Chefs se manifestam sobre tropeços gastronômicos em ‘Mania de Você’
Paula Prandini e Andrea Tinoco opinam sobre polêmica no roteiro da novela das 9 da TV Globo
O episódio do roubo das receitas em Mania de Você, novela das 9 da TV Globo, gerou – mais uma – grande repercussão entre os telespectadores, não só pela cena, mas também por um comentário de Ana Maria Braga, que viu um erro na trama de João Emanuel Carneiro. A apresentadora afirmou que a acusação de plágio feita por Luma (Agatha Moreira) contra Viola (Gabz) não condiz com a realidade, já que receitas são de domínio público, e não patenteadas. Será, então, que o autor cometeu mesmo mais um equívoco nesse enredo? Para esclarecer a questão, a coluna GENTE foi atrás de duas profissionais da gastronomia, que opinam sobre o tema.
Fã do folhetim, a chef de cozinha responsável pelo restaurante Empório Jardim, no Rio, Paula Prandini, endossa a opinião de Ana Maria. “Não existe isso de roubar uma receita. Ninguém cria uma receita do zero, você pega partes de outras e vai adaptando. Roubou um livro de receitas? Sim, mas como isso faria dela uma impostora? Viola seria cozinheira de qualquer forma. Ela foi para fora, estudou em escola francesa e trabalhou em outros restaurantes”, pontua Paula, que também defende, em partes, o autor: “Eu, como noveleira, entendo a trama. É licença poética para fazer a narrativa do roteiro dele, mas o livro de receitas foi muito bobo para uma cena tão forte”.
Embora não veja roubo na receita, Prandini acredita que há limite na reprodução de um prato do outro. “Há diferentes nuances para isso. Você pode se inspirar, pode ir em um lugar, ler um livro, ter acesso a um caderno de receitas de alguém e se inspirar para aquilo ser a base do seu prato. Agora, copiar 100% o formato, não. Sofro isso um pouco, porque o Rio de Janeiro inteiro copia meu pão de queijo gruyére com o mesmo formato. E falo: ‘o povo não podia pelo menos fazer um negócio um pouquinho diferente?’ Acho feio, bem feio. As coisas estão aí para as pessoas se inspirarem”, opina.
Por outro lado, a Chef Andrea Tinoco, do restaurante Pato com Laranja, no Rio, acredita que roubar um livro de receitas é um crime, como o ato de Luma e Mavi (Chay Suede) com o caderno de Viola. “É um furto, pois é um material dela [Viola]. São receitas que ela criou. É a mesma coisa que roubar a ficha técnica de onde você trabalha como chef de cozinha. Aquilo custa dinheiro”, defende.
Para Tinoco, não há problema na cópia de uma receita, contanto que haja uma referência a quem criou. “Existem as receitas clássicas e as autorais. Quando alguém pega uma receita minha e executa, me sinto honrada. Quanto mais copiam algo que já fiz, aquilo me motiva a estar sempre criando e inovando. Mas tem que homenagear de alguma forma. Eu, por exemplo, coloquei um prato no meu restaurante que vi em Nova York, mas o nomeei em homenagem ao chef que me inspirou”, conta.
Juridicamente, o plágio não pode ser levado em conta na gastronomia, pois há meios e dosagens de modificar uma receita, o que inviabiliza a proteção pela Lei de Propriedade Industrial. Tinoco explica a complexidade: “Vamos dizer que eu tenha os mesmos ingredientes. Se a sua receita tem 100ml de azeite e a minha tem 100ml de azeite e 50g de manteiga, ela já não é a mesma receita. É bem difícil você patentear. Às vezes, você se inspira em alguém que admira muito, mas não faz na íntegra, faz sua versão. Não é exatamente igual. O legal mesmo é homenagear”.