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Crônicas de Peso

Por Cid Pitombo Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
O cirurgião bariátrico e pesquisador na área de obesidade Cid Pitombo reflete, em seus textos, sobre alimentação, movimento, ganho... e perda de peso

Do ‘Senhor das Armas’ ao tráfico das canetas emagrecedoras

No lugar de fuzis, medicamentos para perda de peso entram no arsenal do mercado clandestino

Por Cid Pitombo 5 mar 2026, 14h00 | Atualizado em 5 mar 2026, 14h14
Do ‘Senhor das Armas’ ao tráfico das canetas emagrecedoras Priorize VEJA no Google

Lá se vão mais de 20 anos desse intrigante filme da vida real inspirado em um traficante russo de armas e estrelado pelo fantástico Nicolas Cage. Mas parece que, nesse tempo, as coisas só pioraram em relação ao tráfico. Hoje, além de fuzis e pistolas, estão sendo contrabandeados medicamentos para uso em humanos. Não são armamentos de guerra, mas também possuem enorme potencial letal.

No enredo, Nicolas se aproveita da ganância de líderes corruptos e da degradação da União Soviética para fornecer todo tipo de armas a diversos países que as usam para se sentirem mais fortes, admirados e poderosos. Por outro lado, o personagem principal vive uma vida de riqueza e mantém a falsa impressão de ser uma pessoa de família e de ter um trabalho honesto. E, por trás disso tudo, é protegido por poderosos que também se beneficiam de seus inescrupulosos lucros.

O comércio mundial de armas é um dos que obtêm os mais vultosos lucros, assim como o de medicamentos, e faz com que guerras sejam, às vezes, iniciadas sem motivos óbvios, a não ser para renovar e perpetuar esse lucrativo mercado. Neste exato momento, bilhões de dólares estão sendo desperdiçados em mísseis e balas em diversas regiões. Vidas estão sendo perdidas, mas, em iates, jatinhos e mansões, brindam-se os enormes lucros.

Entendendo o lado mais brando dessa história, podemos imaginar que a produção de armas tenha uma justificativa de defesa, persuasão e demonstração de superioridade e, com isso, evitar conflitos, como o que ocorre entre Rússia e EUA, que sabidamente, se entrassem em guerra, poderia significar o fim do planeta.

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Mas como justificar a produção de armas falsas, que podem falhar e, com isso, matar? Esse é o universo que estamos vivendo em um terreno que jamais poderíamos imaginar: a medicina. Na ideia de que médicos e profissionais de saúde escolheram a profissão para ajudar e salvar, não deveria haver espaço para prejudicar. Muito tem se falado dos mercenários médicos nessa batalha das canetas emagrecedoras falsas ou com substâncias de origem duvidosa, mas pouco se fala da enorme e irresponsável participação de vários profissionais nessas sujas trincheiras.

Químicos, bioquímicos, engenheiros, biólogos, biomédicos, farmacêuticos e outros mais estão, neste momento, em seus bunkers clandestinos pesquisando e produzindo substâncias que poderão ceifar vidas ou lesar inocentes civis chamados de pacientes. Agora mesmo, perto da nossa fronteira, um país vizinho autorizou a produção em escala de um novo armamento — quero dizer, medicamento (retatrutida) — que ainda está em testes em outros países e sobre o qual não se tem ideia plena de seus efeitos no campo de batalha chamado corpo humano.

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Como esses militares da saúde conseguem dormir em suas barracas sabendo que estão confeccionando munições com potencial letal e, nesse caso, nem se tem a justificativa atenuadora de que podem ser para defesa? Esses desertores da saúde têm sido caçados pelas autoridades, mas, com suporte financeiro e jurídico, conseguem se camuflar na sociedade e no sistema para manter a produção e venda de suas armas. Circulam pelas redes sociais e ostentam a imagem de bem-sucedidos, como na trama de Hollywood.

A ganância financeira tem perpetuado uma sociedade de valores invertidos. Hospitais de campanha e toda a logística do cuidar sempre ficaram longe do front e protegidos. Parece que nossas últimas linhas de defesa foram rompidas, e os inimigos — soldados da vaidade e do lucro — estão, de alguma forma e até com facilidade, recrutando oficiais mal graduados da saúde para confeccionarem suas bombas.

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“Dizem que o mal triunfa quando homens de bem não fazem nada. Na verdade, o mal triunfa quando homens de bem acreditam que o mal não faz nada.” (Yuri Orlov, Senhor das Armas)

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