Comida a prazo
No país dos juros obscenos, eleitores compram sanduíche e marmita no crediário
Todo mês 650 000 brasileiros compram marmita ou sanduíche no crediário. Essa foi a média do iFood no primeiro semestre. É o triplo do que a empresa registrou no final do ano passado, quando começou a oferecer comida a prazo. Os clientes escolhem pagar “na parcela”, em seis prestações com juros de 8,36%. Num exemplo, uma compra de 100 reais, com taxa de 20 reais pela entrega, tem custo final de 130 reais.
É evidência nova de problema antigo, a dependência crescente do crédito até para o essencial à sobrevivência. Indica uma corrosão persistente do poder de compra das pessoas — quase todos eleitores com renda mensal de até dois salários mínimos, equivalentes a 3 242 reais. Mostra, também, os limites do consumo numa economia aprisionada na baixa renda.
O país acaba de completar três décadas de convivência com juros obscenos. Desde julho de 1996, quando extraterrestres começaram a “visitar” Varginha (MG), foram poucos e breves os ciclos de juros básicos com menos de um dígito.
Contam-se apenas cinco anos (ou sessenta meses) de taxa de um dígito, dispersos no histórico de trinta anos (ou 360 meses) do Banco Central. A Selic de hoje (14%), por exemplo, é similar à de agosto de 2006 (14,25%).
Um retrato do que aconteceu nesse período está nas sucessivas safras recordes de lucros do setor financeiro. Ano passado, por exemplo, os bancos brasileiros lucraram 45,8 bilhões de dólares, equivalentes a 229 bilhões de reais, nas contas da Federação Latino-americana de Bancos (Felaban). É aumento significativo (34%) sobre o resultado de 2024, que somou 34,1 bilhões de dólares, cerca de 170 bilhões de reais.
Com frequência, os bancos brasileiros ultrapassam a média mundial de lucratividade. Tome-se a quantidade de lucro gerado em comparação ao capital investido pelos acionistas das casas bancárias. Por esse critério de retorno sobre o patrimônio líquido, a rentabilidade no mercado bancário brasileiro foi expressiva (16,7%) em 2025, a maior desde a pandemia.
No fundo dessa fotografia sobressaem 84 milhões de adultos ou eleitores enrolados em dívidas financeiras que não conseguem pagar. Na outra fila de devedores em situação crítica, informa a Serasa, estão 9 milhões de médias, pequenas e microempresas. Elas representam 37% do universo empresarial, empregam quase 90% da mão de obra disponível.
“No país dos juros obscenos, eleitores compram sanduíche e marmita no crediário”
Candidatos à Presidência da República têm atribuído o atraso econômico e o contínuo empobrecimento do eleitorado à taxa de juros, que é uma das três mais altas do planeta. É retórica de palanque. Convive-se há décadas com juros recordes, basicamente, pela necessidade contínua de capital extra para o governo se financiar, o que inclui empresas estatais deficitárias como os Correios. Os gastos federais no último ano continuaram crescendo num ritmo (6% acima da inflação) mais veloz do que a receita de tributos (5%).
Os juros pornográficos dizem muito sobre a política brasileira nas últimas três décadas. À primeira vista, parecem traduzir uma incompetência da elite em mudar o país. Na prática, refletem interesses pactuados pelas renovadas oligarquias no governo, no Congresso e no Judiciário sobre a gerência do atraso nacional.
Nos esboços de programas de governo apresentados à Justiça Eleitoral, candidatos abordam desenvolvimento e concentração de renda como problemas passíveis de tratamento num futuro remoto, eventualmente distópico. Tempo é dinheiro, e ambos são as mercadorias mais escassas para os brasileiros.
O país começou esta temporada eleitoral com 386 000 milionários (em dólar), pelas contas do grupo UBS. É número quase igual ao contingente militar inscrito nas folhas de pagamento do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. No ano passado, o Brasil produziu 9 215 novos milionários (em dólar).
No entanto, ressalta o banco, sete em cada dez brasileiros adultos — donos de título de eleitor — permanecem estacionados na base da pirâmide da renda concentrada. Na média, eles têm patrimônio de até 10 000 dólares, equivalentes a 51 000 reais. A organização independente Oxfam ressalta: “Para agravar esse cenário de vulnerabilidade, as dívidas respondem por 23,4% da riqueza bruta das famílias, comprometendo severamente a renda disponível no país”.
Sucessivas quebras de empresas relevantes marcam a atual temporada eleitoral e sinalizam crise adiante, no próximo governo. Até agora, porém, não se conhece proposta consistente de candidato presidencial ou partido para resgatar o país de uma estagnação de mais de três décadas.
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Publicado em VEJA de 28 de agosto de 2026, edição nº 3010







