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Ricardo Rangel

A bandalheira perdeu a modéstia

“Ou restaure-se a moralidade pública ou locupletemo-nos todos!”, declarou Stanislaw Ponte Preta

Por Ricardo Rangel 2 dez 2021, 18h46

O Congresso aprovou a PEC dos Precatórios, que quebra o teto de gastos e constitucionaliza o calote. Antes, aprovou a PEC do Orçamento Secreto, que dá ao governo a possibilidade de comprar parlamentares com dinheiro público sem que ninguém enxergue o que está acontecendo. (É tudo inconstitucional, e as consequências são gravíssimas, mas e daí?)

O Senado aprovou a indicação para o STF de André Mendonça, homem que combateu as medidas de isolamento, usou o cargo para perseguir desafetos do presidente e atentou contra a Constituição que, como ministro, terá obrigação de defender.

O STJ anulou as condenações de Palocci, Vaccari e outros 11 réus — corruptos confessos que até devolveram a propina recebida aos cofres da União — e enviou o processo à Justiça Eleitoral (nós ainda vamos devolver aos ladrões o dinheiro que nos foi roubado). Antes, o mesmo tribunal anulou todas as decisões contra Flávio Bolsonaro no caso das rachadinhas — e o STF referendou.

Agora que o ministro é de confiança, Bolsonaro, para impedir o combate à corrupção, quer pôr o Coaf de volta no Ministério da Justiça. Em 2019, quando o ministro não era de confiança, Bolsonaro, com o mesmo objetivo, tirou o órgão do ministério.

A Polícia Federal transferiu a delegada Dominique de Castro Oliveira, responsável pela ordem de prisão contra Allan dos Santos. E exonerou a delegada Silvia Amelia da Fonseca, que pediu a extradição do blogueiro bolsonarista. Interrogou o presidente de maneira protocolar, sem perguntas difíceis e sem a presença dos advogados do denunciante, Sergio Moro (só isto bastaria para demonstrar que Bolsonaro interfere na PF. E transferiu para o interior do Rio de Janeiro, a 4.000 quilômetros de Manaus, o delegado que denunciou Ricardo Salles.

A lista continua.

A vocação do Brasil para a bandalheira é conhecida — a Constituição de artigo único (“fica todo brasileiro obrigado a ter vergonha na cara”) não foi proposta por Capistrano de Abreu à toa. O negócio aqui é tão bagunçado que o humorista Stanislaw Ponte Preta chegou a bradar “ou restaure-se a moralidade pública ou locupletemo-nos todos!”.

Mas antes a turma pelo menos tinha a virtude da hipocrisia, fingia um mínimo de decência e compostura. Agora parece que resolveu abraçar a pouca-vergonha como se não houvesse amanhã.

Sem medo de ser feliz.

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