Pele aveludada e luminosa. Um perfume impossível de replicar e que seduz a todos. Não estamos falando de uma musa ou de uma deusa, mas de um fruto não à toa identificado historicamente com a juventude e a beleza: o pêssego.
Sua origem remonta a mais de quatro mil anos e, nas encostas e vales da China, onde ele surgiu, o pêssego nunca foi apenas alimento. Acreditava-se que ele afastava maus espíritos, e um antigo mito fala dos pessegueiros da imortalidade, que floresciam raramente e que davam frutos que faziam eterno quem os comesse. Até hoje, entre os chineses, está presente em celebrações de aniversário, simbolizando o desejo de uma vida longa.
Foi ao viajar para o Ocidente que o pêssego adquiriu, por um equívoco geográfico, o nome que carrega na maior parte dos idiomas. Os romanos o conheceram vindo da Pérsia e, por isso, passaram a chamá-lo de “malum persicum” (fruto persa), de onde sairiam os nomes pesca, em italiano, pêche, em francês, peach, em inglês – e, naturalmente, pêssego, em português.
Ao longo do caminho, seus sentidos se ampliaram. Na Europa, além de ser associado à juventude, passou a evocar sinceridade, porque sua pele fina revela qualquer marca.
A casca, aliás, responde por boa parte do imaginário associado à fruta. A expressão “pele de pêssego”, que tem similar em diversos idiomas, circula desde o século XVII como descrição de uma aparência jovem e desejável.
Curiosamente, ela não indica uma pele lisa – ou diríamos “pele de nectarina”, que é a mesma fruta, modificada para perder o “velo”, nome da delicada penugem que recobre o pêssego. No contorno de um rosto, esses pelos quase invisíveis capturam a luz, criando um brilho difuso. Conta-se que Marylin Monroe se recusava a mascarar os seus, pois sabia que faziam um halo luminoso nas fotos e filmagens.
Muita gente, aliás, tem aversão à textura da casca, não conseguindo mordê-la ou mesmo tocá-la. Mas mesmo essas pessoas não resistem ao aroma da fruta, que seduz até quem nunca a provou.
Esse perfume é muito difícil de reproduzir, pois contém mais de cem compostos aromáticos. Porém supõe-se que o maior responsável por seu apelo sejam as lactonas, moléculas que existem também no leite materno e evocaram, segundo pesquisadores, memórias primitivas de cuidado e nutrição.
Sob essa superfície tão peculiar, encontra-se uma rica fonte de água e nutrientes, como vitamina C e fibras. Seu consumo mais comum é em doces, sobretudo em calda – artifício inventado para fazer a fruta, que é delicada, durar mais.
No Brasil, os pessegueiros se deram bem no Sul, trazidos e cultivados majoritariamente por imigrantes italianos. Para que ele pudesse viajar e atravessar climas mais quentes, virou compota. O pêssego em calda tornou-se, assim, uma sobremesa comum aqui e pode ser usado como base em muitas receitas de doces – embora eu faça com eles uma entrada saborosa e festiva, usando a versão sem açúcar e creme de ricota light.
Mesmo uma só metade lustrosa de um pêssego já sugere algo especial. Talvez porque, desde sempre, projetamos nele o que buscamos manter em nós: frescor, viço e a promessa de algo bom. É apenas uma fruta, não uma musa nem uma deusa, mas carrega, como elas, um ideal de beleza viva.





