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Tratamento do câncer: os 5 principais avanços na oncologia em 2023

Especialista elenca os progressos no controle da doença, caso da terapia CAR-T e do uso de inteligência artificial no combate a tumores

Por Clarissa Mathias*
28 dez 2023, 08h00

Este foi um ano de avanços importantes na oncologia, abrindo espaço para progressos na forma como detectamos e tratamos diferentes tipos de câncer. Além das drogas inovadoras, condutas e alternativas de terapias cada vez mais personalizadas nos ajudam a entender cada vez mais os mecanismos da doença e, assim, assegurarmos qualidade de vida aos pacientes em toda a sua jornada de cuidado.

Entre os “divisores de águas” na luta contra o câncer, há exemplos diversos já em aplicação. Temos novidades que têm se mostrado bem-sucedidas no meio médico e científico, como a imunoterapia e o tratamento com anticorpos monoclonais. Na linha de terapias inovadoras, destaco aquela que atualmente é considerada o maior avanço global em métodos de tratamento de tumores hematológicos, a CAR-T.

Isso significa que estamos avançando em direção a tratamentos cada vez mais precisos e individualizados, permitindo estabelecer as terapias mais adequadas no momento certo para o paciente certo. A seguir, listo cinco avanços que devem seguir pavimentando os caminhos da medicina e da ciência no combate ao câncer.

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Inteligência artificial

O assunto do momento é a Inteligência Artificial (IA), que, muito além de hologramas, games e redes sociais, também é utilizada na medicina. A oncologia é uma das áreas que mais têm apresentado inovações, especialmente conectadas com a genômica e a medicina de precisão. A tecnologia pode ser usada para processar grandes quantidades de dados e identificar padrões complexos capazes de repercutir no direcionamento do tratamento.

A partir da combinação dessas ferramentas podemos obter informações mais específicas sobre a doença. Por exemplo: testes genômicos que identificam mutações e detectam a eficácia de determinados tratamentos. A partir da análise do sequenciamento de genes do câncer, algoritmos de IA podem priorizar alterações patogênicas e associá-las a outros dados clínicos, como estágio da condição e exposição a terapias prévias, para predizer o melhor tratamento para cada paciente.

Terapia CAR-T

Dentre todas as técnicas de genômica, as de CAR-T já se tornaram, definitivamente, os grandes destaques, com resultados promissores no tratamento de doenças oncológicas do sangue, tais como mieloma múltiplo, leucemia e linfoma de células B. E o tema, é claro, seguiu em evidência em 2023.

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De forma resumida, a terapia CAR-T utiliza as atividades de células T, que estão no sistema imunológico e defendem o corpo de doenças e demais corpos estranhos ou contaminados com vírus. O princípio do novo tratamento é manipular essas células para que elas possam combater também as células tumorais. A estratégia vem se mostrando promissora para casos avançados, em que os recursos para tratamento se mostravam pouco efetivos para frear a progressão da doença.

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Individualização no tratamento

A genética também vem revolucionando o combate ao câncer de mama. Hoje há formas de identificar as alterações genéticas das células cancerosas, sejam elas hereditárias ou não. Esses avanços no conhecimento aprofundado dos mecanismos do câncer de mama se refletem não só em diagnósticos mais precisos e em estágios cada vez mais precoces, mas também possibilitam aprimorar as linhas de cuidado. O câncer de mama, de fato, começa a mergulhar na era genômica, ou seja, de tratamentos direcionados por biomarcadores.

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Imunoterapia

Um tratamento que já vinha mostrando sucesso em pacientes oncológicos com metástase no pulmão agora está disponível também para casos em estágios iniciais. Essa foi uma das principais inovações para este tipo de câncer – o que mais mata em todo o mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Pesquisas que receberam destaque nos principais eventos globais de oncologia mostram cenários importantes no combate à doença. São análises baseadas em técnicas de imunoterapia e terapia-alvo que já eram muito usadas no tratamento, mas apenas para pacientes com doença avançada, uma situação na qual as chances de cura são pequenas ou inexistentes. Agora temos dados que comprovam que é possível aplicar essas alternativas avançadas para aqueles que estão em estágios iniciais, o que aumenta exponencialmente a possibilidade de cura.

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Diversidade em pauta

Embora haja constantes avanços em inovação, tratamento e pesquisas na oncologia, é preciso abordar aspectos que vão além do diagnóstico e dados estatísticos de incidência, com olhar para as diversas questões que também geram impactos no controle da doença e na qualidade de vida da pessoa com câncer.

Os tratamentos mais avançados ainda são feitos e acessados por poucos: a baixa presença de grupos minorizados raciais e de gênero, no acesso e também na linha de frente, é preocupante. E há um debate na academia, inclusive, sobre a participação racial desigual em amostras que são usadas em estudos e laboratórios.

Focar em como podemos melhorar essa situação e abordar a diversidade de aspectos que vão além do diagnóstico e dos dados estatísticos, com olhar de lupa para as diversas questões que também geram impactos no controle da doença e na qualidade de vida da pessoa com câncer, é fundamental.

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Panorama global

Atualmente, considerando uma prevalência de cinco anos da doença, a OMS informa que mais de 50 milhões de pessoas estão vivendo com câncer em todo mundo, sendo que 1,5 milhão delas estão no Brasil – um número que, conforme as perspectivas do Instituto Nacional de Câncer (Inca), seguirá crescendo. Nos países mais pobres e em desenvolvimento, a incidência deve ter um aumento superior a 80%, aponta a entidade internacional.

As projeções indicam uma tendência de elevação dos índices de detecção do câncer, chegando ao patamar de quase 50% a mais em 2040 em comparação ao panorama atual, quando o mundo deve chegar a registrar algo em torno de 28,4 milhões de casos da doença. Isso significa que, a cada cinco pessoas, uma terá câncer em alguma fase da vida.

No Brasil, de acordo com o Inca, são esperados 704 mil novos diagnósticos de câncer a cada ano do triênio 2023 a 2025 – uma soma que resultará em mais de 2 milhões de casos da doença ao longo desses 36 meses. Entre os tipos de tumores mais comuns no país, o câncer de pele não melanoma continua na liderança.

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No recorte por gênero, o tumor de mama entre as mulheres e o de próstata nos homens permanecem como pontos de atenção, figurando no topo da lista quando observada essa divisão da população. Na liderança do ranking de incidência no país, aparecem ainda tumores de pulmão e intestino, ambos com fatores de risco ligados a hábitos de vida pouco saudáveis, como dieta rica em gordura e tabagismo.

* Clarissa Mathias é oncologista clínica, pesquisadora e membro do Conselho de Administração da Oncoclínicas&Co. Integra o Comitê de Mulheres para Oncologia da Sociedade Europeia de Oncologia Médica (Esmo) e é a primeira brasileira a fazer parte da diretoria da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco)

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