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Deonísio da Silva: Por cima da carne-seca

Em ligações interceptadas, ladrões de carga prometem entregar encomendas de carnes, tão certos estão de obter os produtos ao assaltar caminhões frigoríficos

Por Augusto Nunes
Atualizado em 30 jul 2020, 20h46 - Publicado em 27 ago 2017, 11h22
(Reprodução/Reprodução)

Estar por cima da carne-seca designa situação vantajosa, e o berço desta frase foi o próspero comércio da carne bem antes da chegada dos frigoríficos.

Curiosamente, foi adotada uma palavra composta, carne-seca, e não charque, que quer dizer a mesma coisa. Deram motivo à expressão os negócios de um comerciante cearense que se mudou para o Brasil meridional depois de ter perdido numa grande seca todo o gado que criava.

Na segunda metade do século XVIII, o cearense José Pinto Martins, português de nascimento, instalou suas primeiras charqueadas sulinas às margens do Arroio Pelotas (RS) e ali recuperou todas as perdas e tornou-se ainda mais rico. Foi o primeiro a ficar por cima da carne-seca.

Arroio é palavra que já existia na Espanha antes da chegada dos romanos, que a adaptaram para o Latim clássico arrugla, tal como registra Plínio, o Velho, mas virou arrugium no Latim vulgar e mudou a pronúncia e a escrita no Espanhol arroyo, sua última escala antes de chegar à língua portuguesa.

Já Pelotas deve seu nome justamente às embarcações feitas de couro e cortiça para transportar o charque e também as pessoas. Pelota, cujo étimo é pele, designava o que era feito de couro, inclusive a bola posteriormente utilizada num jogo de futebol a pelada, estado em que ficava a bola, pelada de pelos, depois de muito chutada.

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A grande quantidade destas embarcações chamadas pelotas deram nome ao arroio, ao rio e à própria localidade, até então conhecida por Freguesia São Francisco de Paula. Tinha sido fundada em 1812 pelo padre Pedro Pereira de Mesquita. Manteve o nome do santo napolitano, nascido em Paola, daí o epíteto, mesmo depois de ter sido elevada a vila em 1832, mas passou a chamar-se Pelotas quando se tornou cidade, em 1835.

O novo nome foi escolhido pelo deputado Francisco Xavier e por Antonio Fernandes Braga, então presidente da Província de São Pedro, cargo equivalente ao de governador.

Este contexto explica por que hoje em dia ninguém está por cima do charque, mas da carne-seca. Charque veio do Quíchua ch’arqui, cujo étimo persistiu também na expressão jerked beef,  utilizada por piratas ingleses do período para designar a mesma coisa. O roubo de carga, como se sabe, é muito antigo e começou em terra e mar, desde os primeiros transportes de produtos.

Na semana passada, a Rádio Bandnews Fluminense fez uma reportagem sobre o tema revelando um diálogo incrível: em ligações telefônicas interceptadas pela Polícia Federal, ladrões de carga prometem entregar encomendas de carnes e de laticínios em 48h, tão certos estão de obter os produtos neste prazo ao assaltar caminhões frigoríficos.

O processo de secar carne, frutas e legumes já era conhecido dos antigos incas muito antes da chegada de Colombo. Ch’arqui era aplicado também a pessoas ou animais que estivessem desidratados ou enfermos, com as costelas aparecendo sob a pele.

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Os comerciantes de charque eram poderosos e estiveram por cima da carne-seca ainda no século XIX, mantendo-se independentes do Império do Brasil durante a Revolução Farroupilha, entre 1835 e 1845.

Comerciantes de carne, não mais carne-seca, estiveram recentemente no centro de rumoroso escândalo com outros ladrões, desta vez envolvendo altas autoridades da República.

Mas esta é outra história.

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