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Brasil vive dilema de proteger a Amazônia e se desenvolver

O Brasil, que abriga a maior floresta tropical do mundo e sediará em 2012 a mais importante reunião de cúpula sobre o desenvolvimento sustentável, vive o dilema de encontrar o equilíbrio entre proteger sua gigantesca riqueza natural e se desenvolver como potência emergente.

A presidente Dilma Rousseff resumiu a questão há uma semana, quando disse: “talvez sejamos o único país do mundo que tem condições de ser uma potência agrícola e energética, sem deixar de ser uma potência da biodiversidade e de respeito ao meio ambiente”.

Mas os ecologistas duvidam dessa boa intenção diante do rumo de algumas políticas do governo.

“Dilma, não destrua nossas florestas”, pediram ambientalistas à presidente, durante protesto celebrado esta terça-feira em Brasília, enquanto exibiam enormes cartazes.

“O Brasil vai chegar à conferência da ONU contra as mudanças climáticas em Durban (África do Sul, iniciada esta semana) com sua liderança ambiental em risco”, alertou, em declarações à AFP, Carlos Rittl, coordenador do programa Clima e Energia da organização ambientalista Fundo Mundial para a Natureza (WWF).

O Brasil, um grande emissor de gases de efeito estufa por causa do desmatamento, apresentou à conferência climática de 2009 um ambicioso compromisso de reduzir suas emissões e o desmatamento na Amazônia em 80%, reconhecendo o papel vital da floresta na regulação do clima mundial.

Em poucos anos, o país reduziu drasticamente seu desmatamento, de 21.000 km2 de selva devastada em 2005 para 7.000 km2 em 2010.

Mas as promessas brasileiras enfrentam os planos de desenvolvimento. O Congresso, dominado por uma poderosa bancada ruralista, está prestes a aprovar a reforma do Código Florestal que pode deixar sem proteção ou livre de reflorestamento uma área equivalente à metade do Peru, a favor da agricultura, segundo dados do instituto econômico de pesquisas Aplicadas (Ipea).

O texto, que já passou pela Câmara dos Deputados e agora está no Senado, põe em xeque os compromissos ambientais brasileiros, afirmou o diretor de campanhas do Greenpeace, Sérgio Leitão.

Nos últimos dois anos, o governo também deu luz verde à construção de hidroelétricas faraônicas na Amazônia – à qual se opõem indígenas e ambientalistas – e à exploração de reservas milionárias de petróleo na camada do pré-sal, que podem transformar o país que se apresentava na vanguarda do combustível verde na mais nova meca de produção do combustível mais poluente do planeta.

“É lógico que o país pretenda se desenvolver, gerar riqueza e inclusão social. Nos últimos anos conseguimos fazer isto com avanços ambientais importantes: a pobreza diminuiu, fortalecemos a economia e ao mesmo tempo conseguimos reduzir o desmatamento da Amazônia e aumentar as áreas protegidas. Mas agora estamos saindo deste caminho da sustentabilidade”, denunciou Rittl.

O Brasil tem exercido um papel ativo nas negociações mundiais de meio ambiente e clima e no ano que vem estará no centro das atenções, ao sediar a cúpula Rio+20 das Nações Unidas, que receberá chefes de Estado de todo o mundo para discutir a economia verde e a sustentabilidade no planeta.

O País coordena suas posições nas negociações climáticas e ambientais com outros grandes emergentes: China, Índia e África do Sul, que reclamam o compromisso dos países ricos para reduzir suas emissões e defendem o direito ao desenvolvimento neste debate entre clima e economia.

Como o Brasil, a China, líder nas emissões nocivas ao planeta, apresentou em 2009 compromissos de redução de emissões.

“É justo dizer que a China parece ter reconhecido que deve pôr juntos seus objetivos de meio ambiente e desenvolvimento (…) Mas, embora estejam em um bom caminho, claramente há mais a fazer”, disse à AFP Jennifer Morgan, diretora do programa de Energia e Clima do Instituto WRI, sediado nos Estados Unidos.