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Relatório da ONU aumenta certeza de envolvimento humano no aquecimento global

Novo documento do IPCC tenta resgatar a credibilidade do painel e da ciência climática. Para isso, apresenta dados mais precisos e previsões menos alarmistas

Por Guilherme Rosa - Atualizado em 6 maio 2016, 16h17 - Publicado em 27 set 2013, 08h48

O mundo está esquentando e os cientistas têm quase certeza de que isso é culpa do homem. Segundo o novo relatório do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudança Climática, ligado à ONU), divulgado nesta sexta-feira, as pesquisas mais recentes apontam que existe 95% de certeza do envolvimento humano no aquecimento global. Há seis anos, quando o relatório anterior foi divulgado, a certeza era de 90%. A diferença parece pouca, mas é significativa em termos científicos e sugere que aumentou a precisão dos modelos climáticos usado pelo IPCC, que se esforça em recuperar a credibilidade abalada nos últimos anos.

Depois de lançar seu último relatório, em 2007, o IPCC foi alvo de críticas por ter politizado a questão climática a ponto de flertar com a manipulação de dados de pesquisas científicas. Num esforço para responder aos críticos, o novo relatório é fruto de uma depuração dos trabalhos anteriores – com informações mais precisas, abrangentes e recentes – e se mostra mais cauteloso em apontar certezas. Por isso mesmo, suas previsões são inquietantes.

Os novos modelos climáticos permitiram aos cientistas afinarem as previsões anteriores sobre o quanto a atmosfera terrestre seria sensível ao aumento de dióxido de carbono emitido pelos seres humanos. Como resultado, o IPCC baixou – um pouco – sua previsão de aquecimento global para este século. Enquanto o relatório de 2007 previa que esse aumento na temperatura iria ficar entre 1,1 e 6,4 graus Celsius, o novo relatório afirma que a temperatura deve subir entre 0,3 e 4,8 graus Celsius – o que está longe de ser tranquilizador. Os cientistas do IPCC também reconhecem que o aquecimento global sofreu uma pausa na última década, mas alertam que o efeito é apenas passageiro, e o mundo deve voltar a esquentar nos próximos anos.

O relatório em números

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O IPCC divulgou seu mais novo relatório nesta sexta-feira. Os dados, que passaram por uma revisão mais cuidadosa do que nos textos anteriores, continuam preocupantes

  1. • A temperatura na Terra subiu 0,85 grau Celsius entre 1880 e 2012.
  2. • Entre 1951 e 2012, a média de aumento na temperatura foi de 0,12 grau Celsius por década. Os cientistas do IPCC afirmam ter 95% de certeza de que o ser humano é responsável pela maior parte desse aquecimento
  3. • Desde 1998 o ritmo de aquecimento do planeta caiu para 0,05 grau Celsius por década, mas os pesquisadores afirmam que esse hiato é passageiro.
  4. • A concentração de dióxido de carbono na atmosfera hoje é 40% maior do que no período anterior à Revolução Industrial, principalmente por causa da queima de combustíveis fósseis.
  5. • Até o final do século, a temperatura pode subir 4,8 graus Celsius, na pior das hipóteses. No melhor cenário, onde as emissões humanas de dióxido de carbono são reduzidas ao máximo, esse aumento pode ficar em 0,3 grau.
  6. • O aumento no nível do mar deve ficar entre 26 e 82 centímetros até 2100
  7. • Os pesquisadores afirmam que é extremamente provável que a cobertura de gelo do ártico continue a diminuir até o final do século. Nos verões, essa cobertura pode perder entre 43% e 94% de sua área.

A revisão do modelo não elimina os riscos do aquecimento global. Está mantida a previsão de uma maior quantidade de eventos extremos, como tempestades, furacões e secas. E os cenários para as cidades litorâneas são ainda piores. O relatório de 2007 não levava em conta o derretimento de geleiras na Groenlândia e na Antártica para calcular o aumento no nível do mar, previsto entre 18 e 59 centímetros. Agora, com os modelos mais completos, o IPCC prevê que o nível dos mares vai aumentar entre 26 e 82 centímetros, o que ameaçaria inúmeras cidades costeiras.

O relatório de trinta páginas divulgado nesta sexta-feira é o produto de um encontro de cientistas e representantes governamentais reunidos em Estocolmo, na Suécia, desde segunda-feira. O texto, que é chamado de Sumário para Formuladores de Políticas, é o resumo de um relatório técnico de mais de 2.000 páginas escrito por 900 cientistas reunidos pelo IPCC e deve servir para guiar as políticas públicas dos países signatários. O texto divulgado nesta sexta-feira é apenas a primeira das quatro partes que compõem o relatório completo do IPCC.

Esse é o quinto relatório lançado pelo IPCC desde 1988. “A ciência do clima é muito dinâmica. No decorrer dos anos muitos dados novos são publicados e os modelos climáticos se refinam. Por isso, até o momento, os relatórios tiveram uma periodicidade de cerca de 5 ou 6 anos”, afirma o físico Paulo Artaxo, pesquisador da USP e membro do IPCC, que participou da realização do relatório atual e do anterior. A periodicidade permite que os resultados sejam cada vez mais confiáveis e precisos.

