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Coluna da Lucilia

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Um vegetal consistente

O quiabo é muito mais que um ingrediente regional

Por Lucilia Diniz
12 mar 2026, 18h54 •
  • Pouca gente sabe que o quiabeiro dá belas flores. Embora muito vistosas, elas raramente são vistas, pois o que aparece nas feiras são apenas as vagens verdes desse vegetal tão antigo, que atravessou continentes e culturas antes de chegar às nossas panelas.

    Porém, se tem algo que ninguém desconhece é a característica que se tornou sua marca registrada:  a mucilagem, popularmente chamada de “baba”. Curiosamente, em muitos lugares e ao longo da história, ela foi o que fez o quiabo ser apreciado.

    Os registros mais antigos da planta sugerem que ela foi domesticada na África oriental, onde hoje estão Etiópia e Sudão, sendo cultivada há milênios ao longo do vale do Nilo. Dali se espalhou pelo resto do norte do continente, pelo Oriente Médio e pela Índia.

    Com a expansão islâmica, chegou à Europa. Em 1216 um botânico andaluz descreveu seu cultivo no Egito, e como suas vagens, colhidas verdes, eram comidas com farinha. Mas a moda não pegou. Só mais adiante, nos séculos XVII e XVIII, apareceu em jardins botânicos e estufas do Velho Continente – como planta ornamental.

    Talvez por não ter sido muito valorizado pelos europeus, os conquistadores não se deram ao trabalho de levá-lo em suas naus. Foi nos porões de navios negreiros que ele atravessou o Atlântico. Um dos principais vegetais a merecer o apelido de “planta da escravidão”, o quiabo se estabeleceu em hortas de subsistência no Brasil, no Caribe e no sul dos Estados Unidos.

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    Os nomes que ele ganhou ao longo da travessia registram essa história. Entre os povos bantos, como os angolanos, que foram boa parte dos africanos traficados para o Brasil e para os Estados Unidos, o nome dele é “ki-ngombo”. Desse termo vieram “quiabo” e “gumbo”. Já em outras partes da América, onde desembarcaram escravizados vindos da Nigéria, o nome adotado foi “okra”, a partir de “okworo”, e é o que prevalece hoje em inglês. Entre as variantes que refletem os caminhos de sua difusão estão “gombo” no francês caribenho, “bamia” no árabe, “bhindi” no hindi.

    Nesses diferentes destinos, também variou a recepção ao seu visgo. Em muitas cozinhas africanas, do Oriente Médio e da Índia, ele é valorizado justamente por dar corpo a sopas e ensopados. Já em boa parte da Europa Ocidental e em segmentos da culinária brasileira, a mucilagem é vista como defeito, o que explica terem se desenvolvido inúmeras técnicas para reduzi-la, como fritar rápido, usar ácido ou evitar mexer demais na panela.

    Sua presença na linguagem popular também reflete essa ambiguidade. Alguém que “é um quiabo” não se deixa convencer ou enganar. Em algumas regiões, “segurar o quiabo” é como “descascar um abacaxi”, resolver algo difícil. Mas às vezes o lado escorregadio é considerado benéfico. Sobretudo no interior, é comum dizer, diante de um parto fácil, que o bebê “nasceu feito um quiabo”.

    No Brasil, o vegetal ainda é muito associado às culinárias regionais. Eu até tenho uma versão light do tradicional frango com quiabo mineiro. Para mim, no entanto, ele é um ingrediente cotidiano, com poucas calorias e muita fibra. Preparo com carne moída, uso em recheio de empada e até numa versão light de “paella”. Para petiscar, faço chips e picles. Como se vê, estamos diante de um vegetal dos mais consistentes, que vai muito além da baba.

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