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Tolice: a religião secreta e guerreira que Israel está alienando

Os drusos são ferreamente leais aos países onde vivem, mas nova lei israelense que discrimina não-judeus abala aliança e favorece inimigos de sempre

Por Vilma Gryzinski 2 ago 2018, 11h55

Não faltam problemas a Israel, em geral, e a seu primeiro-ministro, em particular. Nada como aproveitar um momento assim e criar mais problemas, desnecessários e autodestrutivos.

Num país em que 75% da população judaica convive, precariamente quando não violentamente, com 20% de árabes, muçulmanos na esmagadora maioria, os drusos são aliados preciosos.

A religião se originou no Islã xiita, mas tem características tão únicas e sincréticas que a tornam um caso especial. I

srael reconheceu isso quando decidiu formam uma etnia e uma religião à parte, chamada de Unitarismo (não confundir com a corrente cristã de mesmo nome ocidental; em árabe, a seita é chamada de Ahl Al-tawid, o povo da Unidade, e sua crença de Muahidun, ou monoteísmo).

Por causa da perseguição brutal desfechada assim que foram considerados heréticos, quase que ao mesmo tempo em que nasceu a seita, no Egito, por volta do ano 1000, os drusos recuaram para regiões montanhosas do Líbano, da Síria e do que viria a ser Israel.

Também passaram a praticar a extrema duplicidade: total lealdade ao governante de plantão contanto que pudessem praticar sua religião esotérica, tão secreta que só os iniciados têm acesso às escrituras chamadas Epístolas da Sabedoria.

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Nem um único deles até hoje revelou seu conteúdo, embora arabistas e estudiosos ocidentais tenham algumas bases sobre a mistura de conteúdos das grandes religiões abraâmicas, acrescidos de toques de filosofia neoplatônica, gnosticismo e esoterismo na linha do sufismo. Acreditam, por exemplo, em reencarnação.

CLASSE INFERIOR

Em Israel, tornaram-se os únicos não-judeus a servir nas Forças de Defesa, fora uma pequena parcela de beduínos e de uma minoria mais minúscula ainda, os circassianos. Também participam do serviço público e do parlamento. Recentemente, Israel teve um diplomata (e poeta, como é tradição) druso como embaixador no Brasil.

Já houve também um juiz da Suprema Corte druso, Salim Joubran. O juiz aposentado rompeu o silêncio esperado da categoria para protestar contra a nova lei, já aprovada no parlamento mas cuja constitucionalidade foi contestada por deputados drusos junto à Suprema Corte, que institucionaliza Israel como “estado-nação do povo judeu” e torna o árabe uma língua “especial”, mas não oficial.

“Decidi me pronunciar contra esta lei ruim e desnecessária”, resumiu Joubran. Ela cria “uma classe superior e uma classe inferior” e procura “atingir a comunidade árabe no que tem de mais importante, sua língua, seu ego, sua cultura”.

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Intelectuais e parlamentares de esquerda usam termos muito mais violentos e previsíveis. Diferente, no caso, é que entre os raros simpatizantes de Israel fora dos Estados Unidos, o único país do mundo onde o apoio ainda é sólido, muitos identificam na lei um instrumento discriminatório e deletério que só prejudica o país.

É claro que a lei só foi aprovada porque conta com grande apoio popular entre a população judaica- 58%, no total. O único ponto que é objeto de discussão em comum da esquerda à direita é a questão dos drusos israelenses (não confundir com os do Golan, a região perdida pela Síria, e que continuam, em parte, leais ao país do qual foram desprendidos em 1967, mesmo no inferno criado pela guerra civil).

Com altos serviços prestados às forças armadas e à polícia de fronteiras, o que não os torna exatamente populares junto aos árabes palestinos.

O caso mais recente foi em julho do ano passado, quando dois policiais drusos foram mortos no “ataque dos três Mohammeds” – três árabes palestinos com esse nome que saíram armados direto das preces na Esplanada das Mesquitas para atirar em quem quer que fosse das forças de segurança.

O enterro dos policiais, um dos quais era filho de um ex-parlamentar, foi uma manifestação do “pacto de sangue” entre drusos e judeus, agora gravemente afetado.

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Um oficial druso foi suspenso das Forças de Defesa por criticar pelo Facebook a nova lei, também fortemente rejeitada por judeus de alta patente da reserva, única situação em que podem falar.

A guerra civil na Síria aumentou tensões com a população drusa de Israel, tanto por exigências de ajuda aos irmãos do outro lado da fronteira quanto por protestos violentos quando os ajudados eram feridos eram integrantes de grupos islamistas.

No apagar das luzes do Estado Islâmico, uma atrocidade quase inacreditável atingiu os habitantes de Sweida, um vilarejo de agricultores drusos alinhado, na falta de outra opção que não fosse suicida, com o regime de Bashar Assad.

Durante doze horas, os atacantes massacraram sistematicamente os habitantes de Sweida. Primeiro, fizeram um ataque com múltiplos homens-bomba. Depois foram de casa em casa fuzilando os moradores indefesos.

Ao todo, entre pessoas comuns e integrantes de milícias, foram assassinadas 250 pessoas. Os militantes do Isis ainda levaram cerca de 40 mulheres e crianças como reféns – a serem resgatados com pagamento de resgate, na melhor das hipóteses, ou escravizados.

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CLUBE FECHADO

Durante séculos, os drusos viveram segundo os costumes da região. Trancadas em casa, as mulheres usavam trajes parecidos com o das muçulmanas: um vestido negro comprido e um véu branco fino cruzado sobre o ombro, cobrindo a parte de baixo do rosto.

Os homens decidem aos 40 anos se querem entrar para a hierarquia religiosa ou continuar na vida secular. Os que entram, depois de iniciados nos segredos esotéricos, passam a usar túnica negra e barrete branco.

Só é druso quem nasce de pai e mãe da religião. Ninguém de fora pode entrar, ninguém de dentro pode sair, sob pena de morte. Amal Alamuddin, a mulher de George Clooney, filha de pai druso libanês, é considerada uma traidora.

Foi no Líbano que os drusos, eternos perseguidos, perseguiram barbaramente cristãos durante a guerra civil do século 19. Os antepassados de muitos brasileiros de origem libanesa eram católicos maronitas expulsos durante o conflito, ainda na era otomana – os “turcos” de passaporte.

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Os conflitos se repetiram nos anos 80, com atrocidades mútuas. Os cristão foram expulsos do Chouf, a região montanhosa de deslumbrante beleza.

O líder dos drusos libaneses, Kamal Jumblatt, transformou-se num sobrevivente prodigioso, rompendo os mandamentos da tribo: cada hora se alia a quem for mais conveniente. Depois de ser aliado e inimigo do regime sírio, firmou posição como adversário – alinhado com os xiitas do Hezbollah.

Comparados aos vizinhos, os drusos israelenses têm benefícios extraordinários. E todo o direito de não se comparar a eles: se são cidadãos, podem exigir o mesmo tratamento para todos.

Alienar uma população de 130 mil pessoas, num país que já convive com altos níveis de hostilidade entre os cidadãos palestinos e com uma fenomenal quantidade de problemas, é uma ideia extraordinariamente parecida com autossabotagem.

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