Master rachou a República, crise vai dar o tom da campanha eleitoral
Quem ouviu os desabafos de Lula sobre a condução do caso Master no Supremo, agora tem certeza de que ele sabia por que vociferava contra o juiz Toffoli
Master é o nome da crise. Ainda não se conhecem os arquivos mantidos nos telefones do ex-banqueiro Daniel Vorcaro e associados, mas está confirmado que um dos personagens citados nas conversas decodificadas é o juiz José Antonio Dias Toffoli, relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal. O chefe da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, pediu ao presidente do STF, Edson Fachin, o afastamento do juiz do inquérito. Em nota pública, Toffoli alega que a petição “trata de ilações” e a Polícia Federal não tem legitimidade para isso, “por não ser parte no processo”.
O caso é incomum, não somente porque mostra um juiz do Supremo enredado numa trama de captura do Estado por interesses privados. Mas, também, porque Toffoli e o STF se voluntariaram para estar no centro dessa crise.
Ela se espraia por Brasília. O temor com os arquivos de telefones capturados pela polícia, assim como o desesperado lançamento pela janela da mala com meio milhão de reais são evidências da fragilidade das negociações nas últimas madrugadas para uma grande “pizza”, um acordão do tipo “com Supremo e com tudo” como na Lava Jato.
Líderes do Congresso têm razões objetivas para preocupação com o que vem aí, depois do Carnaval. É diversificada a lista telefônica de políticos mencionados, ou envolvidos, em transações passíveis de investigação. É parte da exposição que começa a ser feita em praça pública das relações perigosas de integrantes da cúpula do Congresso, do Judiciário e do governo com a fração da elite empresarial sempre disposta a mostrar que dinheiro é poder supremo e tem leis próprias para a Praça dos Três Poderes, em Brasília.
O caso Master rachou a República porque acirrou conflitos latentes entre instituições e, principalmente, dentro delas. Um exemplo é confronto entre o juiz e o chefe da Polícia Federal. Outro é o embate dentro do Congresso: o senador Renan Calheiros (MDB-AL) disse ter relatado ao presidente do Supremo “o clima de constrangimento” no Tribunal de Contas da União: “O Centrão chantageou um ministro do Tribunal de Contas para que ele acabasse com a liquidação do Banco Central. Ele [Jhonatan de Jesus], hoje, decretou sigilo das informações para o Banco Central e para os próprios ministros do TCU.”
Menos visível é o conflito entre Lula e seu antigo advogado, Dias Toffoli. Recentemente, Lula surpreendeu assessores com críticas abertas àquilo que considera trapalhadas em série na condução do caso Master no Supremo. A repórter Catia Seabra registrou como, em seguida, ele deixou assessores vazarem seu impulso — contido — de chamar Toffoli para sugerir que se afaste do caso; se licencie; se aposente; ou renuncie. Quem ouviu, dias atrás, os desabafos no Palácio do Planalto, vai terminar a semana com a certeza de que Lula sabia por que vociferava contra o juiz Toffoli.
A crise é grave e há sinais de que, a partir da Quarta de Cinzas, Brasília vai enfrentar uma sequência de terremotos políticos. Devem dar o tom nesta etapa da campanha eleitoral.





