Carregando uma cesta, a criança entra no bosque. Vai atrás de amoras, framboesas, mirtilos, morangos. As pequenas frutas silvestres, que seduzem pela aparência vibrante e úmida, nascem em moitas e arbustos, em recantos sombreados e, muitas vezes, longe do olhar vigilante dos pais. Assim as frutas vermelhas aparecem em fábulas e contos, como um sinal de tentação e de limites ultrapassados.
Antes de entrarem nos livros e nas cozinhas, essas frutas fizeram parte da alimentação humana de forma bem mais direta e primitiva. Muito antes da organização da agricultura, povos caçadores-coletores já as reconheciam como uma forma de suprir energia rapidamente em caminhadas. Ainda hoje, elas permanecem ligadas à ideia de deslocamento e de atenção ao ambiente: é preciso saber onde olhar, quando colher, o que é seguro consumir.
Na Antiguidade clássica, amoras, framboesas e outros frutos semelhantes tinham muito menos prestígio do que uvas e figos. Foi na Idade Média que elas ganharam novo papel. Colhidas em bosques e em cercas vivas, passaram a fazer parte da alimentação camponesa e da farmacopeia dos monges, originando xaropes, vinagres, conservas e preparações consideradas benéficas ao corpo. Elas tinham uma existência híbrida: não eram plenamente cultivadas, mas também não eram totalmente selvagens.
A cultura literária e a tradição europeia preservaram essa ambiguidade. Morangos e framboesas costumam ser vistos como recompensas de breve duração, a se apreciar numa temporada determinada. As escuras amoras mancham mãos e roupas, deixando marcas visíveis de sua busca. As cerejas são frequentes em textos líricos, associadas aos lábios da mulher amada.
O curioso é que, apesar de, no imaginário, as “frutas vermelhas” formarem um grupo bastante coeso, as espécies que se costumam abarcar sob a denominação são diferentes, de origens diversas. Algumas crescem rente ao chão, outras em arbustos; umas foram domesticadas cedo, outras só recentemente passaram a ser cultivadas de forma sistemática. Nem todas, aliás, são vermelhas, e muitas nem mesmo são parentes próximas. Ainda assim, insistimos em reuni-las em torno de umas tantas características comuns, como o frescor e seu gosto nem muito doce, nem muito azedo.
No Brasil, por muito tempo, quase só tivemos acesso ao morango e às amoras domésticas. Nas últimas décadas, porém, a produção se diversificou, no Sul e no Sudeste, passando a incluir framboesas e mirtilos. Ainda é um cultivo delicado e sazonal, mas menos exótico e distante.
E ainda bem, pois, se nos contos elas sinalizam risco ou transgressão, na alimentação moderna são vistas de forma bem oposta. A partir do século XX, as “frutas vermelhas” passam a ser valorizadas tanto pela gastronomia, por seu sabor delicado, quanto pela saúde, por suas fibras e antioxidantes. Pessoalmente, gosto muito de usá-las em caldas, gelatinas ou sucos. Elas dão cor e contraste sem excesso, podendo acompanhar preparos à base de iogurte ou ricota, além de contrastar bem com queijos duros.
Acho, porém, que existe algo sutil que explica seu fascínio, muito além das cores apetitosas, do perfume ou do sabor particular: o fato de que todas elas, de alguma maneira, evocam uma ideia de aventura, de algo que precisa ser procurado e que parece só ser encontrado se cedemos ao chamado do bosque.







