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As artes dos livros segundo um artista e amante dos livros

O designer gráfico e escritor Gustavo Piqueira abre sua biblioteca para refletir sobre esse objeto capaz de transcender a apreciação meramente verbal

Por Diogo Sponchiato Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
6 dez 2023, 07h56

Sim, julgamos (e lemos) livros pela capa, pelo miolo, pelas fotos e ilustrações, pelas fontes tipográficas, pelo tipo de papel e até pelas técnicas de impressão. E esses são recursos que, mais do que dar forma ao objeto na estante, funcionam como “agentes narrativos” que andam de braços dados (ou nem tanto) com a linguagem verbal.

Foi com essa ideia em mente que o artista gráfico, pesquisador e escritor Gustavo Piqueira fez uma viagem ao redor de sua biblioteca. E, entre manuscritos medievais e graphic novels contemporâneas, desfia causos e reflexões sobre “um dos artefatos produzidos pela humanidade que mais acumula capitais simbólicos”.

Famoso pelas invenções livrescas, tanto no formato como no conteúdo, o autor mostra em As Artes do Livro na Biblioteca de Gustavo Piqueira, publicado pelas editoras WMF Martins Fontes e Ateliê Editorial, que o visual tem histórias a contar. Desde Gutemberg e sua Bíblia.

As Artes do Livro na Biblioteca de Gustavo Piqueira

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Em séculos de experimentações, o livro virou repositório do saber, obra de arte, instrumento revolucionário, peça lúdica, adorno de sala de estar, projeto coletivo ou companheiro de horas solitárias… Com umas imagens e mil e tantas palavras, invadiu as ruas e os domínios digitais sem abrir mão do papel e da sua aura diante de massas ou nichos. Deu asas à imaginação e a uma indústria.

E essa jornada se torna ainda mais fascinante quando Piqueira abre sua biblioteca e expõe títulos que, de um jeito ou de outro, marcaram época, inclusive rompendo tradições, cânones e a autossuficiência da página ou do objeto-livro.

É ver e ler para crer e apreciar, tudo devidamente embalado em um belo projeto gráfico (claro!), com direito a um guia que dispensa academicismos e não esconde sua paixão ao perambular por esse museu que temos a chance de carregar e colocar no próprio colo.

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Com a palavra, o autor.

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(Foto: Kaique Xavier/Divulgação)

As Artes do Livro na Biblioteca de Gustavo Piqueira é também a declaração de amor de um bibliófilo, não? Você se considera um caça-livros?

Penso que todo livro que fala sobre livros termina por ser, de algum modo, uma espécie de declaração de amor a esse universo — mesmo quando essa declaração não é totalmente escancarada, o que penso ser o caso deste meu último trabalho. E, apesar de não me encaixar naquela figura romântica do bibliófilo farejando livros raros por aí, não nego sofrer — em estágio bem avançado — de uma compulsão por livros. Ela se manifesta, contudo, no sentido de um apetite desmedido por aquilo que cada volume pode me trazer, não num espírito ávido por caças ao tesouro.

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(Foto: WMF Martins Fontes/ Ateliê Editorial/Reprodução)

É inevitável: também julgamos e compramos livros pela capa, pela beleza do objeto, pela aparência… Quanto isso (ainda) influencia o mercado editorial e o interesse dos leitores?

Neste meu novo trabalho, tento listar uma série de obras que, a meu ver, transcendem essa função tradicional dos elementos não verbais de um livro, sejam estes visuais, materiais ou ambos. É hábito dos mais arraigados considerarmos que um livro é seu conteúdo verbal e que todo resto serve apenas ou de interface entre esse conteúdo e o leitor ou como instrumento de sedução para fisgar compradores. Mas essas construções são arbitrárias e, a meu ver, redutoras das inúmeras possibilidades existentes para se ocupar o território livro.

Assim, minha ideia central ao conceber As Artes do Livro na Biblioteca de Gustavo Piqueira foi a de juntar um grande apanhado de obras, das mais diversas classificações, épocas e proveniências, que utilizam outros recursos para além da linguagem verbal como agentes narrativos, não como paratextos ou ferramentas de marketing. E isso vai desde ilustrações e fotografias até as próprias tecnologias de impressão.

E, por conta das segmentações que foram sendo impostas pela indústria do livro (e também pelo sistema das artes) no decorrer desses quase seis séculos desde que Gutenberg imprimiu sua Bíblia, muitos desses títulos terminaram ficando à margem ou restritos a nichos e públicos específicos. Costumamos falar de livros exclusivamente como bens culturais, mas eles são também bens de consumo produzidos e promovidos por uma indústria bastante sólida. Desse modo, muitas das decisões que costumamos outorgar à dimensão de bem cultural foram, de fato, tomadas em função de objetivos bem menos edulcorantes. Se meu livro conseguir ao menos deixar isso evidente, já me darei por satisfeito.

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(Foto: WMF Martins Fontes/ Ateliê Editorial/Reprodução)

Que livros, entre raridades e obras de relevância histórica ou artística, fazem parte dos sonhos de consumo para integrar a biblioteca do Gustavo Piqueira?

Eu tento — com muito esforço — não fazer nenhuma lista desse tipo. Senão estarei completamente perdido. Não apenas financeiramente, mas também existencialmente: a lista completa certamente não abarcaria os anos que ainda tenho pela frente (e que, espero, não serão poucos).

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Considero o livro um dos artefatos produzidos pela humanidade que mais acumula capitais simbólicos — se não for o principal deles. Seu universo é, portanto, fonte inesgotável de riquezas e descobertas das mais diversas. Principalmente se não nos satisfizermos com as normas e regras de condutas impostas no que tange às suas classificações, segmentações e canonizações.

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