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O julgamento de Zé Bebelo e a Lava a Jato

A Lava a Jato mostra que os criminosos de colarinho branco não têm os valores éticos dos jagunços letrados do livro Grande Sertão: Veredas

Por Deonísio da Silva
Atualizado em 18 mar 2018, 11h30 - Publicado em 18 mar 2018, 11h30
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    Réu em inusitado julgamento no pátio da Fazenda Sempre-Verde, o jagunço letrado Zé Bebelo, salvo por Riobaldo, seu ex-professor, conduz o próprio julgamento.

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    No insólito tribunal, os juízes são outros cangaceiros, liderados pelo grande chefe Joca Ramiro, todos sob o olhar misterioso de um jagunço que é jagunça: Reinaldo/Diadorim.

    A Lava a Jato pode inspirar outra leitura deste curioso episódio de Grande Sertão: Veredas, em que o sertão é assim definido: “Sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado!”. E mais: “onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade”.

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    O Brasil também já foi assim. E agora chegamos à encruzilhada onde tribunais superiores estão decidindo se continuará assim ou se mudará.

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    Fazendo as vezes de um Sérgio Moro do sertão, o jagunço Joca Ramiro, conhecido por sua lealdade e senso de justiça por todos os cangaceiros, tem diante de si um réu audacioso, solerte e a seu modo leal e sagaz. Zé Bebelo é um réu que dirige o julgamento, fixa limites de suas penas e traça as condições para cumpri-la: receber montaria, escolta, água e comida na viagem para Goiás, onde promete fixar-se, deixando de combater os ex-companheiros de luta, como vinha fazendo até ali. Mas se consegue obrar todos estes feitos é porque Joca Ramiro é um juiz ainda mais sagaz do que o réu.

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    A batalha travada pelo bando de Zé Bebelo contra as hostes de Joca Ramiro tem este particular de semelhança com a operação Lava a Jato, que parece a “indesejada das gentes”, como da morte disse o poeta Manuel Bandeira. Quando investigadores batem à porta de investigados é como se chegassem com o caixão feito sob medida para o enterro.

    Sob o comando de Sérgio Moro, a Lava a Jato mostra que os criminosos de colarinho branco não têm os valores éticos dos jagunços letrados de Grande Sertão: Veredas. A operação tornou-se onipresente na mídia, e o romance pode ser lido pelos interessados, à mão em qualquer biblioteca ou livraria, e está disponível também em portais de domínio público na internet.

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    Zé Bebelo está quase derrotado, comanda nove homens e quando seu bando conta com apenas três, Riobaldo, para salvar a vida do ex-chefe e ex-aluno, grita “Joca Ramiro quer este homem vivo”.

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    Sem saída, Zé Bebelo descarrega a arma no chão antes de ser preso e, quando os inimigos tiram-lhe o punhal, ele diz: “Ou me matam logo, aqui, ou então eu exijo julgamento correto legal”.

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    Diante de Joca Ramiro imponente, montado em cavalo branco, Zé Bebelo a pé, rasgado e sujo, requer: “Dê respeito, sou seu igual”. Ouve de Joca Ramiro: “se acalme, o senhor está preso”.

    É quando toda a jagunçada vai para a Fazenda Sempre-Verde. Zé Bebelo, de mãos amarradas, é conduzido em cima de um cavalo preto, na rabeira da tropa.

    E sobrevém o desfecho: Zé Bebelo é libertado sob condições que o próprio réu impõe.

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    *Deonísio da Silva
    Diretor do Instituto da Palavra & Professor Titular Visitante da Universidade Estácio de Sá
    https://portal.estacio.br/instituto-da-palavra

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