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Átila Iamarino: “Não quero estar certo”

Quem é o biólogo que disse que a Covid-19 poderia matar até um milhão de pessoas no Brasil se nada fosse feito e virou uma das vozes mais ouvidas do momento

Por Maria Clara Vieira Atualizado em 20 abr 2020, 10h53 - Publicado em 19 abr 2020, 15h20

Figurinha carimbada no mundo nerd – majoritariamente frequentado pela juventude -, o biólogo Átila Iamarino, de 36 anos, é, hoje, uma das vozes (senão “a” voz) mais ouvidas da internet quando se trata do assunto do momento: a pandemia do novo coronavírus. O fenômeno que levou o pesquisador, doutor em microbiologia pela Universidade de São Paulo (USP) e com passagem pela Universidade de Yale, a extrapolar de vez o universo pop para circular nos seletíssimos grupos de WhatsApp de família teve início há um mês, quando, durante uma transmissão ao vivo no YouTube, Iamarino projetou que a Covid-19 poderia matar até um milhão de pessoas no Brasil, se nada fosse feito.

Quem estava acostumado ao tom brando e bem-humorado com qual “Átila, biólogo e pesquisador” se apresenta no Nerdologia (canal de 2,3 milhões de inscritos, do qual é membro desde 2013) se assustou com o alarmismo da conversa – motivada, segundo o cientista, pela divulgação do estudo feito pelo Imperial College de Londres que embasou as ações do governo britânico, da Casa Branca, e de outros grandes centros decisórios. “Li a pesquisa três dias antes da gravação, e fiquei muito, muito mal. É muito difícil um estudo errar a casa de grandeza dos resultados – de milhares ou milhões – e o prazo para ação efetiva já era mínimo. Processando tudo isso, o sentimento foi de luto. Sabia que a vida normal já tinha acabado. Daí a correria para fazer aquela live tão ansiosa”, conta o cientista, a VEJA.

Daquela sexta-feira em diante, a rotina do biólogo – acostumado a discorrer, por exemplo, sobre como seria a anatomia do Homem Aranha ou de um lobisomem se existissem de verdade, com todas as devidas referências científicas -, virou de cabeça para baixo. “Tive que deixar de usar as redes como ferramenta pessoal e redobrei a atenção com tudo o que falo, que pode ser mal interpretado ou levado à risca”, conta. Vista por 5,5 milhões de pessoas, a gravação levou Iamarino aos assuntos mais comentados do Twitter e, posteriormente, ao Roda Viva, programa da TV Cultura onde sua participação rendeu o recorde de edição mais vista da história, antes detido pela entrevista com o ministro Sergio Moro.

Com os novos fãs, vieram, é claro, os críticos: o biólogo foi tratado como “irresponsável” pelo youtuber bolsonarista Bernardo Kuster e pelo deputado Eduardo Bolsonaro. Átila, entretanto, não se arrepende do alerta e rejeita discussões políticas a todo custo, mesmo com quem o acusa de ser “a favor do vírus”. Em se mantendo as medidas restritivas aplicadas pelos estados, as previsões catastróficas da live do dia 20 de março, de fato, não devem se confirmar – o que não é motivo para relaxamento. “Eu não quero estar certo”, ressalta. “Estou feliz, inclusive, porque tudo indica que eu não estava. É como quando você fala para uma criança olhar para os dois lados na hora de atravessar a rua. Você não quer ‘ter razão’ para um dia poder dizer ‘tá vendo? eu avisei’. Quer que ela se previna e não tenha problemas”, explicita o biólogo.

Atualmente, Iamarino concilia as transmissões semanais sobre o coronavírus em seu próprio canal do YouTube com as gravações para o Nerdologia, o canal do grupo Jovem Nerd – um dos maiores conglomerados de cultura pop do país, liderados pelos youtubers Alexandre Ottoni e Deive Pazos – que o lançou ao grande público. “Átila é extremamente ético e preocupado com o valor e embasamento de seu conteúdo, imensamente estudioso e proativo”, elogia a dupla, que dá ao Nerdologia o peso de uma “missão cumprida”, principalmente depois que os vídeos do canal passaram a circular em escolas. Há de tudo um pouco ali, sempre pelas lentes da ciência: análise de teorias expostas em filmes de ficção (como o final mirabolante de Vingadores: Ultimato), vídeos instrutivos sobre doenças que já causaram dor de cabeça em terras tupiniquins – como o H1N1 e a zika – e curiosidade sobre tudo o que se possa imaginar, desde o peso da genética na formação da personalidade ao flagelo do suicídio.

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Em se tratando de séries, filmes e quadrinhos, contudo, o cientista não esconde a preferência por histórias que tem “começo, meio e fim”, como os mangás, e pela dupla Calvin e Haroldo. De resto, tudo é pretexto para falar sobre ciência, tema que começou a lecionar ainda durante a faculdade, em um cursinho popular. “Fui ‘mimado’ com alunos que estavam realmente interessados em aprender. De minha parte, aprendi a ser didático e a dar exemplos próximos do público”, lembra o pesquisador, que também é fundador do ScienceBlogs Brasil, um selo de qualidade que reúne portais de divulgação científica.

Das experiências online e em sala de aula, vem também a habilidade de manter o tom calmo e assertivo, mesmo quando é preciso dar más notícias. “É mais um esforço para manter o foco do que para manter a calma. Não acho que dá para ser zen numa hora dessas, mas também não adianta entrar em pânico”, justifica Iamarino, ‘quarentenado’ em São Paulo ao lado da esposa (também pesquisadora e produtora do canal) e ainda sem planos para o fim do isolamento – exceto por um abraço com tranquilidade nos pais, “como dava para fazer até dois meses atrás”.

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