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Como a radiação afeta os alimentos

Radioatividade pode contaminar leite, carnes, peixes, hortaliças e sementes, mas, para o Brasil, o risco do acidente nuclear no Japão é pequeno

Por Jones Rossi e Marco Túlio Pires - Atualizado em 6 Maio 2016, 17h09 - Publicado em 27 mar 2011, 10h54

O acidente na usina nuclear de Fukushima, no Japão, reacendeu o medo de consumir produtos contaminados pela radiação. Em 1986, a explosão do reator de Chernobyl, na Ucrânia, então parte da União Soviética, contaminou parte da Europa e afetou indiretamente países em outros continentes. O Brasil importou de países como Alemanha, Holanda e França carne bovina e leite que, descobriu-se mais tarde, estavam contaminados com césio-137 e césio-134, potencialmente cancerígenos.

Em caso de um acidente nuclear, seja o vazamento ou explosão de um reator, são liberados na atmosfera alguns radioisótopos (substâncias que emitem radiação) produzidos na reação de fissão (divisão) nuclear do urânio-235, como o iodo-131, césio-137, césio-134 e o estrôncio-90. Foi o que aconteceu na Europa em 1986.

Desta vez, segundo especialistas, não há motivo para a preocupação de brasileiros. A primeira razão é que a substância que mais contamina os alimentos é o iodo-131, um radioisótopo de vida curta, cerca de apenas oito dias. “Se levarmos em consideração a cadeia produtiva desses alimentos, podemos imaginar que, entre a colheita, preparo e envio para o Brasil, mais de oito dias se passem. Ou seja, o risco de termos alimento contaminado com iodo-131 vindo do Japão é muito pequeno”, afirma José Marcus Godoy, professor do departamento de química da PUC-RJ e doutor em radioquímica.

O maior perigo no caso do iodo-131 é que ele vaze da usina para o mar, contaminando peixes, moluscos e outros animais marinhos. “O consumo destes alimentos, se altamente contaminados, nas semanas imediatamente seguintes ao acidente pode ocasionar câncer na tireoide”, explica o engenheiro agrônomo Virgílio Franco, do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da USP. Mesmo assim, a ameaça é pior para os moradores próximos da região afetada. Por isso o Japão impôs restrições ao consumo de produtos de cidades próximas a Fukushima.

Para o Brasil, uma possível fonte de preocupação seriam alimentos contaminados por césio-134, césio-137 e estrôncio-90, radioisótopos que são absorvidos pelas plantas consumidas pelos animais, como gramíneas, e podem ir parar na carne bovina e no leite, como aconteceu em 1986. Hoje, como o Brasil importa poucos alimentos do Japão, o risco é mínimo. E mesmo que algum produto contaminado fosse importado, o Brasil já possui laboratórios especializados com equipamentos de alta sensibilidade, capazes de detectar rapidamente substâncias radioativas nos alimentos.

Pior cenário – A situação em Fukushima inspira cuidados, mas nada indica que a usina possa repetir o desastre de Chernobyl. Caso algo assim acontecesse, o Brasil continuaria imune aos piores efeitos da radiação. As maiores partículas lançadas pela explosão à atmosfera ficaram nas imediações da usina, podendo contaminar o solo e a água. As partículas mais leves chegariam à alta atmosfera, contaminariam o hemisfério norte, mas seriam inócuas aos países ao Sul. “As atmosferas dos hemisférios norte e sul pouco se misturam. A contaminação pelo ar em nosso hemisfério terá pouca repercussão de um acidente ocorrido no hemisfério norte”, afirma Franco.

A radiação pode contaminar alimentos no solo e na água

Fonte: José Marcus Godoy – Professor do Depto. de Química do CTC/PUC-Rio – Doutor em Radioquímica pela Technische Universität München (Alemanha)

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