Clique e Assine por somente R$ 2,50/semana

Falta de chuva pode tornar Amazônia fonte de gás do efeito estufa

Revista 'Nature' traz estudo inédito que analisa emissões de carbono na floresta

Por Da Redação Atualizado em 6 Maio 2016, 16h14 - Publicado em 6 fev 2014, 16h34

Em anos extremamente secos, a Floresta Amazônica perde a sua capacidade de absorver dióxido do carbono (CO2). Em condições assim, em vez de ser um sumidouro de carbono, torna-se fonte do principal gás do efeito estufa. Um estudo elaborado por uma equipe internacional de pesquisadores tenta responder à pergunta há anos feita pelos cientistas: na média, a Floresta Amazônica é um sumidouro ou uma fonte de carbono para a atmosfera?

CONHEÇA A PESQUISA

Título original: Drought sensitivity of Amazonian carbon balance revealed by atmospheric measurements

Onde foi divulgada: revista Nature

Quem fez: L. V. Gatti, M. Gloor, J. B. Miller, C. E. Doughty, Y. Malhi, L. G. Domingues, L. S. Basso, A. Martinewski, C. S. C. Correia e outros

Instituições: Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), no Brasil, Universidade de Oxford, na Inglaterra, Agência de Pesquisa Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (Noaa), Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, e outras

Resultado: Os pesquisadores descobriram que, em anos extremamente secos, a floresta amazônica perde parte de sua capacidade de absorver dióxido do carbono (CO2)

A pesquisa, que ganhou a capa do periódico Nature nesta quinta-feira e tem entre seus principais autores a brasileira Luciana Gatti, mediu a entrada e saída de gases da floresta por dois anos seguidos, 2010 e 2011, de uma maneira inédita. Com um avião, fez 160 voos de 300 metros a 4,4 quilômetros de altura nas regiões de Santarém (PA), Rio Branco (AC), Tabatinga (AM) e Alta Floresta (MT). Em cada um dos lugares, os pesquisadores recolheram amostras de ar em tubos de vidro.

Continua após a publicidade

As análises desse material, feitas no laboratório de química atmosférica do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), em São Paulo, mostraram que, em 2010, ano em que a Floresta Amazônica passou por uma forte seca, ela emitiu mais carbono do que absorveu. Foram 480 milhões de toneladas de carbono lançadas para a atmosfera. No ano seguinte, quando o local teve chuvas acima da média, as emissões foram de 60 milhões de toneladas de carbono, valor considerado quase neutro.

CO2 neutralizado – Para chegar a esse número, os pesquisadores compararam os gases emitidos pelas queimadas e absorvidos pelas árvores. Em 2010, as queimadas emitiram 510 milhões de toneladas de CO2 e as folhas quase não removeram esse número da atmosfera: foram absorvidos apenas 30 milhões de toneladas. No ano seguinte, mais úmido, o resultado foi diverso: dos 300 milhões de toneladas de CO2 lançados na atmosfera pelas queimadas, cerca de 240 milhões foram compensados.

Leia também:

Amazônia está virando emissora de dióxido de carbono

Ártico registra média recorde de dióxido de carbono na atmosfera

A umidade foi o principal fator que determinou a absorção do dióxido de carbono pela floresta. “Percebemos que, em ambientes muito secos, a capacidade de absorver o carbono diminui muito. Sob o stress da falta de água, as folhas mais respiram (emitindo carbono) do que fazem fotossíntese (absorvendo dióxido de carbono)”, afirma Luciana.

O objetivo dos pesquisadores é compreender qual é o balanço de carbono feito pela Floresta Amazônica. Até hoje, esse número é desconhecido. “Queremos entender como funciona a floresta, saber qual a sua real capacidade de absorver carbono”, diz Luciana.

Como os dois anos passaram por extremos de chuvas e secas, ainda não é possível chegar a um valor médio ou a uma tendência. “A estratégia inédita que usamos traz resultados que representam a floresta amazônica. Mas, para cobrir toda a variação, precisamos de um estudo a longo prazo”, diz Luciana. Por isso, a pesquisa que deveria durar quatro anos – os pesquisadores recolheram também amostras de ar de 2012 e 2013 – deve ser estendida para dez anos.

Importância das queimadas – O estudo aponta para pistas sobre como funciona a região. Uma delas mostra que, quanto mais seco o ambiente, mais as queimadas são prejudiciais na hora em que a floresta tenta absorver o CO2. “Percebemos que, se houvesse uma política efetiva para coibir as queimadas, a floresta poderia retirar um número significativo de dióxido de carbono da atmosfera”, afirma Luciana.

Continua após a publicidade
Publicidade