Assine VEJA por R$2,00/semana
Imagem Blog

José Casado Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO

Por José Casado
Informação e análise
Continua após publicidade

Fora do tom

Lula inebriado e Itamaraty errático fazem diplomacia surrealista

Por José Casado Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
Atualizado em 10 mar 2023, 10h32 - Publicado em 10 mar 2023, 06h00

Lula ainda era Luiz Inácio e celebrava a maioridade estreando uma gravata escura para receber o diploma de torneiro mecânico na Escola Senai do bairro Ipiranga, em São Paulo — “a melhor coisa que aconteceu na minha vida”, repetiria décadas depois aos biógrafos, entre eles Fernando Morais.

Naquele março de 1963, 8 000 quilômetros ao norte, também começava a mudar a vida de uma mulher e cinco homens, músicos em busca da melodia da sorte na Manhattan de um mundo em Guerra Fria.

Na segunda-feira 18, eles atravessaram a portaria do 112-Oeste, da Rua 48, plantado entre prédios cujas fachadas estampavam cartazes de linhas pretas e amarelas — aviso do Departamento de Defesa dos Estados Unidos sobre refúgio possível, embora duvidoso, na emergência de um ataque nuclear.

Tom Jobim, João e Astrud Gilberto, Milton Banana, Tião Neto e Stan Getz lutavam para apresentar a bossa nova fora do Brasil. Confinaram-se no estúdio A&R gravando um disco produzido por Creed Taylor para a Verve Records. Foram dois dias de desarmonia entre João do violão e Getz do saxofone. O baiano explodiu na impaciência, em português: “Tom, diga a esse gringo que ele é burro”. O carioca Jobim girou na banqueta do piano e traduziu: “Stan, o João está dizendo que o sonho dele sempre foi gravar com você”.

Foi um dos grandes momentos da diplomacia brasileira nos tempos da Guerra Fria. Lançado em março seguinte, quando o Brasil submergia na ditadura, o disco Getz/Gilberto abriu o mercado dos EUA e da Europa para a música brasileira. Na voz da estreante Astrud, vertida em inglês, Garota de Ipanema multiplicou-se em incontáveis versões, de Frank Sinatra a Madonna. Canção e álbum bateram obras dos Beatles (I Want to Hold Your Hand) e de Louis Armstrong (Hello, Dolly!) no Grammy de 1965.

A habilidade nas negociações entre seis pessoas trancafiadas entre quatro paredes, naquelas 48 horas em Nova York, resultou numa mensagem made in Brazil revolucionária na música mundial. Como Pelé no esporte, a bossa nova no jazz ajudou a moldar a identidade e o poder de influência do país.

Continua após a publicidade

“Lula inebriado e Itamaraty errático fazem diplomacia surrealista”

O mundo de Lula é outro, seis décadas depois. Profissões como a de torneiro mecânico e os complexos industriais lastreados em combustíveis fósseis foram soterrados na poeira do tempo. O Brasil, no entanto, continua a patinar na periferia do capitalismo, mais dependente e vulnerável na era dos semicondutores e da nanotecnologia — essenciais para a modernização da produção, do trabalho e da remuneração nas cidades e no campo.

A sofisticação tecnológica impõe pensamento crítico e criatividade aos indivíduos no trabalho, às empresas na produção e aos governos nas relações externas. É perceptível neste início de Lula-III que alguma coisa está fora de ordem na política externa. Sobram dissonâncias no Palácio do Planalto, movimentos erráticos no Itamaraty e incoerências na agenda diplomática.

Lula se apresenta inebriado no papel de “pacificador” da guerra de Vladimir Putin na Ucrânia, jogo geopolítico sobre o qual não possui controle ou influência. Suas chances de mediação parecem irrealistas, indicam as conversas recentes com Joe Biden (EUA), Olaf Scholz (Alemanha), Emmanuel Macron (França) e Volodymyr Zelensky (Ucrânia).

Entre outras razões, porque assumiu um lado — o do invasor. Culpa o Ocidente por colocar seus “cachorros” da aliança militar (Otan) para “latir” na fronteira do antigo império que a Rússia tenta restaurar. Se Putin é vítima, o que seria Zelensky, cujo país foi invadido? “Se ele não quisesse a guerra, ele teria negociado um pouco mais. É assim” — disse, dias atrás, diante do chanceler alemão no Planalto.

Continua após a publicidade

Esse voluntarismo ativista, ou ativismo voluntarista, está condicionado por uma lógica adequada, talvez, aos tempos da Guerra Fria, mas é dissonante com os interesses mais prementes do Brasil. Como no flerte permanente com ditaduras “amigas” da Nicarágua, Irã e Venezuela, entre outras, tende a ter baixo custo político se não gerar retaliações.

Lula inebriado, com o Itamaraty errático no contraponto, resulta numa diplomacia surrealista. O país se arrisca à perda de foco nos objetivos nacionais prioritários e urgentes, como o da mudança da estrutura produtiva na era dos semicondutores e da nanotecnologia. Sem isso, a vitrine da Floresta Amazônica continuará exuberante, mas insuficiente para inspirar uma “bossa nova” na economia.

Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA

Publicado em VEJA de 15 de março de 2023, edição nº 2832

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

O Brasil está mudando. O tempo todo.

Acompanhe por VEJA.

MELHOR
OFERTA

Digital Completo
Digital Completo

Acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 2,00/semana*

ou

Impressa + Digital
Impressa + Digital

Receba Veja impressa e tenha acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 39,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$96, equivalente a R$2 por semana.

PARABÉNS! Você já pode ler essa matéria grátis.
Fechar

Não vá embora sem ler essa matéria!
Assista um anúncio e leia grátis
CLIQUE AQUI.