época não captavam aquela luz. Se fosse colocada uma luz mais forte, atrapalharia o show e não geraria boas imagens”, explica João Marcello.

E que show! Elis Regina fazia oito trocas de figurinos – todos deslumbrantes – e usava até um balanço, decorado com flores, em que se sentava para cantar a valsa Quero, de Thomas Roth. Dirigido por Miriam Muniz e com arranjos de Cesar Camargo Mariano, o espetáculo pretendia contar a história de vida de Elis, intercalada com críticas à ditadura militar. Dividido em dois atos, ele era colorido e iluminado num primeiro momento, para em seguida ficar branco e preto.

O repertório reunia o que de melhor já havia sido composto na MPB e também na música latina. Dentre as 42 canções do show, Elis cantava, por exemplo, Los Hermanos, do argentino Atahualpa Ypanqui, mas também canções de João Bosco e Aldir Blanc, como Agnus Sei, Um Por Todos, O Cavaleiro e os Moinhos e Jardins de Infância. O clímax se dava na hora dos clássicos de Belchior, como Como Nossos Pais e Velha Roupa Colorida, e, claro, de Fascinação, de Fermo Dante Marchett e Maurice de Féraudy, na versão de Armando Louzada.

Evidente que Elis Regina sabia que aquele espetáculo merecia ser registrado. A solução encontrada foi gravar as canções em estúdio, tocando todas elas ao vivo com a mesma banda do show. Entre uma apresentação e outra, Elis juntou os músicos, que já estavam ensaiados, e em apenas dois dias gravou parte do repertório em um estúdio de São Paulo. Embora a produção não tenha sido tão grande em termos técnicos e de arranjos, o álbum que resultou dela teve o mesmo título do espetáculo e se tornou um dos maiores sucessos da carreira da cantora. O resto, como se sabe, é história.

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