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Quiet quitting, a nova e ruidosa tendência do mundo corporativo

O funcionário cumpre apenas o que foi estabelecido pelo contrato de trabalho — nem mais, nem menos

Por Luiz Felipe Castro Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
Atualizado em 9 set 2022, 10h13 - Publicado em 9 set 2022, 06h00

“O trabalho dignifica o homem.” A máxima do sociólogo alemão Max Weber (1864-1920) perdura há mais de um século como a mais nobre definição sobre o termo que, a rigor, deriva do latim tripalium, que designava um instrumento de tortura. O conceito parece estar cada vez mais embaralhado em tempos pós-pandêmicos. A Covid-19 alterou para sempre a dinâmica corporativa, normalizou o home office e escancarou a necessidade de priorizar o bem-estar. Especialmente no começo do surto, funcionários esticaram a jornada por temer a demissão. De casa, não havia desculpa para encerrar o expediente mais cedo ou ignorar um e-mail. A conta chegou com efeitos devastadores à saúde física e mental dos sobreviventes. Nesse contexto, surgiu uma alternativa inusitada: o quiet quitting, algo como “desistência silenciosa”, em tradução livre.

Não se trata exatamente de uma tendência consolidada, mas de uma ideia que ganhou tração nas redes sociais, especialmente no TikTok, depois que Zaid Khan, um engenheiro de 24 anos, passou a detalhar seu propósito. “Você segue desempenhando suas funções, mas sem seguir a mentalidade de que o trabalho deva ser sua vida”, discursa Khan. Em suma, o funcionário cumpre o combinado em contrato, nem mais, nem menos. É um contraponto ao culto ao workaholismo e seus chavões batidos como “trabalhe enquanto eles dormem”.

arte trabalho

Por trás disso tudo está um termo em inglês mundialmente conhecido: o burnout, que desde 1º de janeiro é classificado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma doença ocupacional. A pane pode acometer qualquer funcionário e deve ser tratada com urgência. Raquel Dilguerian Conceição, head de saúde populacional e corporativa do Hospital Albert Einstein, diz que os sinais de exaustão devem ser comunicados. “É normal se sentir cansado de vez em quando, mas a apatia não pode ser a regra”, diz. “É preciso haver diálogo aberto: não basta culpar apenas o chefe, que muitas vezes também pode estar sobrecarregado.”

O quiet quitting surge na esteira de outro fenômeno recente, a “grande renúncia”, uma onda que levou 47 milhões de americanos a abandonar seus empregos em 2021, acompanhado em menor escala em outros países. Cresceu também um movimento um tanto quanto anarquista e utópico, o antiwork (antitrabalho), cujos defensores acreditam que a maioria dos empregos atuais não se faz necessária e que a sociedade deveria se organizar para realizar apenas o essencial, em vez de criar excesso de capital. Cabe ressaltar que a realidade dos Estados Unidos e de outros países desenvolvidos não condiz com a do Brasil, onde há 9,9 milhões de desocupados, segundo o IBGE. Em outras palavras, brasileiros podem até adotar o quiet quitting, mas tendem a ter mais dificuldade para encontrar um novo emprego.

DEVOÇÃO - Funcionários da Apple na sede da empresa: questionamentos sobre as jornadas exaustivas -
DEVOÇÃO - Funcionários da Apple na sede da empresa: questionamentos sobre as jornadas exaustivas – (Eric Risberg/AP/Image Plus)

O debate nasce de um evidente conflito geracional. A pandemia afetou a formação e o amadurecimento dos jovens, privados do convívio nas escolas, universidades e em locais de diversão. Especialistas mundo afora advertem que a Covid-19 pode ter forjado uma geração introspectiva, viciada em telas e com problemas de interação social. Ao mesmo tempo, os jovens vivem em uma era de intenso ativismo, alimentado por acontecimentos como o assassinato de George Floyd, a crise climática e a invasão russa da Ucrânia. É natural, portanto, que se levantem para reivindicar seus direitos, seja nas ruas, nas redes ou no ambiente de trabalho.

HORA DO RUSH - Profissionais a caminho dos escritórios em Londres: pedidos de demissão em massa -
HORA DO RUSH – Profissionais a caminho dos escritórios em Londres: pedidos de demissão em massa – (Victoria Jones/PA Images/Getty Images)

A consagração do trabalho remoto ou híbrido impôs novos desafios: é possível treinar um estagiário a distância com a mesma eficiência? Para Priscyla Queiroz, analista de recrutamento e seleção do CIEE, referência na integração de profissionais iniciantes ao mercado de trabalho, trata-se de caminho sem volta: “A tecnologia permite esse tipo de acompanhamento e quem não seguir a tendência ficará para trás”. Priscyla conta ser comum que jovens recusem oportunidades em empresas que exijam o trabalho 100% presencial. “Eles buscam o maior número possível de benefícios, o que inclui horas a mais de sono, estudo ou lazer”, pondera a especialista.

arte trabalho

O conceito, ressalve-se, é recauchutado. Em 1996, o sociólogo suíço Johannes Siegrist documentou a necessidade de equilíbrio entre esforço e recompensa no ambiente do trabalho. A falta de reciprocidade pode desencadear uma série de emoções negativas, enquanto o retorno justo seria o caminho para a total harmonia. “O reconhecimento é uma necessidade vital do ser humano”, diz Ana Maria Rossi, presidente do braço brasileiro da International Stress Management Association (Isma), que se dedica à pesquisa e ao tratamento de burn­out. “O que mudou foi a abertura para o debate.” Ela traz novas nuances à discussão ao pontuar que integrantes das gerações Y e Z (de 12 a 40 anos) não carregam a ideia de que uma pessoa deva trabalhar por longos anos ou mesmo uma vida inteira em uma única empresa e que a tendência de deixar a casa dos pais cada vez mais tarde alterou as prioridades. “Os jovens retardam a formação da própria família e têm menos demandas financeiras. Não é mais preciso dar a vida para atingir o objetivo, que muitas vezes é simplesmente curtir uma viagem bacana nas férias.”

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LIDERANÇA - O engenheiro Zaid Khan, que lançou a tendência: “Seu valor não é definido por seu trabalho” -
LIDERANÇA - O engenheiro Zaid Khan, que lançou a tendência: “Seu valor não é definido por seu trabalho” – (@zaidleppelin/TikTok)

As maiores corporações estão atentas. Há inclusive implicações legais para quem negligenciar a saúde de seus colaboradores. A multinacional Unilever foi pioneira em medidas de flexibilização no Brasil e neste ano adotou o programa hibridUs, que visa a equilibrar as demandas pessoais e profissionais. Os que têm filhos podem organizar seus horários de acordo com a rotina das crianças. Entre as ideias que começam a chegar ao Brasil está a inclusão de um dia a mais de descanso. O empresário neozelandês Andrew Barnes, autor do livro The 4 Day Week (A semana de quatro dias), diz que pequenas recompensas podem gerar grandes resultados. “A valorização vai além do aumento salarial”, diz Barnes. “Todo empregador sábio reconhece que, para que sua equipe tenha um bom desempenho, é preciso recarregar baterias.”

Os especialistas entrevistados por VEJA afirmaram que o termo quiet quitting não é o mais adequado, por não se tratar de desistência do trabalho e por não ser uma reação silenciosa, às escondidas. O mérito de Zaid Khan e de seus seguidores foi, na verdade, trazer a questão para o centro dos debates. O segredo é encontrar o equilíbrio. Jornadas sufocantes fazem mal para qualquer um, mas algum esforço sempre será necessário.

Publicado em VEJA de 14 de setembro de 2022, edição nº 2806

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