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A freira diante dos soldados: gesto que não muda nada, mas diz tudo

De joelhos, Ann Roza Nu Tawng pediu clemência para manifestantes de Mianmar e não teve muito sucesso, exceto por mostrar poder do espírito humano

Por Vilma Gryzinski 10 mar 2021, 07h18

Num mundo um pouco mais ideal, o gesto da irmã Ann Roza teria conseguido um milagre.

De joelhos, ela implorou a um grupo que soldados que não atirassem nos manifestantes que estão desafiando as ordens do general que deu um golpe em Mianmar e mandou todo mundo calar a boca.

Os católicos são uma minoria no país, a antiga Birmânia, desde o tempo em que os portugueses conquistaram Goa, na Índia. Dois dos soldados responderam ajoelhando-se também, fazendo o gesto budista – e universal – das mãos unidas.

Como o mundo está bem longe do ideal, o gesto comovente da freira deu em nada. Os soldados foram respeitosos, mas continuaram cumprindo as ordens: dissolver os protestos nem que seja a bala.

Pouco depois de se levantar, a irmã Ann Roza viu um jovem manifestante tombado no chão com um tiro na cabeça.

O ciclo de protestos e repressão violenta tem sido o mesmo desde o começo de fevereiro, quando a cúpula militar, que permitia um simulacro de democracia tutelada, deu um golpe clássico em resposta à maciça votação no partido de Aung San Suu Kyi, a heroína da resistência birmanesa.

Ao contrário das longas décadas em que o país viveu sob um regime militar fechadíssimo, o espírito dos tempos é outros. 

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A geração mais jovem cresceu durante a abertura e os manifestantes têm o ícone de nossa era – o telefone celular – para imitar protestos em Hong Kong e na Tailândia, além de fazer suas próprias inovações, com apresentações musicais, dancinhas de TikTok e até a adesão das graciosas participantes do Miss Universo Mianmar.

Tudo, infelizmente, em vão. O general Min Aung Hlaing, o chefe do golpe, não é o tipo de sujeito que se deixa impressionar por protestos e apelos, sejam das candidatas a miss, sejam de uma freira sem nenhuma importância na ordem geral das coisas – exceto para os que viram nela um belo ato de fé e resistência pacífica.

A história recente tem vários personagens similares, capazes de mostrar o poder do espírito humano mesmo quando tudo está perdido. Os jovens húngaros da rebelião de 1956 e os bravos tchecos da Primavera de Praga, no momentoso ano de 1968, foram, obviamente, vencidos pelos tanques soviéticos. 

O chinês de camisa branca que peitou uma coluna de tanques durante outro período de fervura interna, que culminou com o massacre na Praça da Paz Celestial, também não conseguiu nada.

Pela doutrina oficial chinesa, a brutal repressão foi necessária para coibir um levante que ninguém sabia como terminaria e também permitir a abertura controlada da economia que conseguiu avanços prodigiosos no país, a caminho de se tornar a maior potência econômica do mundo.

A China hoje é a força externa mais influente em Mianmar, um país pequeno, pobre e desimportante. Com uma renda per capita de 1,6 dólares e níveis colossais de corrupção, está na categoria dos lugares ignorados, exceto quando aparece uma personalidade poderosa como Aung San Suu Kyi, recolhida, de novo, à prisão domiciliar. 

Ou alguém como a freira Ann Roza Nu Tawng para nos lembrar, com seu gesto de humildade, que o mundo tem problemas maiores do que Harry e Meghan chorando suas mágoas ou mesmo que o sentimento cíclico de que o Brasil não tem jeito mesmo.

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