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Últimas palavras: cartas de Alexei Navalny mostram poder da convicção

“O ‘vírus da liberdade’ não foi erradicado”, escreveu o dissidente numa das cartas escritas antes do terrível isolamento da prisão onde morreu

Por Vilma Gryzinski Atualizado em 21 fev 2024, 06h40 - Publicado em 21 fev 2024, 06h38

O “cidadão”, como foi chamado todo mundo sabe por quem numa das mais desastrosas entrevistas de todos os tempos, tinha topete. E capacidade de rir da própria situação, impossivelmente difícil, muitas vezes trancado na cela de castigo da prisão no Ártico para onde foi transferido, talvez já com o desfecho trágico planejado.

As cartas derradeiras de Alexei Navalny foram reveladas pelo New York Times e o site Free Press. Escrever era praticamente tudo o que ele tinha a fazer, fora as eventuais aparições em vídeos para julgamentos com resultados pré-definidos. Apesar do jogo de cartas marcadas, ele gostava desses eventos. “Distraem e ajudam a passar o tempo mais depressa”, escreveu. “Também proporcionam um senso de propósito e de luta”.

Em lugar de palavras grandiloquentes, disse na última correspondência com o fotógrafo exilado Evgeny Feldman, ele encontrava nas cartas do amigo “tudo o que eu gosto de discutir: comida, política, eleições, escândalos e temas étnicos”.

A última referência era à guerra em Gaza e ao antissemitismo.

Comida é um tema universal de todos os que são privados da liberdade e do acesso a refeições decentes e Navalny usou uma analogia gastronômica para descrever a opressão dominante no sistema penal russo: “Se eles receberem ordens de servir caviar, no dia seguinte servirão caviar. Se receberem ordens de estrangular você na cela, você será estrangulado”.

As palavras, obviamente, são arrepiantes à luz do que aconteceu com Navalny.

CELA DE CASTIGO

Uma parte da história russa, com todas as suas convulsões, foi escrita de dentro de celas de um sistema prisional que remonta a séculos e sobre o qual Navalny disse: “Eu sei que não sou o primeiro, mas gostaria de ser o último, ou pelo menos um dos últimos, a ser forçado a suportar isso”.

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“Depois de ler sobre seus 400 dias na ‘cela de castigo’, com rações cada vez menores, dá para entender que existem pessoas que pagaram muito mais por suas convicções”, escreveu ele a um dos mais conhecidos dissidentes do fim da era soviética, Natan Sharansky.

Navalny escreveu a Sharansky depois de ler seu livro de memórias, em abril do ano passado, Não Temerei o Mal. Contou que ele próprio estava na solitária, na qual era constantemente colocado e da qual saía com a incrível força dos dissidentes russos.

Sharansky passou nove anos preso por tentar emigrar para Israel, entre outros “crimes”. Foi um dos últimos protagonistas das famosas trocas de prisioneiros na Alemanha Oriental. Em Israel, ele entrou para a política, foi integrante de vários governos de direita e acabou renunciando a um ministério, por incrível ironia, como gesto de protesto contra a saída das forças israelenses da Faixa de Gaza.

“Seu livro me ajudou muito e continua a ajudar”, agradeceu Navalny. Sharansky respondeu que escreveu o livro quando muitos amigos ainda continuavam presos e que pretendeu produzir, mais do que um relato de seus tempos no cárcere, “um manual de como se comportar no confronto com a KGB”.

“Espero que, por mais difícil que seja fisicamente, você continue a manter sua liberdade interior”.

“CONCLUSÕES CORRETAS”

Navalny não só a manteve como se permitiu arroubos como prever o fim do regime putinista.

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“A coisa mais importante é chegar às conclusões corretas de forma a que esse estado de mentiras e hipocrisias não entre em um novo ciclo”.

“O vírus da liberdade está longe de ter sido erradicado. Não são mais dezenas ou centenas como antes, mas dezenas e centenas de milhares que não têm medo de falar pela liberdade e contra a guerra, apesar das ameaças. Centenas estão nas prisões, mas confio que não estejam alquebrados e que não desistam”.

Pode ser uma conclusão incorreta, mas quem diria que a União Soviética desmoronaria apenas seis anos depois de Natan Sharansky ter cruzado a infame “ponte dos espiões” em Berlim?

O corpo de Navalny continua retido.

Vai demorar duas semanas para “saber como o cidadão morreu”. E, obviamente, todo mundo vai acreditar no resultado.

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