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Thomas Traumann

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Thomas Traumann é jornalista e consultor de risco político. Foi ministro de Comunicação Social e autor dos livros 'O Pior Emprego do Mundo' (sobre ministros da Fazenda) e 'Biografia do Abismo' (sobre polarização política, em parceria com Felipe Nunes)
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Sete passos para perder as eleições

Como a terceira via caminhou para o desastre

Por Thomas Traumann Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO Atualizado em 18 jul 2022, 09h08 - Publicado em 17 jul 2022, 15h14

A construção da chamada terceira via, que reuniria em torno de um candidato moderado todas as forças políticas que não se identificam nem com Bolsonaro, nem com Lula, acabou com um suspiro, não com um estrondo. Na sexta-feira (15/07) um dos postulantes a ser o príncipe herdeiro desse eleitorado, o ex-governador gaúcho Eduardo Leite, anunciou que não vai votar na candidata escolhida pela terceira via, a senadora Simone Tebet, porque o MDB não o apoiou no Rio Grande do Sul.

A mesquinharia de Leite não altera o fracasso da candidatura Tebet, que no melhor cenário das pesquisas chega a 3% e não conseguiu unir sequer o seu MDB. A culpa não é de Tebet, que hoje disputa em irrelevância com o youtuber André Janones, do minúsculo partido Avante. É um erro em escala industrial.

Acionistas de algumas das maiores indústrias, bancos e empresas de mídia do Brasil concluíram ao longo da montanha de mortes por Covid-19 em 2020 que precisam impedir um segundo governo Bolsonaro e, ao mesmo tempo, tomar o lugar da esquerda como força de oposição.

Com Lula sem direitos políticos e o PT sem rumo, os próprios antigos sócios dos governos petistas prepararam um futuro alternativo. Rodrigo Maia era presidente da Câmara e sobraram candidatos para assumir o papel do candidato nem-Bolsonaro-nem-Lula.  Nas reuniões da terceira via se reunia alguns dos melhores economistas e especialistas em políticas públicas do país. Uma pesquisa Genial/Quaest de 2020 mostrava que havia um mercado potencial de 25% de brasileiros dispostos a votar na terceira via, especialmente em São Paulo e no Sul.

O que errado? A lista é longa, mas seguem aqui os principais equívocos:

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1.   Excesso de nomes: entre atender a demanda e aumentar a oferta, os envolvidos escolheram a segunda. Luciano Huck, João Amoêdo, Luiz Mandetta, João Doria, Eduardo Leite, Sergio Moro, Rodrigo Pacheco, Alessandro Vieira e Simone Tebet se apresentaram sem que nenhum se consolidasse com dois dígitos. Parte se deve às intrigas internas entre os nomes, mas o principal foi a falta de relevância dos contendores. Havia uma ideia geral de que o excesso de nomes geraria o buzz necessário para que grupos diferentes da sociedade passassem a debater a candidato, como nas primárias dos partidos americanos. Bobagem.

2.   Falta de timming: durante décadas era possível fazer uma campanha presidencial nos últimos meses antes da eleição. Isso não é mais verdade, particularmente quando os dois principais candidatos são conhecidos por 99% dos eleitores. Deixar a escolha do candidato único para 2022 foi suicídio político.

3.   Falta de ideias: Nenhum dos pré-candidatos da terceira via apresentou uma ideia para além das platitudes sobre responsabilidade fiscal. Os pré-candidatos falaram para agradar os empresários, os agentes do mercado e os editorialistas dos jornais e revistas. Em nenhum momento falaram para a sociedade. Para comparar: com uma estrutura raquítica, Ciro Gomes colocou de pé uma proposta alternativa a Bolsonaro e Lula com mais consistência do que a terceira via apresentou até agora.

4.   O fator Lula: Os estrategistas da terceira via desconsideram que as revelações das trocas de mensagens dos procuradores de Curitiba e seu projeto de poder com um fundo de R$ 2,5 bilhões recuperados da Petrobras tornava insuperável seu conflito com o STF, o Congresso e com o próprio bolsonarismo. Duas ou três conversas no STF teriam mostrado que a Corte iria reagir e que a devolução dos direitos políticos de Lula iria acontecer antes da próxima eleição. A leniência da turma da Terceira Via com a antipolítica de Sergio Moro foi patética.

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5.   Desprezo pelos adversários: Primeiro, o núcleo duro da terceira via achou que Lula e o petismo estavam mortos depois de 2018. Depois, durante meses os assessores políticos acreditam que a popularidade de Bolsonaro derreteria e que, para impedir a volta de Lula, seus eleitores se voltaram para outro candidato. Com que base científica essa crença se espalhou? Nenhuma.

6.   Desconexão com as bancadas: É impossível construir uma candidatura de oposição quando as bancadas no Congresso são governistas. De que adiantava Amoêdo criticar Bolsonaro se os deputados do Novo são baba-ovo do bolsonarismo? Ou levar a sério os ataques de Doria ao presidente quando 2 de cada 3 deputados tucanos votam sempre com os bolsonaristas? Ou os senadores do MDB que se revezam como líderes do governo? Ao contrário de 2015, quando MDB, PSDB e o Centrão encurralaram o governo Dilma Rousseff, as bancadas dos partidos da terceira via ajudaram Bolsonaro e Arthur Lira a aprovar medidas que ajudaram o governo a se recuperar das crises.

7.    Vivendo na bolha: Lula da Silva foi procurar FHC, reatou com Gilmar Mendes e fez de Geraldo Alckmin seu candidato a vice. Quem Tebet conseguiu falar que já não fosse da sua turma? Nem com Ciro Gomes. A continuidade do discurso antipetista só sedimentou a rejeição na esquerda e não ganhou um voto entre os bolsonaristas.

Em 2018, o que se convencionou chamar de terceira via se uniu em torno de Geraldo Alckmin e saiu com 4,7% dos votos. A turma não aprendeu e em outubro de 2022 o resultado pode ser ainda pior. Quando as eleições terminarem, a elite empresarial vai precisar de um diagnóstico honesto e uma estratégia de longo prazo para voltar a ser relevante no cenário político.

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