Assine VEJA por R$2,00/semana
Imagem Blog

Conta-gotas

Por Diogo Sponchiato
Pequenos diálogos para desbravar grandes obras & ideias − e cuidar melhor de si e do mundo
Continua após publicidade

“A desigualdade entre negros e brancos é brutal – e pouco diminuiu”

Eis a avaliação de Lia Vainer Shucman, um dos principais nomes no estudo do racismo no país e autora de duas obras recentes sobre o tema

Por Diogo Sponchiato Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO Atualizado em 13 Maio 2024, 21h07 - Publicado em 18 set 2023, 08h08

A psicóloga Lia Vainer Schucman, pesquisadora na área de relações étnico-raciais, é um agente de convergência no debate sobre racismo e desigualdade racial no Brasil. Não só por cultivar uma linha de estudo a respeito, mas também por ajudar a mobilizar encontros de especialistas e ativistas e a publicação de livros que reúnem visões e propostas para enfrentar esse fenômeno tão colado à realidade nacional.

Uma dessas obras organizadas pela professora é Branquitude (Fósforo), que transfere para o papel uma série de conversas ocorridas no Instituto Ibirapitanga em 2020 e serve de introdução dinâmica a diversos conceitos e noções que permeiam a compreensão e o combate ao racismo – a começar pela própria ideia de “branquitude”, a de um mundo que opera e oprime com o homem branco entronado nas relações de poder. 

No seu mais recente trabalho, Famílias Inter-Raciais – Tensões entre Cor e Amor, também publicado pela editora Fósforo, Lia apresenta os achados de sua pesquisa sobre esse tema tão presente e sensível em nossos lares e sociedade. Somos confrontados com uma instituição, a família, dotada de potenciais antagônicos (para o bem e para o mal) dentro das relações étnico-raciais.

Docente da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a autora conta que um livro que mudou sua vida foi É Isso um Homem?, do italiano Primo Levi, que trata da tortura psíquica dos confinados em campos de concentração nazistas. E acredita que o pensador e líder indígena Ailton Krenak tem uma obra fundamental para “entender parte do Brasil e adiar o fim do mundo”.

Branquitude e Famílias Inter-Raciais, de Lia Vainer Schucman

Com a palavra, a autora.

Qual é a importância de disseminarmos conceitos como o contrato racial e o pacto da branquitude, tão debatidos no livro que organizou e publicou recentemente, para a sociedade brasileira? Acredita que a noção de branquitude, ainda que não nomeada, esteja mais presente entre os nossos cidadãos?

Tanto o contrato racial quanto a noção de pacto da branquitude nos permitem entender como um pacto global de dominação entre pares pode ao mesmo tempo ser tão evidente e tão invisibilizado. E os dois conceitos ajudam a nomear o funcionamento e a dinâmica de dominação racial, o que ela significa e como funciona diariamente para alimentar a supremacia branca global.

Um dos intuitos por traz dos estudos críticos da branquitude é o de mostrar que os brancos não são a representação universal de humano, e sim uma, como tantas outras, particularidades do humano. Para isso é preciso nomear o branco como branco, e não creditá-lo como a norma. Neste sentido, sim, acho que a noção de branquitude, que significa nomear o branco e entender os privilégios materiais e simbólicos que as pessoas brancas obtêm dentro de uma sociedade com racismo estrutural está bem mais presente que há dez anos.

Assistimos a uma expansão na publicação de autores negros e de obras sobre racismo e desigualdade racial no país, bem como um florescimento do debate a respeito na arena pública. Dez anos depois do início do Black Lives Matter, avalia que o Brasil finalmente despertou para a causa e está buscando mudar essa realidade?

Há talvez uma maior conscientização, ou conhecimento sobre o tema, mas, se pensarmos nos dados de acesso a saúde e educação, na representação política, na distribuição de recursos e, principalmente, nos índices de violência, notamos que a desigualdade entre negros e brancos é brutal – e pouco diminuiu. Não podemos contabilizar que há uma maior consciência se ela não se transforma em ações, direitos e oportunidades iguais entre os diferentes grupos raciais.

Acredito que hoje se fala mais sobre o assunto, reconhecemos mais essas questões. No entanto, e o que me parece ainda mais perverso, fazemos muito pouco, e agora não há a desculpa que é por falta de informação. É preciso entender que falar de racismo não está sobretudo no âmbito da informação e da educação, mas no das relações de poder.

lia-vainer
(Foto: Renato Parada/Reprodução)

Ainda há de se perguntar: o que está pactuado em nossa sociedade para que se normalize e naturalize tamanha desumanização? Desumanização que não faz parar o país em um momento como este, em que três chacinas ocorreram recentemente, uma delas com uma criança de 13 anos morrendo à luz do dia com cinco balas. Isso não é suficiente para parar uma nação? Vidas negras não importam?

Seu último livro aborda as famílias inter-raciais. Considerando as ideias sobre miscigenação difundidas desde o início do século 20, até que ponto persiste o desafio de reconhecer e combater o preconceito racial dentro dos próprios lares?

Falar de raça nas famílias inter-raciais ainda é um tabu. Isso porque a raça na nossa sociedade aparece no imaginário como um divisor entre nós e eles. A raça é marcada por uma hierarquia entre humanos, impõe rupturas e relações violentas, foi e é responsável por massacres. E a família, no nosso imaginário, mesmo que na realidade não seja assim, é o lugar de acolhimento, é o lugar da união, o lugar de unificação.

Então como falar de algo que divide os humanos na instituição que idealiza a união? Minha pesquisa demonstra que, apesar da dificuldade de se falar disso no âmbito familiar, a família é um dos espaços mais profícuos para o desenvolvimento de estratégias para o enfrentamento, o acolhimento e a elaboração da violência racista vivida na sociedade de forma mais ampla, mas também o locus de legitimação e vivência racistas.

Compartilhe essa matéria via:
Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Domine o fato. Confie na fonte.

10 grandes marcas em uma única assinatura digital

MELHOR
OFERTA

Digital Completo
Digital Completo

Acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 2,00/semana*

ou
Impressa + Digital
Impressa + Digital

Receba Veja impressa e tenha acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 39,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$96, equivalente a R$2 por semana.

PARABÉNS! Você já pode ler essa matéria grátis.
Fechar

Não vá embora sem ler essa matéria!
Assista um anúncio e leia grátis
CLIQUE AQUI.