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Climategate – O último relatório do IPCC, com suas fortes previsões sobre o aquecimento global, foi muito bem recebido quando lançado, em 2007, o que lhe valeu o Prêmio Nobel da Paz em conjunto com o ex-vice-presidente dos Estados Unidos – e novo guru ambiental – Al Gore. Nos anos seguintes, algumas falhas grosseiras e um escândalo arranharam sua credibilidade. Uma de suas previsões dizia, por exemplo, que o Himalaia iria perder todo o seu gelo até 2035 – o que se mostrou um enorme exagero, admitido pelo próprio IPCC. Em 2009, um hacker invadiu os e-mails de cientistas envolvidos no painel e divulgou conversas comprometedoras, que indicavam conluios e acertos para ajustar os dados científicos a fim de aumentar a previsão de aquecimento global. Investigações posteriores mostraram que os dados não foram manipulados, mas o estrago estava feito.

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Judith Cury, climatologista do Instituto de Tecnologia da Georgia, nos Estados Unidos, reconhece a existência do aquecimento global de causa humana, mas critica os métodos utilizados pelo IPCC nos últimos relatórios, que estariam jogando a opinião pública contra a visão do painel. Segundo a pesquisadora, desde 2007, os cientistas climáticos têm perdido influência política e científica, principalmente por causa de denúncias quanto a manipulações de dados, por dar prioridade à política em vez da ciência e por ignorar pesquisadores contrários ao aquecimento global .”Os cientistas e instituições envolvidos no Climategate foram inocentados das acusações, mas não parecem ter compreendido a perda de confiança causada pelas denúncias. O processo do painel se baseia no parecer de peritos. Se o público e os formuladores de políticas não confiam mais nesses peritos, então podemos esperar uma recepção muito diferente a esse novo documento”, afirma.

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Os cientistas do IPCC discordam que tenha havido uma perda de credibilidade – afinal de contas, foram encontrados apenas alguns poucos erros em um relatório com mais de 3.000 páginas -, mas, mesmo assim, fizeram um esforço de produzir um relatório com maior precisão científica, com uma checagem mais rigorosa dos dados e menos diagnósticos alarmistas. “De modo algum a credibilidade do IPCC foi afetada, o que não impede o painel de procurar sempre aperfeiçoar a elaboração de relatórios que espelham o estado da arte na pesquisa em mudanças climáticas e seus efeitos no planeta”, afirma Paulo Artaxo.

Ciência do aquecimento – Segundo os cientistas, a elaboração de um novo relatório não quer dizer que o anterior estava errado ou mal elaborado, mas faz parte do processo científico, que busca sempre confrontar os novos dados com o conhecimento antigo, em busca de maior precisão e certeza. “Conforme temos novos dados, e novos processos são incluídos nos modelos climáticos, os resultados evidentemente também são aprimorados, levando a conclusões mais claras e com maior embasamento científico. Esse é o funcionamento normal da ciência”, afirma Artaxo.

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Essa maior exatidão dos modelos atuais está exemplificada nos novos cálculos do IPCC, que aumentam a certeza do envolvimento humano no aquecimento global registrado entre os anos de 1951 e 2010 (o aumento de 90% pra 95% representa, na linguagem dos cientistas, uma mudança de “muito provável” para “extremamente provável”). Segundo os cientistas, isso acontece por conta do dióxido de carbono emitido pela atividade humana, que prende na Terra a radiação emitida pelo Sol e aumenta a temperatura. Uma maior certeza dessa relação tem óbvias implicações políticas. “Ao afirmar que o homem é responsável pelas mudanças do clima, o relatório abre caminho para a implementação global de políticas públicas de redução da queima de combustíveis fósseis”, diz o físico.

Hiato – A principal controvérsia do relatório, no entanto, deve ser mesmo o hiato constatado no aquecimento global. Segundo o texto de 2007, a Terra vinha passando por um aquecimento linear nos últimos 50 anos, aumentando 0,13 grau Celsius por década. Os cientistas, no entanto, haviam falhado em perceber que, desde 1998, essa tendência havia sido interrompida – o que serviu de forte munição para os críticos do IPCC.

Hoje, o painel reconhece o hiato, afirmando que entre 1998 e 2012 o aquecimento global caiu para apenas 0,05 grau Celsius por década. No entanto, os cientistas preveem que a taxa deve voltar a subir nos próximos anos. Segundo eles, hiatos de dez ou quinze anos nas mudanças climáticas são comuns, e o que deve ser levado em conta para traçar tendências devem ser períodos mais longos de tempo.

Para explicar as causas da estagnação da temperatura global, os pesquisadores citam uma série de razões, como erupções vulcânicas (que bloqueiam a radiação solar) e períodos de baixa intensidade no ciclo do Sol. Segundo a explicação mais aceita pelo IPCC, a Terra está, sim, ficando mais quente, mas o calor adicional está sendo absorvido por determinadas regiões do planeta, não pela atmosfera. “Os mecanismos por trás dessa redução no aquecimento foram identificados: a maior absorção de calor pelas águas profundas (localizadas abaixo de 700 metros) e a maior frequência de fenômenos como o La Niña, que causam uma maior transferência de calor da atmosfera para os oceanos”, diz Artaxo.

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Precisão – Ao contrário do minucioso relatório no qual é baseado, o Sumário para Formuladores de Políticas tem função eminentemente política. Ele deve convencer os governantes ao redor do mundo que o aquecimento global é real, causado pelo homem, e que suas consequências podem ser extremamente ruins. Para tanto, deve ser o mais cientificamente preciso possível – uma falha, exagero ou manipulação podem derrubar a credibilidade de todo o trabalho, como aconteceu com o relatório de 2007, minando o esforço de milhares de cientistas em troca de um alarmismo inútil. A lição parece ter sido aprendida.

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